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Catalunha, mais uma vez cercada

2017/11/8

Checkpoint perto de Barcelona, foto de Robert Capa, 1936

Sobre a Catalunha, muito se tem escrito e falado nestes últimos tempos.

Sobretudo, sobre a forma desastrada como as suas lideranças conduziram um processo que já de si se antevia difícil, não apenas não acautelando as bases em que sustentavam as suas reivindicações (históricas, culturais, jurídicas e políticas), como o necessário apoio, não apenas da população catalã, como de eventuais franjas da população de outras regiões de Espanha (que a isso estavam disponíveis, como se viu), e da Europa.

Sendo essas reivindicações reais, e estando presentes em grande parte da população, não foi acautelado o facto de nem toda a população concordar com elas. Ora, por muito justo que um processo possa ser, nunca pode avançar se uma parte da população achar que é feito contra ela.

Do mesmo modo, subestimaram a força do centralismo de Madrid, os resquícios de franquismo ainda existentes na sociedade espanhola (em todas as áreas), e sobrestimaram a independência dos media, quer a nível interno, quer internacional.

Os centralistas sabem (ou deviam saber) que um problema não desaparece com a repressão que se seguiu ao referendo de 1 de outubro, nem com o rebuçado das eleições de dezembro. O problema catalão existe há muito tempo, e com a actual constituição espanhola, vai continuar. No que respeita aos media, tem sido vergonhosa a atitude de subserviência, sendo o caso mais escandaloso o do “El País“, tido como um dos melhores jornais do mundo, que até dispensou colaboradores que se afastavam ligeiramente da linha editorial (e que, no entanto, não eram favoráveis à independência da Catalunha, como John Carlin).

Finalmente, não contaram com o duplo padrão das instituições internacionais, que actuam em casos similares de forma diferente, conforme a conveniência do momento ou a estratégia geopolítica dominante. Neste, como em muitos outros casos, não se trata de razão ou de legalidade, mas da simples e antiga lei do mais forte.

A minha posição nesta matéria já a exprimi várias vezes:

– ressalvando sempre que compete ao povo catalão decidir o seu destino, livre de impedimentos e de pressões externas, no respeito pela autonomia consagrada pelo direito internacional,

– não sou favorável à divisão das grandes unidades (nacionais, Estatais, confederais, etc.), em micro ou médios Estados, a não ser em condições muito excepcionais, sobretudo quando já existem instituições comuns, em particular de serviços (mas igualmente as tradicionais ligadas à soberania), que facilitam a integração no mundo globalizado actual.

Tenho perfeita consciência de que, numa primeira análise, esta perspectiva pode parecer “economicista“, sobrepondo os “custos de contexto” aos outros valores mais elevados, como a cultura e a história de um povo.

Permitam-me discordar.

Não estou a propor que se esqueçam aqueles valores, que também considero mais elevados, e que deverão ser preservados. Aliás, acho que a luta por eles deve continuar (como já disse atrás, deve ser preciso mudar a constituição espanhola, mas não me compete dizer a qem quer que seja o que deve ser feito, estou apenas a dar a minha opinião). Acho apenas que, numa nova atmosfera, numa Catalunha com os seus direitos assegurados e defendidos, e integrada num espaço maior (espaço esse, que, como os últimos tempos mostraram, precisa igualmente de uma nova atmosfera, mais limpa), só tem a beneficiar.

Quanto aos media em Portugal, tem-se assistido um pouco de tudo.

Desde artigos equilibrados (quer a favor, quer contra), outros simplesmente dizendo aquilo que acham que as pessoas querem ler/ouvir, as piadas brejeiras, etc,

Os mais execráveis são, obviamente, os que apenas vão buscar os pontos mais infelizes (para dizer o mínimo), de quem se quer atacar, fazendo passar esses pontos pela totalidade do discurso, reduzindo de uma penada este a uma espécie de linguajar nazi.

Foi o caso, ao que parece, das declarações de um dirigente catalão, que falou em diferenças e semelhanças genéticas entre catalães e outros povos. Claro que devia ter sido desautorizado, ou terem-lhe pedido explicações, mas quem anda nestas coisas deve pensar que abrir brechas quando se está a meio de uma luta, e em desvantagem, não deve ser boa ideia. Seja como for, fazer passar essas declarações como o essencial da posição das lideranças catalãs, é fazer política rasteira. Aliás, por aí entrou igualmente uma deputada catalã do Ciudadanos (num discurso de resto muito bom).

Entre os textos equilibrados, está este de Maria de Lurdes Rodrigues no Diário de Notícias, a 1 de Novembro, de que destaco o seu ponto 6. (e final), apesar do pessimismo dos dois últimos períodos – mesmo na melhor das hipóteses…

6 Não é por ser ilegal que a causa da independência da Catalunha não é justa. A independência dos EUA, como muitas outras independências do passado, foi ilegal e justa. Por isso, a resposta de Madrid às reivindicações separatistas da Catalunha é burocrática e ineficaz. Faltou capacidade para negociar com o objetivo de transformar reivindicações independentistas em ganhos de autonomia. Faltou capacidade para canalizar melhor reivindicações identitárias, talvez legítimas. Mas também não é por ser, porventura, legítima que a causa da Catalunha é justa. A afirmação nacionalista catalã poderá dar resposta a reivindicações legítimas de reconhecimento identitário, mas não creio que contribua para construir um mundo mais decente. Na melhor das hipóteses contribuirá para mais fechamento e menos pluralismo. Na pior das hipóteses abrirá caminho a um combate entre identidades assassinas, para recuperar a boa mas assustadora expressão de Amin Maalouf.

Mais recentemente, José Pacheco Pereira veio, no blog da revista Sábado, onde escreve, dizer várias coisas (entre elas, algumas que eu venho dizendo no Facebook, mas que compreensivelmente, não têm o mesmo alcance), que acho importante repetir aqui:

A Catalunha independente (1) 
Pode não restar quase nada da independência catalã (mas resta), mas o que se viu na Espanha e na Europa isso fica certamente e deveria preocupar todos os democratas. Em Espanha veio ao de cima um “espanholismo” de claras raízes franquistas e falangistas, como aliás sempre foi. Um partido como o socialista vai mais uma vez pagar caro o papel que teve, e que de há muito sempre tem tido na recente vida política espanhola. E o Podemos, idem. Se alguém ganhar uma vitória de Pirro na Catalunha, será sempre o PP. 

A Catalunha independente (2) 
Mas pior ainda, porque mostra uma fragilidade que mesmo a mim, que sou demasiado céptico, me espantou, foi ver o comportamento dos órgãos de comunicação espanhóis, e não me refiro apenas à estatal TVE – que como todos os órgãos do Estado quando chega aos momentos decisivos se comportam como a voz do dono –, mas de jornais como o El País. Já fiz esta comparação e repito -a: pareciam a Fox News, com o seu tom de comício permanente, com o silenciamento de tudo o que podia causar problemas ao discurso oficial, com mesas de debate sem qualquer pluralismo do género “mata e esfola”, absorvendo como sua a linguagem do poder.
A Catalunha independente (3) 

E o que é que se está a passar na Europa, cada vez mais autoritária, mais próxima dos Governos do que dos povos, com um discurso cego para o problema de que, ache-se bem ou não, uma parte importante da sociedade catalã quer a independência, num processo que tem sido pacífico e com suficiente legitimidade democrática para obrigar a ter outra moderação. Foi a Europa que como um mastim se voltou contra os gregos que agora se volta com a mesma intransigência contra os catalães. Não me engano certamente se considerar que, mesmo no contexto do Brexit, muita gente está a pressionar o Reino Unido para não repetir o voto pela independência da Escócia. 

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