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Há 40 anos

2017/08/8

eu carmelino gabi

No dia 23 de dezembro de 1976, estava eu a dar aulas no antigo liceu feminino de Luanda, quando a aula é interrompida (ordeiramente, diga-se) por um pequeno grupo de polícias da DISA (nome que então tinha a segurança do Estado), informando-me que eu estava preso, e, portanto, tinha de os acompanhar.

Devo dizer que – e, como é evidente, já pensei nisto muitas vezes – não manifestei uma grande surpresa, nem senti uma grande surpresa interior. Era como se soubesse que era apenas uma questão de mais dia menos dia, ou semana ou mês, mas aquele dia chegaria de certeza. O que não sabia era se e quando sairia (posso adiantar já: foi 2 anos, 7 meses e 6 dias depois, a 29 de julho de 1979).

Claro que para além da surpresa há outros sentimentos e pensamentos (certamente bem mais importantes que a surpresa que manifestamos ou sentimos) que nos vêm à cabeça, só que a situação é tal, as coisas acontecem a uma tal velocidade, que só o esforço de as coordenar faz com que depois não nos lembremos delas com exactidão.

Medo? Certamente! Sabia que dali para a frente seria eu (e outros companheiros, uns que já estavam presos e outros que entrariam depois) contra eles, sem garantias de qualquer espécie, sem advogados, sem juízes de instrução, sem organizações de direitos humanos, sem imprensa livre.

Por outro lado, tinha responsabilidades. Tanto quanto sabia, havia companheiros e companheiras que estavam salvaguardados em casas seguras, mas de que eu, enquanto membro dos órgãos dirigentes (e outro companheiro, que vim a verificar, ao entrar na prisão, também tinha sido preso), conhecíamos a localização e as identidades. Evidentemente, precisavam, pelo menos, de tempo suficiente para adaptação às novas circunstâncias.

Havia a questão de avisar as pessoas certas em tempo útil. Aqui jogou o factor sorte: entre as minhas alunas estava uma ainda hoje muito querida amiga, que conhecia alguém, que conhecia outrem, que…

Os polícias meteram-me num jipe que estava parado à porta do liceu, mas não me levaram logo para a cadeia: fomos primeiro ao meu apartamento, um pequeno estúdio no primeiro andar do prédio onde também morava o meu irmão. Se estavam à espera de encontrar grande material da organização, devem ter ficado desiludidos, porque não havia nenhum. Mas tiveram a satisfação de me levar toda a minha biblioteca (foi a terceira biblioteca que me desapareceu, sendo as duas primeiras na casa da Vila Alice, que por azar ficava no meio dos confrontos entre o MPLA e a FNLA, e que uma das vezes meteu também o exército português).

Quando pensei que estavam satisfeitos e que íamos finalmente para a prisão, o chefe (não era um chefinho, era o capitão Zé Maria, que viria a ser um dos interrogadores mais constantes, juntamente com o Helder Neto) diz que não, e que faltava uma coisa. Era o que eu mais temia, meterem o meu irmão ao barulho, que não tinha nada a ver com esta história, e irem revistarem-lhe também a casa! E a sua companheira da altura, a minha querida Leni (que foi um grande apoio durante todo o tempo em que estive preso – quando tal era possível) que era tão ciosa da arrumação da sua casa!

Bom, mas como eu não tinha voto na matéria, lá fomos, os polícias portaram-se com um mínimo de civilidade, e eu aproveitei para dizer ao meu irmão para sossegar os meus pais e sobretudo – sobretudo! – não queria ouvir falar em eles irem lá enquanto eu estivesse preso. Conhecia o suficiente de outras histórias para minimizar os riscos de chantagem que a presença dos meus pais representaria.

E finalmente lá fomos para a cadeia de S. Paulo.

A cadeia de S. Paulo já funcionava como tal no tempo colonial, estando sob a tutela da PIDE/DGS, ficando à entrada do bairro de S. Paulo, próxima do estádio da cidadela.

Tinha várias secções, sendo a maioria de celas colectivas, e uma zona destacada, a que se chamava o “comboio”, de celas individuais e salas de interrogatório (que havia também noutros edifícios).

Fui colocado numa dessas celas individuais do comboio, muito pequena. Camas não havia, nem colchões: era-nos distribuída uma daquelas mantas/cobertores muito vulgares em Angola a que se chamava “cambriquitos”, cinzentos e ásperos. Punham-se no chão e deitávamo-nos por cima, se tínhamos frio dava-se uma volta: durante toda a estadia foram meus fieis companheiros, só talvez nos últimos 2/3 meses tive cama com colchão. Havia uma sanita, daquelas no chão com lugar onde colocar os pés (que verifiquei agora na Wikipedia ser “vaso sanitário estilo turco”), onde a água corria continuamente – e que era a onde tinha de me abastecer de água. Custa, mas uma pessoa habitua-se, sobretudo quando há outras preocupações.

E a partir daí começaram as coisas sérias, ou seja, os interrogatórios, com os quais não vou maçar ninguém. Até ao Ano Novo praticaram a privação do sono, não sei ao certo durante quanto tempo. Eu e o meu outro companheiro víamo-nos de vez em quando, a passar de uma sala para outra, mas depois em conversa nenhum de nós tinha a certeza se nos tínhamos visto, se era truque da polícia, se era alucinação.

No dia 1 de janeiro de 1977 fui mudado para uma cela colectiva. Em mau estado, bem recebido por uns, mal por outros, mas pude ir recuperando.

Claro que continuaram os interrogatórios, mas a preocupação da polícia já parecia ser outra, que considerava mais séria: o fraccionismo.

Quanto a nós, o objectivo que nos propusemos de dar tempo aos outros companheiros de se reorganizarem parecia ter sido atingido (verificou-se que assim foi, pelo menos durante um ano). Mas claro que a polícia quando caça o faz com caçadeira de canos serrados, pelo que não se pôde evitar que muita gente fosse presa apenas por ter relações de proximidade ou de familiaridade com membros da organização (e outros nem isso – se bem que alguns mais que isso, embora a polícia não o soubesse…)

Como disse, em Angola não havia condições para qualquer tipo de apoio institucional ou cívico a presos políticos, naquela altura. Pelo que esse apoio passou essencialmente pelo exterior, sobretudo Portugal mas não apenas por aqui.

E foi assim esse dia, há 40 anos. No resto do tempo evidentemente passou-se muita coisa.

Fui desafiado para andar à pancada por um bandido encartado, o Sabata, que estava na mesma cela que eu e que diziam (e ele confirmava) já tinha vários mortos no currículo. Não se concretizou – bom, eu estou aqui e o Sabata não… – já não me lembro por que razão, mas no golpe do 27 de maio de 77, primeiro começaram por chamar o Sabata para reforçar a guarnição da prisão. Quando os atacantes entraram, o Sabata mudou de campo. Soube que depois foi morto.

Antes do golpe do 27 de maio de 77, a prisão começou a encher e a rebentar pelas costuras. E não eram apenas angolanos. Só à minha cela vieram parar membros dos PCs do Brasil, do Uruguai, do Chile, etc. que estavam exilados em Angola, e que se queixaram, pois ainda na semana anterior tinham estado numa reunião na embaixada da URSS.

Quanto ao golpe, vi que ia acontecer antes de começarem os tiros. A cela era no 1º andar, eu tinha ido à casa de banho e ao olhar pela janela estranhei o barulho, espreitei e vi as autometralhadoras, acho que BRDM, às voltas da prisão. Logo a seguir começa a fuzilaria, a resistência, uma das BRDM derruba a porta, a luta passa fazer-se dentro da prisão, e depois a guarnição rende-se.

Nós começamos a fazer contas de cabeça, pois não somos propriamente bem vistos entre os novos senhores da prisão. E com razão: um deles vai buscar os ficheiros e começa a fazer a chamada, mandando os chamados encostar a uma parede. Para meu azar os meus nomes próprios começam por A e F.

Mas não vou dourar a pílula: logo a seguir vem a comissária do batalhão feminino (que por acaso estava grávida), que se lembrava que o irmão, que falecera num embate com a UNITA, era nosso companheiro, a dizer que naquele dia ninguém ia ser fuzilado…

E assim eu estou aqui, 40 anos depois.

Mas ela não. Foi presa, deixaram-na ter o filho, mas foi morta.

ANEXO

Junto, a título de curiosidade, alguns recortes de jornais portugueses da altura, que os meus pais, na sua aflição, foram coligindo, sobre os vários apoios que íamos recebendo.

jornais

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Uma história simples

2017/08/8
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Corria o ano de 1974, pouco depois do 25 de Abril.

Era já tarde, e eu queria chegar a Luanda ainda de dia, pois tinha aulas na faculdade no dia seguinte, e já tinha faltado alguns dias.

Tinha ido a Silva Porto levar a Rita. Tínhamos ido os dois de avião, um Friendship da TAAG, e no aeroporto estavam os velhos, a Belita e a Magui (ainda me lembro dos berros da Magui no aeroporto: Rita! Rita! Rita!). A Rita e a Magui eram ainda miuditas, quase bébés.

Seja como for, eu precisava de regressar a Luanda, e como não tinha carro, o velho emprestou-me o seu Peugeot 404, e ele depois arranjaria maneira de alguém lho levar de volta para Nova Sintra /Catabola.

Ia a andar bem, já tinha passado a Quibala e o Muquitixe, e ia a sonhar com uns cacussos grelhados nas margens do Cuanza, no Dondo, quando ouço um barulho, e logo depois o carro começa a aquecer, mesmo muito.

peugeot 404

Não tive outra solução senão encostar. Sou um cepo em mecânica, mas deixei o motor arrefecer, e só depois abri o capot e espreitei, à espera de ver não sei o quê. Mas por acaso até vi. Tanto quanto percebi, o Peugeot tinha dois compartimentos de água para arrefecimento, ligados um ao outro, suponho que em circuito fechado (era a diesel, não sei se isso importa para alguma coisa – mas sei que os carros a diesel daquela altura eram muito diferentes dos de hoje). E verifiquei que um dos compartimentos – em plástico – estava completamente destruído, partido, ou seja, a água que era suposto passar por ali, perdia-se por completo. Até um analfabeto mecânico como eu via que se insistisse na viagem, pegaria fogo ao carro, ou qualquer coisa parecida.

Por aquela altura já estava escuro. Quem conhece aquelas paragens sabe como se passa em pouco tempo do dia claro, para o lusco-fusco, e depois para a noite escura.

Carros já não passavam há algum tempo, além disso tinha estacionado o Peugeot numa pequena saída que não era muito visível da estrada, mesmo com dia claro, muito menos à noite. Àquela hora também já não passava ninguém a pé, além disso não me parecia que houvesse aldeias ou sanzalas próximo da estrada. Sabia que havia algumas fazendas, mas não me ia aventurar no escuro à procura delas.

Claro que ainda iriam passar alguns carros – como passaram, quer ligeiros, quer camiões – mas nem me cheguei à estrada a fazer qualquer sinal. Não apenas isso por vezes não era aconselhável, àquelas horas, como era uma daquelas retas intermináveis, onde os condutores metiam o pé na tábua para chegar o mais depressa possível ao seu destino, fosse ele qual fosse.

Convenci-me então de que teria de passar a noite dentro do carro, naquele descampado, e no dia seguinte pediria uma boleia para o Dondo para trazer um mecânico para rebocar o carro. Se tivesse arranjo imediato, óptimo, seguia para Luanda nele, senão, apanhava o comboio ou o autocarro e viria busca-lo depois.

Quanto à situação presente, os maiores inimigos seriam o frio e a fome (ou assim eu pensava).

Quanto ao frio, embora naquela zona já se comece a descer do planalto central para o litoral, ainda se está a uma certa altitude, e antes de se começar a descer para Cambambe ainda tem de se subir um bocado. Sobretudo à noite – para a qual não vinha preparado – faz um friozinho cortante. Mas bom, não era por isso que me iam encontrar congelado, no dia seguinte, embora não antecipasse uma noite agradável.

A fome iria de certeza apertar mais tarde. Nas minhas directas, quer para o Huambo, quer para o Bié, fazia sempre uma paragem (normalmente no Muquitixe, mas nem sempre), para comer um prego no pão e beber uma cuca. Se estava para aí virado, sentava-me e comia e bebia, senão, metia-me no carro e ia comendo e bebendo enquanto conduzia (eu sei que isto é um sacrilégio nestes tempos de cintos de segurança, sopros no balão, etc.)

O policiamento na estrada era escasso, de vez em quando lá víamos um “creme nívea”, que era o nome dado aos Volkswagen da polícia com as cores do mesmo creme.

Seja com for, naquele dia tinha comido o meu prego (com a respectiva cuca) muito mais cedo, na Cela (a antecipar uma fome razoável para os cacussos no Dondo).

Portanto, frio e fome, os inimigos a enfrentar. O antídoto? Sono vigilante (afinal, estava no meio de nenhures), e de manhã apanhar uma boleia para o Dondo, arranjar um mecânico (ou um restaurante? Logo se veria).

Lembro-me que nos primeiros momentos em que me aconcheguei para dormir, passaram logo alguns carros, dois deles a uma velocidade razoável, que talvez tivessem permitido uma abordagem. Bah! Já tinham passado, não valia a pena pensar mais nisso.

Voltei a aconchegar-me e a tentar dormir.

E foi então que o ouvi.

Quando conto esta história refiro-me sempre a “ele” como “o leão”, mas na realidade, nunca o vi, portanto não posso jurar que fosse de facto um leão.

Só o ouvi, isto é o seu urro.

Primeiro foi uma coisa indistinta, não tive a certeza (ou não quis acreditar).

Depois um segundo urro, mais distinto e, pareceu-me, mais próximo. Confesso que este me provocou algum formigueiro na cabeça. É certo que estava dentro de um carro, mas era um Peugeot 404 com vidros por todos os lados (avariado, ainda por cima), e não um tanque Panzer.

E depois, que diabo, não é suposto os leões dormirem de noite (que era também o que eu gostava de estar a fazer)? Talvez este estivesse apenas a ir ter com a família.

Não vale a pena prolongar o suspense. Ainda ouvi acho que mais uns três urros, e lembro-me que um deles me pareceu demasiado próximo, o suficiente pelo menos para eu quase não pregar olho para o resto da noite (a não ser eventualmente por breves instantes, por cansaço, medo ou nervosismo).

Mas acho que tudo isto se passou no início da noite. O bicho terá partido para outras paragens, ou terá continuado a sua jornada, pois não viu motivos para alterar os seus planos originais. Os meus é que nem tanto.

De manhã procedi como tinha planeado. O primeiro carro a passar foi uma camioneta Scania-Vabis. O motorista não apenas se prontificou a dar-me a boleia até ao Dondo como a dar uma vista de olhos ao Peugeot, tendo confirmado as minhas previsões.

scania

Como era mesmo muito cedo, chegámos ao Dondo antes da abertura da oficina, pelo que ofereci ao motorista da Scania (cujo nome não recordo) o pequeno almoço – não os sonhados cacussos da véspera, mas um grande bife com ovo a cavalo, batatas fritas, bacon, fiambre, regado a cerveja, e depois muito café. Não era só eu que estava cheio de fome, ele tinha conduzido toda a noite, e ainda ia para Luanda!

Na oficina tive de esperar um bocado, mas depois foram comigo o patrão e um mecânico numa camioneta (que fazia as vezes de reboque) ver o Peugeot. Chegados lá, estavam uns miuditos, que deveriam ser de alguma sanzala próxima, a olhar com curiosidade, mas tanto quanto verifiquei não lhe tinham tocado. Claro que fizeram a habitual festa, com risos e galhofa, com as dificuldades das manobras para colocar o Peugeot em cima da camioneta, o que irritou o mecânico que foi connosco, que teve de ser acalmado pelo patrão, que conduzia a camioneta.

Bom, como diz o título, esta é uma história simples (ou uma não história).

O Peugeot teve que ficar no Dondo uns dias, eu regressei a Luanda na carreira da EVA, e depois o mesmo alguns dias depois para buscar o carro.

autocarros EVA

 

 

 

 

 

 

 

Ah, mas dessa vez matei as saudades dos cacussos à beira rio.

Uma semana de espanto, críticas e medos

2016/11/14

 

Faz amanhã uma semana que Donald Trump foi eleito 45º presidente dos Estados Unidos da América.

Ainda na véspera, a maioria dos analistas e órgãos de comunicação (dentro e fora dos EUA) colocavam a sua oponente, Hillary Clinton, como favorita, à frente quer no voto popular quer no colégio eleitoral (assim como previam que os democratas reconquistassem a maioria pelo menos no Senado).

Essa tendência só se começou a inverter já durante as primeiras sondagens à boca da urna, e só então muitos (inclusive, ao que pareceu, pertencentes ao próprio staff de Trump) começaram a acreditar na vitória do candidato mais impreparado e com a campanha eleitoral mais racista, misógina, antissemita, isolacionista da história dos EUA, e aquele cujos aspectos da vida pessoal que vinham a público mostravam um ser abaixo de qualquer qualificação, na relação com as mulheres (conversas de balneário, gravadas – que, é certo, levantam aspectos de privacidade), com os seus subordinados, ou com as instituições (“não pagar impostos faz de mim mais esperto que os outros”).

Muita gente se tem debruçado (e continuará a debruçar) sobre o que realmente aconteceu: se foi Trump que ganhou se foi Hillary e o partido democrata que perderam (para além dos resultados efectivos e mensuráveis, bem entendido: Trump será empossado e Hillary não…)

Refiro-me evidentemente a questões como se a candidata dos democratas foi bem escolhida, se a sua campanha foi bem conduzida, etc. etc. Porque do outro lado tudo apontaria para a pior escolha, para uma campanha destrambelhada, divisionista e exclusiva, e no entanto ganhou.

Este pequeno texto faço-o apenas para meu benefício e memória futura do que publiquei no Facebook na última semana de campanha. São pequenos textos meus, sem maior conhecimento do que aquilo que ia vendo nos órgãos de comunicação social.

É visível que não nutro grandes simpatias por Hillary Clinton, mas evidentemente preferia que fosse ela a eleita no lugar de Trump.

O post seguinte foi colocado no dia 2 de Novembro, uma semana e um dia antes da eleição. Acho que estava preocupado (nota-se muito?)

O post seguinte, colocado no dia 5 de Novembro, é uma partilha do The Economist, e tem a particularidade de contrariar o excesso de confiança dos democratas, mas no caso inverso ao que ocorreu, isto é, perder o voto popular, mas esperando mesmo assim ganhar no colégio eleitoral… Surpresas, surpresas…

O post seguinte foi colocado dia 6/11, 2 dias antes da votação, e nele manifesta-se, sobrepondo-se ao cepticismo, muito wishfull thinking (“Trump pode não ganhar”…), mas sobretudo um pouco (não tudo…) do que eu acho que está errado em Hillary Clinton (e muito mais haveria a dizer, e se calhar deveria, e só não foi por qualquer preconceito politicamente correcto, por ser mulher, por ser a candidata do “lado certo”, etc. – talvez cheguemos um dia à conclusão que criticar a tempo – se bem – o nosso lado pode ser mais importante que criticar os apoiantes do outro lado).

Eu sei que o post seguinte, uma partilhe feita na véspera do dia da votação, é mauzinho. Mas eu não esqueço que Hillary, enquanto foi Secretária de Estado no primeiro mandato de Obama, encheu o departamento de neocons que vinham dos apoiantes de Bush pai e filho, incluindo a senhora Victoria Nuland, esposa de Robert Kagan, que era um dos seus ideólogos. A senhora Nuland foi a orquestradora do cerco da NATO à Rússia e do golpe de Kiev que resultou na destituição de um presidente eleito da Ucrânia (ficou famosa a sua frase “fuck the EU”, ouvida por vários jornalistas e diplomatas, quando lhe disseram que vários países da União Europeia não viam com bons olhos as provocações à Rússia). E Hillary tem responsabilidades nos campos do ISIS em que se tornaram a Líbia, o norte do Iraque e o leste da Síria. Não as responsabilidades na criação do ISIS que Trump lhe quis atribuir, no entanto: essas são todas das aventuras de Bush Jr.

Finalmente, no próprio dia da votação, a esperança de que o Al Capone tivesse razão, porque de facto este ano os Chicago Cubs lá ganharam o campeonato deles (a que chamam pomposamente “World Series”) pela primeira vez desde 1908…

 


A nostalgia das primaveras

2016/09/30
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(e os invernos do nosso descontentamento)

O Facebook fez-me o favor de me apresentar, naquela secçãozinha em que nos mostra o que colocámos ou partilhámos há 1, 2, 3 ou mais anos neste dia, o post que coloco a seguir, originalmente colocado em 29 de setembro de 2013 (há 3 anos, portanto).

Como lá é dito, o post parte de um texto do filósofo e académico brasileiro Luís Felipe Pondé colocado pelo meu amigo Alfredo Esteves Júnior, que eu partilhei, juntando algumas considerações que já antes vinha fazendo (aproveitando, concordo, em certa medida – mas não toda – a boleia da autoridade académica).

E porque considero oportuna a recolocação do post não deve espantar ninguém: basta escutar, mesmo que distraidamente, as notícias. Claro que neste ínterim não apenas a situação na Síria e no Iraque se agravaram (assim como, já agora na Líbia, onde o ocidente se esforça apenas por manter a funcionar as zonas produtoras de petróleo e gás, e no Iémen, de que ninguém fala, mas onde os bombardeamentos sauditas – com armamento ocidental – são diários e também fazem milhares de vítimas), como tivemos o novel fenómeno das massas de refugiados a tentarem chegar – e a serem impedidos de o fazer – à Europa. E o terrorismo, claro, que o ISIS, pelos vistos mais cauteloso que as autoridades, só reivindica quando não pode ser contraditado. (Não que haja muita vontade de os contraditar: por um lado porque o terrorismo é uma ameaça real, e na actualidade a maioria tem a sua assinatura trágica; por outro, em termos práticos para o seu combate, é importante que se aumente o receio popular e se tornem críveis quaisquer reivindicações – ou mesmo fazendo atribuições antes delas: um exemplo entre vários, o atentado de Nice. Obra de um tresloucado desempregado, separado da família, que não respeitava – antes fazia gala em mostrar que não os respeitava – os preceitos islâmicos, que nunca foi visto numa mesquita, e sobre o qual os serviços de informação franceses e europeus não tinham nada, e andaram à pesca nas semanas seguintes, ou um astuto agente “adormecido” posto em acção no momento certo? Bom, o que é certo é que apesar de todas as atribuições e análises feitas pelos “especialistas” em tudo o que é televisão e rádio durante aquela noite e nos dias que se seguiram, e dos esforços dos serviços de informação não terem dado em nada, não existe até hoje nenhuma reivindicação credível por parte do ISIS/Daesh, na opinião de quase todos os especialistas que analisaram o assunto.)

Entre as considerações que fiz a anteceder o artigo de Pondé, não encontro razões para retirar uma vírgula.

Já quanto às considerações (que reflectem as suas convicções políticas e filosóficas) de Pondé, já dizia então que não concordava a 100%, o que era dizer pouco, concordando no entanto com o tom geral do artigo.

Nomeadamente, quando afirma que “A democracia ali [no Médio Oriente – AC] é tão estranha quanto para nós seria uma teocracia.”

Esta afirmação só é verdadeira se, de repente, chegar um bando de salvadores vindo do estrangeiro, bombardear a torto e a direito, e decretar que daqui para a frente vamos ter uma democracia, como Bush Jr. e seus capangas quiseram fazer com a invasão do Iraque, que apenas nos primeiros 3 anos provocou mais de 600.000 mortos (segundo as estatísticas mais conservadoras).

Mas não o será necessariamente se as potências democráticas ocidentais, em vez de intervirem militarmente ou apoiarem as forças mais retrógradas, apoiarem as forças mais progressistas que também por aqueles lados têm aparecido (muitas delas laicas). Será preciso lembrar o caso de Mossadegh, no Irão (então ainda Pérsia), que introduziu uma série de reformas fiscais e fundiárias (como a taxação da propriedade), a segurança social, etc. e a nacionalização da Anglo-Persian Oil Company (mais tarde BP) derrubado por um golpe organizado pela CIA a pedido do MI5.

Mas em todos aqueles países, quando surgem vozes ou movimentos moderados ou laicos, as potências ocidentais têm sentido uma atracção fatal por suprimi-las ou apoiar as forças mais retrógradas. Excepto em países que apenas produzam batatas, que não abundam por ali.

Podia apontar outros aspectos em que estou em desacordo com Pondé, mas este post não é sobre mim nem sobre ele, mas por memória de um post colocado há três anos.

 

A nudez diáfana do burkini (ou a morte dos ” valores franceses” da liberdade, igualdade, fraternidade)

2016/08/26
(imagem retirada de https://www.facebook.com/3rdWF/)

(imagem retirada de https://www.facebook.com/3rdWF/)

O verão europeu (e mundial), mas em particular o verão francês, tem sido agitado pela polémica do “burkini”, o fato de banho inventado por uma modista australiana que, cumprindo (em princípio…) as leis islâmicas, permitiria a algumas mulheres que professam esta fé, e que o desejem, ir até uma praia, uma piscina ou um lago, e refrescarem-se ou darem umas braçadas,

Note-se que o burkini, como é evidente, não “destapa” (desculpem-me a palavra) as mulheres. E realço este facto porque as polémicas anteriores (datando de mais de um século) na luta das mulheres neste particularíssimo aspecto da sua luta pela igualdade, tinham a ver com o facto de, pelo contrário, estarem pouco vestidas (aliás os homens também começaram por usar umas coisas esquisitas, parecidas com uns pijamas de péssimo gosto, tapando os braços e pernas, isto pelo menos nos chamados banhos públicos).

Nas imagens seguintes, tiradas na década de 20 do século passado, a polícia sujeitava as mulheres mais ousadas (não, não eram as que se tapavam) verem as suas roupas medidas em público (por homens) para ver se a altura dos saiotes estava de acordo com a lei.

policia_1922 policia_palm-beach

 

Muito se caminhou desde então, mas talvez valha a pena ver o que, pouco antes daquelas fotos, se usava e se poderia chamar “burkinis avant-la-lettre” para homem e mulher.

saint_tropez homem_listado

Curiosamente, as quatro senhoras de cima foram fotografadas em St. Tropez, e portanto em absoluta oposição aos “valores franceses”, tal como eles agora foram redefinidos pelo inefável senhor Manuel Valls, primeiro-ministro francês. Elas não o sabiam, mas hoje fariam parte de uma lista restrita.

Quanto ao garboso bigodudo do fato listado, nada consta.

Não seria polémica se não tivesse opositores e defensores (assim como uma larga legião de indiferentes…)

É preciso que se diga que a questão dos trajes islâmicos (e não apenas, enquadrada na exibição de símbolos religiosos em geral) já vem sendo regulada em França há alguns anos, com mais ou menos polémica, no que diz respeito ao espaço público.

Não vou entrar nos detalhes, que envolvem quer os valores (esses sim) franceses e universais da liberdade, igualdade e fraternidade democráticas e republicanas, quer os da segurança das populações: numa palavra, a cara do cidadão e da cidadã é para se ver, para se identificar, para olhar nos olhos os outros cidadãos e ser olhado do mesmo modo.

Até aí foi a lei francesa, mas tê-la-à ultrapassado, segundo alguns, ao proibir especificamente certos tipos de vestuário, proibição essa que, sob o princípio da laicidade do Estado (e portanto aparentemente genérica), atingiu sobretudo as comunidades islâmicas.

O burkini (ou a sua polémica, visto que a peça de roupa não surgiu agora) aparece num contexto totalmente diferente: o pânico gerado com os atentados terroristas.

Se pensarmos em abstracto sobre o assunto, e olhando para as imagens que vimos atrás, toda a questão é ridícula: não se está a punir mulheres por estarem muito despidas na praia, mas por estarem demasiado vestidas! Têm a cara tapada? Não. Pelo contrário, para quem tem a ideia da mulher muçulmana tapada da cabeça aos pés, os exemplos que vi mostram mulheres um pouco mais “libertas” (e sei/faço ideia do que pesam estas aspas, pelo menos para muitas), usufruindo desse espaço público que é uma praia, um lago ou uma piscina.

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É evidente que apenas um idiota poderá apontar argumentos de segurança contra estas mulheres que desfrutam da praia com a família e amigas e amigos. Levam símbolos religiosos para a praia? Não brinquem comigo. Violam os “valores franceses”, Manuel Valls? Bom, muito por baixo anda a consideração dos valores franceses, quando é preciso fazer tais concessões ao populismo e tal é o receio de deixar fugir apoios para o Front National da senhora Le Pen.

Resta um argumento igualmente muitas vezes utilizado: o burkini é a continuação da burka (e de outro vestuário que as mulheres muçulmanas seriam obrigadas a usar), pelo que ao proibi-lo as autoridades francesas (e outras que se preparam para fazer o mesmo, como as alemãs) estariam de facto a fazer um favor a estas mulheres, a contribuir para a sua “libertação”. A sério? É evidente que existe um sistema de poder em algumas sociedades (nas de maioria muçulmana em particular, mas não apenas; e não é preciso recordar que nas outras sociedades não foram os governos que impuseram o bikini e as minisaias da Mary Quant – pelo contrário, eu vi – e concerteza muita gente com a minha idade terá visto algo de semelhante- a polícia levar uma mulher cuja saia nem sequer era muito curta, e o mesmo se passou na praia com mulheres de bikini), com supremacia masculina, do pai, dos irmãos, e finalmente do marido (no limite, de qualquer homem que se arvora em zelador do que é correcto e do que está – ou ele pensa que está – num livro sagrado).

Só que esse sistema não é absoluto – não existe na realidade nenhum país com essas exigências de vestuário. Elas existem ao nível de algumas famílias, grupos, tribos, e sobretudo em zonas remotas. Claro que existe a imposição forçada, familiar, de bairro (para não parecer mal, etc. tal como com qualquer outro grupo social).

Mas uma coisa que não se deve fazer é confundir os muçulmanos que vivem na Europa com os que vivem em países de maioria muçulmana, e em que o islão é a religião oficial – e a lei reflecte isso mesmo. Mesmo se esses países têm uma grande diversidade, desde os mais democráticos, como Marrocos, a Tunísia (em transição…), a Turquia (????), a Indonésia, ao Afeganistão, Líbia, e…. Arábia Saudita.

A burka e o restante vestuário característico das mulheres muçulmanas pode ter origens históricas remotas, e ter sido aproveitado como instrumento de dominação – não tenho dúvidas sobre isso – mas o burkini pode ser um passo (pequenino que seja) para aliviar essa dominação.

E entretanto, para brincar na areia e tomar umas banhocas.

É que reparem nisto: numa coisa Valls, os munícipes do mediterrâneo e os muçulmanos ortodoxos estão de acordo:

Nenhum deles gosta do burkini!

Beijocas no cinema

2016/07/22

Nós sabemos que são a fingir, mas…

Uma bela colecção de xôxos. alguns surpreendentes, outros muito conhecidos.


 

Dívida – a reestruturação continua actual

2016/07/21

Mais um, para que não se perca na voragem fugidia da timeline do Facebook (o governo ali referido é, evidentemente, o dos inefáveis Passos/Portas/Gaspar/Maria Luís):