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A nostalgia das primaveras

2016/09/30
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(e os invernos do nosso descontentamento)

O Facebook fez-me o favor de me apresentar, naquela secçãozinha em que nos mostra o que colocámos ou partilhámos há 1, 2, 3 ou mais anos neste dia, o post que coloco a seguir, originalmente colocado em 29 de setembro de 2013 (há 3 anos, portanto).

Como lá é dito, o post parte de um texto do filósofo e académico brasileiro Luís Felipe Pondé colocado pelo meu amigo Alfredo Esteves Júnior, que eu partilhei, juntando algumas considerações que já antes vinha fazendo (aproveitando, concordo, em certa medida – mas não toda – a boleia da autoridade académica).

E porque considero oportuna a recolocação do post não deve espantar ninguém: basta escutar, mesmo que distraidamente, as notícias. Claro que neste ínterim não apenas a situação na Síria e no Iraque se agravaram (assim como, já agora na Líbia, onde o ocidente se esforça apenas por manter a funcionar as zonas produtoras de petróleo e gás, e no Iémen, de que ninguém fala, mas onde os bombardeamentos sauditas – com armamento ocidental – são diários e também fazem milhares de vítimas), como tivemos o novel fenómeno das massas de refugiados a tentarem chegar – e a serem impedidos de o fazer – à Europa. E o terrorismo, claro, que o ISIS, pelos vistos mais cauteloso que as autoridades, só reivindica quando não pode ser contraditado. (Não que haja muita vontade de os contraditar: por um lado porque o terrorismo é uma ameaça real, e na actualidade a maioria tem a sua assinatura trágica; por outro, em termos práticos para o seu combate, é importante que se aumente o receio popular e se tornem críveis quaisquer reivindicações – ou mesmo fazendo atribuições antes delas: um exemplo entre vários, o atentado de Nice. Obra de um tresloucado desempregado, separado da família, que não respeitava – antes fazia gala em mostrar que não os respeitava – os preceitos islâmicos, que nunca foi visto numa mesquita, e sobre o qual os serviços de informação franceses e europeus não tinham nada, e andaram à pesca nas semanas seguintes, ou um astuto agente “adormecido” posto em acção no momento certo? Bom, o que é certo é que apesar de todas as atribuições e análises feitas pelos “especialistas” em tudo o que é televisão e rádio durante aquela noite e nos dias que se seguiram, e dos esforços dos serviços de informação não terem dado em nada, não existe até hoje nenhuma reivindicação credível por parte do ISIS/Daesh, na opinião de quase todos os especialistas que analisaram o assunto.)

Entre as considerações que fiz a anteceder o artigo de Pondé, não encontro razões para retirar uma vírgula.

Já quanto às considerações (que reflectem as suas convicções políticas e filosóficas) de Pondé, já dizia então que não concordava a 100%, o que era dizer pouco, concordando no entanto com o tom geral do artigo.

Nomeadamente, quando afirma que “A democracia ali [no Médio Oriente – AC] é tão estranha quanto para nós seria uma teocracia.”

Esta afirmação só é verdadeira se, de repente, chegar um bando de salvadores vindo do estrangeiro, bombardear a torto e a direito, e decretar que daqui para a frente vamos ter uma democracia, como Bush Jr. e seus capangas quiseram fazer com a invasão do Iraque, que apenas nos primeiros 3 anos provocou mais de 600.000 mortos (segundo as estatísticas mais conservadoras).

Mas não o será necessariamente se as potências democráticas ocidentais, em vez de intervirem militarmente ou apoiarem as forças mais retrógradas, apoiarem as forças mais progressistas que também por aqueles lados têm aparecido (muitas delas laicas). Será preciso lembrar o caso de Mossadegh, no Irão (então ainda Pérsia), que introduziu uma série de reformas fiscais e fundiárias (como a taxação da propriedade), a segurança social, etc. e a nacionalização da Anglo-Persian Oil Company (mais tarde BP) derrubado por um golpe organizado pela CIA a pedido do MI5.

Mas em todos aqueles países, quando surgem vozes ou movimentos moderados ou laicos, as potências ocidentais têm sentido uma atracção fatal por suprimi-las ou apoiar as forças mais retrógradas. Excepto em países que apenas produzam batatas, que não abundam por ali.

Podia apontar outros aspectos em que estou em desacordo com Pondé, mas este post não é sobre mim nem sobre ele, mas por memória de um post colocado há três anos.

 

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A nudez diáfana do burkini (ou a morte dos ” valores franceses” da liberdade, igualdade, fraternidade)

2016/08/26
(imagem retirada de https://www.facebook.com/3rdWF/)

(imagem retirada de https://www.facebook.com/3rdWF/)

O verão europeu (e mundial), mas em particular o verão francês, tem sido agitado pela polémica do “burkini”, o fato de banho inventado por uma modista australiana que, cumprindo (em princípio…) as leis islâmicas, permitiria a algumas mulheres que professam esta fé, e que o desejem, ir até uma praia, uma piscina ou um lago, e refrescarem-se ou darem umas braçadas,

Note-se que o burkini, como é evidente, não “destapa” (desculpem-me a palavra) as mulheres. E realço este facto porque as polémicas anteriores (datando de mais de um século) na luta das mulheres neste particularíssimo aspecto da sua luta pela igualdade, tinham a ver com o facto de, pelo contrário, estarem pouco vestidas (aliás os homens também começaram por usar umas coisas esquisitas, parecidas com uns pijamas de péssimo gosto, tapando os braços e pernas, isto pelo menos nos chamados banhos públicos).

Nas imagens seguintes, tiradas na década de 20 do século passado, a polícia sujeitava as mulheres mais ousadas (não, não eram as que se tapavam) verem as suas roupas medidas em público (por homens) para ver se a altura dos saiotes estava de acordo com a lei.

policia_1922 policia_palm-beach

 

Muito se caminhou desde então, mas talvez valha a pena ver o que, pouco antes daquelas fotos, se usava e se poderia chamar “burkinis avant-la-lettre” para homem e mulher.

saint_tropez homem_listado

Curiosamente, as quatro senhoras de cima foram fotografadas em St. Tropez, e portanto em absoluta oposição aos “valores franceses”, tal como eles agora foram redefinidos pelo inefável senhor Manuel Valls, primeiro-ministro francês. Elas não o sabiam, mas hoje fariam parte de uma lista restrita.

Quanto ao garboso bigodudo do fato listado, nada consta.

Não seria polémica se não tivesse opositores e defensores (assim como uma larga legião de indiferentes…)

É preciso que se diga que a questão dos trajes islâmicos (e não apenas, enquadrada na exibição de símbolos religiosos em geral) já vem sendo regulada em França há alguns anos, com mais ou menos polémica, no que diz respeito ao espaço público.

Não vou entrar nos detalhes, que envolvem quer os valores (esses sim) franceses e universais da liberdade, igualdade e fraternidade democráticas e republicanas, quer os da segurança das populações: numa palavra, a cara do cidadão e da cidadã é para se ver, para se identificar, para olhar nos olhos os outros cidadãos e ser olhado do mesmo modo.

Até aí foi a lei francesa, mas tê-la-à ultrapassado, segundo alguns, ao proibir especificamente certos tipos de vestuário, proibição essa que, sob o princípio da laicidade do Estado (e portanto aparentemente genérica), atingiu sobretudo as comunidades islâmicas.

O burkini (ou a sua polémica, visto que a peça de roupa não surgiu agora) aparece num contexto totalmente diferente: o pânico gerado com os atentados terroristas.

Se pensarmos em abstracto sobre o assunto, e olhando para as imagens que vimos atrás, toda a questão é ridícula: não se está a punir mulheres por estarem muito despidas na praia, mas por estarem demasiado vestidas! Têm a cara tapada? Não. Pelo contrário, para quem tem a ideia da mulher muçulmana tapada da cabeça aos pés, os exemplos que vi mostram mulheres um pouco mais “libertas” (e sei/faço ideia do que pesam estas aspas, pelo menos para muitas), usufruindo desse espaço público que é uma praia, um lago ou uma piscina.

burkini_5 burkini_1 burkini_2 burkini_3

É evidente que apenas um idiota poderá apontar argumentos de segurança contra estas mulheres que desfrutam da praia com a família e amigas e amigos. Levam símbolos religiosos para a praia? Não brinquem comigo. Violam os “valores franceses”, Manuel Valls? Bom, muito por baixo anda a consideração dos valores franceses, quando é preciso fazer tais concessões ao populismo e tal é o receio de deixar fugir apoios para o Front National da senhora Le Pen.

Resta um argumento igualmente muitas vezes utilizado: o burkini é a continuação da burka (e de outro vestuário que as mulheres muçulmanas seriam obrigadas a usar), pelo que ao proibi-lo as autoridades francesas (e outras que se preparam para fazer o mesmo, como as alemãs) estariam de facto a fazer um favor a estas mulheres, a contribuir para a sua “libertação”. A sério? É evidente que existe um sistema de poder em algumas sociedades (nas de maioria muçulmana em particular, mas não apenas; e não é preciso recordar que nas outras sociedades não foram os governos que impuseram o bikini e as minisaias da Mary Quant – pelo contrário, eu vi – e concerteza muita gente com a minha idade terá visto algo de semelhante- a polícia levar uma mulher cuja saia nem sequer era muito curta, e o mesmo se passou na praia com mulheres de bikini), com supremacia masculina, do pai, dos irmãos, e finalmente do marido (no limite, de qualquer homem que se arvora em zelador do que é correcto e do que está – ou ele pensa que está – num livro sagrado).

Só que esse sistema não é absoluto – não existe na realidade nenhum país com essas exigências de vestuário. Elas existem ao nível de algumas famílias, grupos, tribos, e sobretudo em zonas remotas. Claro que existe a imposição forçada, familiar, de bairro (para não parecer mal, etc. tal como com qualquer outro grupo social).

Mas uma coisa que não se deve fazer é confundir os muçulmanos que vivem na Europa com os que vivem em países de maioria muçulmana, e em que o islão é a religião oficial – e a lei reflecte isso mesmo. Mesmo se esses países têm uma grande diversidade, desde os mais democráticos, como Marrocos, a Tunísia (em transição…), a Turquia (????), a Indonésia, ao Afeganistão, Líbia, e…. Arábia Saudita.

A burka e o restante vestuário característico das mulheres muçulmanas pode ter origens históricas remotas, e ter sido aproveitado como instrumento de dominação – não tenho dúvidas sobre isso – mas o burkini pode ser um passo (pequenino que seja) para aliviar essa dominação.

E entretanto, para brincar na areia e tomar umas banhocas.

É que reparem nisto: numa coisa Valls, os munícipes do mediterrâneo e os muçulmanos ortodoxos estão de acordo:

Nenhum deles gosta do burkini!

Beijocas no cinema

2016/07/22

Nós sabemos que são a fingir, mas…

Uma bela colecção de xôxos. alguns surpreendentes, outros muito conhecidos.


 

Dívida – a reestruturação continua actual

2016/07/21

Mais um, para que não se perca na voragem fugidia da timeline do Facebook (o governo ali referido é, evidentemente, o dos inefáveis Passos/Portas/Gaspar/Maria Luís):


 

Meninos de Angola

2016/07/20

Para memória do que coloco no efémero Facebook


 

Este artigo da Raquel Varela – juntamente com outros sobre o mesmo assunto – ajuda a compreender melhor o que está / esteve em jogo na greve dos estivadores. Muitas vezes não estou de acordo com RV, e neste artigo há também alguns pontos em que discordo – em particular quando faz críticas fora de contexto a algumas decisões do governo (uma solução governativa que ela sempre recusou, aliás). Mas acho sempre salutar relembrar as origens de certas lutas, e que certas formas de organização solidária ainda não desapareceram.Quem são os Estivadores?

2016/06/8

Publicado hoje no Público, o meu artigo sobre os estivadores, que acabou por ser também um balanço do sindicalismo e do mercado laboral em Portugal. “Em 1889, Engels, depois da greve vitorios…

Source: Quem são os Estivadores?

Pela neta, pela família quadrangular e pelo santo torturador

2016/04/20

A Estátua de Sal

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 19/04/2016)

Autor                               Daniel Oliveira

Estar cinco horas à frente da televisão a ouvir as declarações de voto dos deputados brasileiros durante a votação da admissibilidade do impeachment à Presidente Dilma Rousseff foi muitíssimo pedagógico. Valeu mais do que muitas leituras e muitas notícias. O retrato que faz da política brasileira em geral e das forças que estão a derrubar o PT em particular é demolidor. Porque é um autorretrato.

Já ontem escrevi aqui sobre o processo. Já escrevi várias vezes sobre aquelas que me parecem ser as razões profundas do legítimo descontentamento do povo brasileiro. Mas nenhuma explicação pode ignorar a grotesca feira de horrores que pôde observar quem se deu ao trabalho de ouvir aquelas intervenções. Elas são a imagem de uma democracia perdida.

Os homens, quase só homens, sucediam-se em frente ao microfone. Tudo era acompanhado por vaias, gritos, cantorias que impedissem que…

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