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Uma janela com vista (para o golpe)

2017/08/11

Nota prévia: Este texto foi escrito a pedido do meu amigo Nicolau Santos, director-adjunto do jornal Expresso, para a edição a assinalar os 40 anos do golpe de 27 de maio de 1977, em Angola. Como eu me encontrava num dos locais que foi atacado (e tomado) naquele dia, o Nicolau achou que seria interessante uma perspectiva diferente.

No entanto, por imperativos de espaço, compreensíveis na gestão que os media têm de fazer, no Expresso apenas saiu uma parte da experiência e do enquadramento que eu quis relatar.

AF Carranca

Uma janela com vista (para o golpe)

brdmNão sou de me levantar de madrugada para ir à casa de banho, mas naquele dia 27 de maio de 1977, talvez pelo barulho dos carros lá fora, talvez por demasiada excitação na cela colectiva onde me encontrava, no primeiro andar da cadeia de S. Paulo, em Luanda, lá estava eu.

Só depois percebi – a excitação e o barulho. Espreitando pela janela – de onde normalmente víamos o que se passava no bairro de S. Paulo, que quase rodeava a cadeia – vi uns quantos BRDM (carros de combate soviéticos, semelhantes aos Panhard utilizados pelo exército português) às voltas à cadeia, e também tropas a pé e viaturas militares ligeiras, assim como muitos populares a gritar palavras de ordem. Claro que não era só eu que estava à janela, quando lá cheguei já quase todos os lugares bons estavam ocupados.

Para já vou deixar os BRDM às voltas e dar algum enquadramento à minha presença naquele local, naquele dia (aliás, muitos dias mais, antes, e sobretudo depois).

Eu, e outros companheiros encontrávamo-nos presos em S. Paulo sob a acusação de fazermos parte de uma organização clandestina, a OCA – Organização Comunista de Angola. Digo “sob a acusação” porque uns pertenciam de facto à OCA (era o meu caso, e de outros e outras), mas também outros não pertenciam, tendo sido apanhados na rede de malha fina que as polícias normalmente usam nestes casos.

Eu, em particular, tinha sido preso a 23 de dezembro de 1976 (ver post Há 40 anos), e depois do período de interrogatórios mais intensos, em que estivera sempre em celas individuais, passara para aquela cela colectiva, inicialmente com umas poucas dezenas de presos (haveria de passar por outras, mas isso já não tem a ver com esta estória).

Nessa altura, na cadeia havia uma miscelânea de presos por vários motivos, tanto presos políticos (FNLA, UNITA, Revolta Activa, OCA,…), como económicos (ENPA – Empresa Publica de Abastecimentos, Diamang,) e outros de delito comum (e nestes, desde simples pilha galinhas até homicidas confessos), para não falar nos célebres mercenários capturados na ofensiva da FNLA a norte de Luanda (que contara com o apoio de ex-comandos portugueses e de tropas zairenses) e travados perto do Caxito /Porto Quipiri/Kifangondo, para além de presos à ordem do ANC (da África do Sul) e da SWAPO (da Namíbia). Havia ainda pelo menos um oposicionista zairense, e o seu assistente e homem de mão. E também um piloto de longo curso angolano, mas com cidadania zairense, que não se sabia muito bem como tinha ido ali parar, e um ex-militar português de patente superior. Havia presos “por associação”, quer porque fossem da família (irmãos, primos, cônjuges ou mesmo filhos), amigos ou colegas de trabalho. Isto, é evidente, baseando-me no que cada um contava, não me estou a pronunciar sobre a o fundamento das acusações. Já deu para perceber que – e falo por mim – a grande maioria não tinha processo no sentido em que tal é entendido num Estado de Direito, começando por um mandato de detenção com as acusações ou suspeitas, etc. Advogados então nem falar, muito menos comissões de direitos humanos, era coisa que, naquela altura, não havia. Eu entrei sem ver um papel com as acusações, e saí dois anos e sete meses depois sem mandato de soltura.

Para além dos motivos da prisão, havia evidentemente uma grande variedade de nacionalidades. A maioria eram angolanos, claro, seguidos, a grande distância, pelos portugueses. Proporcionalmente, estes tinham maior peso entre os “económicos”, sobretudo – mas não só – os relacionados com diamantes. Seguiam-se os zairenses – embora aqui possa haver alguma confusão, porque muitos eram de facto angolanos, ou descendentes, regressados do Zaire, que eram assim tratados por apenas falarem francês, além do kikongo. Os poucos sul-africanos e namibianos eram, como disse, presos à ordem do ANC e da SWAPO, e os mercenários eram americanos, britânicos e um irlandês. Entre estes avultava o argentino-americano Grillo, o mais espertalhaço de todos, e que, como falante de castelhano, se entendia com toda a gente.

No meio deste caldo de cultura, andavam os guardas, mal preparados, dotados de um poder que não sabiam exercer e facilmente subornáveis por quem tinha hipóteses de receber de fora qualquer coisa de tentador. Tal levava à criação de castas, entre os que podiam circular com maior ou menor facilidade, e fora de horas, fora das celas e os que ficavam confinados a estas, só saindo quando todos os outros saiam para apanhar um bocado de sol.

Era portanto um microcosmo, já nessa altura sobre lotado (haveria de ficar muito mais), com as suas hierarquias e relações de poder – a qualquer momento a pender para a violência – a todos os níveis, sem qualquer hipótese de negociação. E não me refiro apenas às “naturais” entre polícias/guardas e presos, mas entre os próprios presos, dada a sua diversidade.

De qualquer modo, e voltando ao tema desta história, mas ainda não aos BRDM…

Claro que lá dentro ia-se sabendo mais ou menos o que se passava cá fora, o esticar de corda entre Nito e Zé Van Dunen e a direcção do MPLA – mas não tenciono pronunciara-me sobre isso.

Só irei falar do que vivi e testemunhei nesses dias, no pouco antes e no pouco depois desse dia que para mim começou com as BRDM às voltas à cadeia.

Dois meses antes de eu ser preso, o Comitê Central do MPLA tinha afastado o Nito e o Zé Van Dunen das respectivas funções, extinto o ministério do Interior (que Nito titulava), fechado o Diário de Luanda e encerrado o Kudibanguela (jornal e programa de rádio de apoio a Nito, e que publicavam ou passavam na íntegra as suas intervenções, o que normalmente só acontecia com as de Neto). Não era preciso muito para se saber que dali para a frente o braço de ferro ia assumir outras formas, mas como disse, essa não era a nossa preocupação principal – era um assunto interno ao MPLA.

Em fevereiro de 1977, Nito publica as famosas “13 teses em minha defesa”, que, ao que parece, não contribuíram para sossegar os ânimos (quanto a mim, ainda estava em interrogatórios, pelo que não lhes terei prestado na altura a atenção que certamente mereciam).

Mas a 21 de maio o Comitê Central do MPLA decidiu acusar formalmente Nito e Zé Van Dunen de fraccionismo, e expulsá-los, e isso soube-se imediatamente dentro da cadeia.

Soube-se – e soube-se também do apelo que a seguir foi feito de autêntica “caça ao fraccionista”, no comício da cidadela – mas sobretudo sentiu-se: começou a entrar gente, muita gente, a todas as horas! As celas começaram a ficar abarrotadas.

A cela onde eu me encontrava, como disse, uma cela colectiva onde se encontravam, quando para lá fui, umas dezenas de pessoas, passou de repente a ter seguramente mais de duas centenas. Suponho que nas outras celas o panorama fosse o mesmo ou pior, porque durante aqueles dias não era possível vir ao pátio (e depois de 27 de maio, durante muito tempo, também não).

Pode-se calcular os problemas logísticos – e relacionais, bem entendido – que uma tal situação colocou. Em termos de ocupação do espaço, nós dormíamos no chão, em cima de um cobertor (os chamados, em Angola, cambriquitos). Portanto, de noite, o chão ficava totalmente tapado com cobertores (alguns parcialmente sobrepostos), de dia tinha de se enrolar tudo, não apenas para limpeza, como para se poder circular minimamente.

Entre os que entraram a seguir ao 21 de maio, havia membros de comitês do MPLA, oficiais das FAPLA (forças armadas), membros dos Comitês Henda, funcionários de serviços do Estado (que acumulavam ou não com alguma das situações anteriores). Mas (e não foi surpresa para mim), muitos deles eram, ou tinham sido, meus amigos e colegas no liceu, em Luanda ou em Nova Lisboa, ou mais recentemente na universidade. Outros, das FAPLA, tinha-os conhecido quando ainda dava apoio de formação política, quando os CAC – Comitês Amílcar Cabral, a organização que antecedeu a OCA, colaborava activamente com o MPLA. Claro, as nossas relações tinham esfriado nos últimos tempos, tinha havido um certo afastamento, mas não andávamos propriamente à guerra uns com os outros. E a prova é que, quer com os que estavam na minha cela, quer, como soube depois, nas outras celas, talvez pela proximidade e as preocupações acrescidas, as antigas relações foram-se reatando, embora lentamente (e com limitações). Mas eu sabia que havia outros sectores cujos sentimentos para connosco não eram tão cordiais, como se verá.

Houve, no entanto, outros presos que entraram nessa leva e com os quais eu não estava a contar: militantes de partidos comunistas do Brasil, Argentina, Uruguai e Chile, que estavam exilados em Angola nessa altura.

O brasileiro, com quem conversei mais vezes, e que acho que se chamava Lera, contou-me que ele e os outros tinham comparecido a uma reunião na embaixada soviética, na semana anterior, e que lhes tinham garantido que proximamente as coisas iriam mudar para melhor. Foi enigmático quando procurei esclarecer, pelo que não insisti.

De qualquer modo, até pelo andamento dos interrogatórios, por continuarem a entrar presos, pelos boatos que corriam (e saltavam de cela em cela, como se houvesse um sistema de comunicações bem oleado), as perguntas que todos faziam: onde está o Nito? E o Zé? Ao que havia logo quem dissesse terminantemente: já foram presos! Ou então: estão em conversações com o Neto para prender o Lara e nos pôr em liberdade!

Por tudo isso, cada hora que passava sentia-se a tensão a aumentar. Eram os presos, eram os guardas que, à noite, disparavam das guaritas ou da porta com mais facilidade e estavam mais irascíveis no tratamento, eram os interrogadores (não apenas os habituais, mas um contingente reforçado) que entravam de carro no pátio a toda a velocidade, por vezes trazendo mais um preso, outras vezes apenas com pressa para interrogar outro, que era chamado à pressa.

E assim se chega à noite de 26 para 27. Em retrospectiva (mas não posso jurá-lo) fica a ideia de que nessa noite pouco ou nada se terá dormido: que, de um lado e de outro se sabia que algo ia acontecer na manhã seguinte, e que parte do que ia acontecer (a mobilização popular que efectivamente acompanhou as forças rebeldes), aconteceu durante a noite e não podia passar despercebida (na prisão ouvíamos qualquer ruído anormal que se fizesse no bairro de S. Paulo durante a noite).

Portanto, e voltando às BRDM às voltas à cadeia, não era apenas a excitação e o barulho dos motores e dos populares: fiquei com a ideia de que se estava à espera, e não me refiro aos presos que entraram depois de 21 de maio (eventualmente alguns estariam) mas também, ou sobretudo, ao nervosismo acrescido dos guardas e da administração da prisão em geral.

Prova disso é o facto de, ao invés de terem reforçado a guarnição da cadeia com mais militares vindos de fora, terem ido, no dia 26, buscar militares das FAPLA, sim, mas que se encontravam presos. Um deles, que tinha tomado para si o nome de Sabata (herói de westerns spaghetti), era um conhecido lúmpen e homicida confesso, fazendo gala disso (e com o qual eu tinha um contencioso, visto que o Sabata tinha decidido que não gostava de mim e me provocava por todos os meios possíveis). O resultado foi o que seria de esperar: quando viu que a sorte da batalha pendia para os atacantes, Sabata mudou de campo. Soube que depois foi preso e morto, como muitos outros.

Sobre a batalha em si, não há muito a contar. Apesar de estar a espreitar pela janela, só via, como é evidente, um dos lados, pelo que não sei quem disparou o primeiro tiro. De repente começa uma fuzilaria de um lado e de outro, algumas balas entraram pelas janelas da cela e foram ter às paredes, mas não atingiram ninguém.

Quando parecia estar-se num impasse, o condutor de uma das BRDM atira a viatura contra a porta (que se via da nossa cela) e consegue entrar, e atrás dela os soldados e mais viaturas.

O edifício principal da cadeia é em forma de U, sendo a porta na base do U e um pátio entre os dois braços (num destes, no 1º andar, a cela colectiva onde eu me encontrava).

O BRDM deu a volta e chegou até ao pátio, sempre a disparar e com os soldados atrás, igualmente, ao passo que a guarnição da cadeia, comandada pelo sargento Miranda, procurava defender-se como podia. Pôde mal, como se viu: quer em número quer em qualidade, os atacantes eram superiores.

De qualquer maneira, a meio da manhã já estava tudo acabado.

A guarnição rendera-se. O BRDM retirou-se e os ocupantes começaram a tentar organizar-se (depois se viu que ainda não deviam ter pensado nisso muito bem, o grau de improvisação era elevado).

Alguns dos que tinham sido detidos depois de 21 de maio davam gritos de alegria e chamavam os que estavam no pátio para os virem libertar, o que aconteceu rapidamente.

A maioria estava de semblante fechado, perante a incógnita que uma situação nova sempre representa.

Para nós, eu em particular, depois da excitação da batalha, era altura de voltar a pensar em coisas sérias. A situação não era boa antes, estávamos presos pelo regime, sem garantias e sem prazos, não sabíamos o nosso futuro. E agora era pior? Era.

Como disse atrás, partindo do princípio de que haveria, se não uma mudança, pelo menos uma inflexão no sentido do endurecimento do regime, nesta sua nova faceta havia vários sectores que estavam longe de morrer de amores por nós – a começar pelo próprio Nito, e passando pelo Kudibanguela, que se começou logo a ouvir na rádio após os primeiros sinais de vitória – e as primeiras palavras de ordem não nos deixaram descansados, referindo-se explicitamente a nós, e não em termos muito amigáveis…

E isso começou a ver-se logo a seguir.

Começaram por mandar sair das celas todos os que tinham sido detidos após o dia 21 de maio, sob a acusação de fraccionismo, alguns tendo sido recebidos com grandes abraços no pátio, e suponho que tenham saído logo porta fora da prisão.

Quanto aos restantes, tiveram tratamentos diferenciados.

No nosso caso (OCA) e também aos da RA (Revolta Activa), tivemos um tratamento particular. Começaram por ir ao “comboio” (a zona onde se procedia aos interrogatórios, onde estavam os arquivos, e onde estavam as celas individuais onde eu próprio estivera – e onde já sabíamos que Helder Neto se suicidara) buscar os nossos arquivos. Colocaram uma mesa no meio do pátio, onde colocaram esses arquivos, e começaram a fazer a chamada, após o que cada um era mandado encostar à parede de uma das alas (as minhas iniciais são A, F e C, pelo que fui logo o primeiro; aparentemente os arquivos estavam bem organizados).

Não foi dito explicitamente o que iam fazer connosco, mas dados os ânimos, as armas apontadas, e as notícias que íamos ouvindo, não tínhamos grandes ilusões. E a própria imagem de estar “encostado à parede”, quando já se estava na prisão, não ajudava. Mas também não me parece que nos tenham chamado a todos, não me lembro ao certo quantos estivemos ali encostados à parede, mas não estávamos todos de certeza.

Até porque a partir do meio/fim da manhã verificámos que o nervosismo foi aumentando por parte dos atacantes, e notou-se que eram cada vez mais escassos. É difícil dizer exactamente, mas o certo é que os fomos vendo desaparecer até não restar nenhum, à medida que se ouviam as notícias de que as forças do governo se aguentavam – já então constava lá dentro que o Onambwa tinha ido ao Cacuaco falar com os cubanos e tinha regressado com eles e os tanques, retomando de caminho a casa de reclusão, a rádio nacional (o que se notou quando o Kudibanguela deixou de transmitir) e outros pontos estratégicos. Foi uma debandada silenciosa, mas notória.

Bom, mas entretanto, estávamos nós a fazer contas à vida, quando uma sequência de acontecimentos joga a nosso favor.

Como é sabido, o ataque à cadeia de S. Paulo foi da responsabilidade do batalhão feminino da 9ª Brigada, cuja comandante era a Virinha e a comissária política a Nandy. A Nandy (que se encontrava grávida na altura), era irmã do Kassange, comandante das FAPLA que tinha sido nosso companheiro (dos CAC/OCA) e que tinha morrido próximo do Lobito, juntamente com outro companheiro, em combate contra a UNITA. E pelos vistos a Nandy, ou sabia disso, ou simplesmente era uma mulher de bom senso, e chegou ali e disse para se acabar com aquela charada, que não ia haver fuzilamentos nenhuns, nem julgamentos expeditos.

E assim foi. Talvez por isso eu (e muitos outros) se ainda aqui andamos, devemo-lo à Nandy.

Mas a Nandy não andou muito mais tempo, infelizmente. Ela foi presa, deixaram-na ter o filho, mas foi morta.

Como disse, os primeiros a sair em liberdade foram os acusados de fraccionismo. Mas a partir do momento em que os ocupantes tomaram conta da cadeia, a guarnição (ou o que restava dela) abandonou-a.

Ora, sensivelmente a partir do meio dia, mais coisa menos coisa, também dos atacantes já não havia rasto na cadeia. Com algum humor negro, dizíamos que estávamos em autogestão, mas na realidade a única coisa que havia para gerir não era a cadeia, mas a sobrevivência. É certo que não tínhamos ninguém a guardar-nos (e também ninguém para nos alimentar: nesse dia não houve refeição nenhuma), mas ouviam-se tiros, quer de armamento ligeiro quer pesado, por toda a cidade. A principal decisão a tomar era: ficar ou sair, e neste caso, para onde e quais as eventuais consequências.

Muitos saíram, claro. Eu, depois de avaliados todos os riscos (atravessar a cidade naquelas condições, etc.) fui um dos que decidiram ficar, na realidade já estava por tudo naquele dia.

Íamos ouvindo o que se passava pela cidade, sabíamos que os cubanos se tinham posicionado ao lado de Neto (e sim, eu disse que não ia entrar por aí, mas é para mim evidente que Cuba tomou, naquele dia, uma posição a contracorrente do resto – URSS, RDA, partidos “amigos”, etc. – ver notas no fim, que confirmam a intuição que na altura tive), e para mim havia um grande perigo pela frente: sabia-se que a cadeia de S. Paulo tinha sido tomada pelos insurrectos; pelo que ouvíamos, os outros pontos que tinham sido tomados tinham sido retomados à força, alguns com alguma brutalidade; ora, não se sabendo que a cadeia havia sido abandonada, receávamos que primeiro se disparasse e só depois se perguntasse alguma coisa.

Felizmente não foi assim que as coisas se passaram. Lá para o fim da tarde, estávamos ao pé da porta de entrada escancarada, quando pára lá fora uma viatura das FAPLA, e de lá sai uma jovem de camuflado, linda e de sorriso aberto, que se dirige a nós: “Os camaradas estão bem? Está tudo calmo por aqui?” De facto, só faltava o toque surrealista àquele dia!

Lá lhe respondemos que estávamos mais ou menos, alguns que a conheciam de vista (e que disseram tratar-se da esposa de Xietu, na altura chefe do Estado-Maior das FAPLA) perguntaram-lhe o que se passava no resto da cidade. Ela lá respondeu que “está tudo bem, e já virá alguém tratar de vós” … Não sabíamos se havíamos de ficar descansados ou não, mas suponho que estávamos demasiado cansados para pensar nisso.

O certo é que daí a algum tempo apareceu à frente da porta um tanque, com alguns soldados cubanos à volta e viaturas das FAPLA. Mas quando o tanque começou a rodar a torrinha e a apontar o canhão na direcção da prisão, começámos de facto a ficar preocupados: será que não tinham conversado com a simpática jovem FAPLA?

Mas nada aconteceu, os soldados cubanos, juntamente com alguns angolanos, entraram, começaram a mandar-nos para as respectivas celas, e foi isso. Francamente, tanto quanto me lembro, as celas nem foram revistadas, podíamos lá ter ficado com um arsenal que ninguém teria notado. E nós também não, com o cansaço, a fome e a excitação toda daquele dia (e, embora ninguém o tenha verbalizado, o alívio por ter sobrevivido).

Mas logo naquela noite, e nos dias seguintes, voltou tudo ao mesmo. Ou antes, a pior. A prisão voltou a encher, ainda mais do que estivera antes, mas agora a atitude de guardas e, sobretudo, de interrogadores, era muito mais dura e violenta: se antes incidia sobre acusados de fraccionismo, agora era sobre autores comprovados de um golpe fraccionista, que tinham assassinado elementos importantes do MPLA e tentado tomar o poder.

O ambiente era de chumbo, nesses dias que se seguiram ao golpe. Quanto aos interrogatórios a que foram sujeitos, e à sua violência, os próprios falarão – se assim o entenderem – com maior propriedade. Não se trata de cada um falar do seu processo, mas da propriedade e, eventualmente, privacidade, que cada um queira guardar para si.

Mas as restrições (saídas ao pátio para apanhar sol, visitas) abrangiam todo o universo prisional, pelo que ao fim de algumas semanas todos – e friso bem, todos – estávamos com muito menos cores que antes.

Aos poucos também iam-se sabendo as notícias, não me recordo exactamente por que ordem cronológica: as prisões (e mortes) de Nito, Zé Van Dunen, Monstro Imortal, Sita, etc. Também se ia sabendo das “mortes anónimas” um pouco por todo o país, anónimas excepto para familiares e amigos.

Aos poucos também dentro da cadeia as coisas iam “normalizando”, mas com surpresas desagradáveis. Aconteceu estar no pátio quando vejo um grupo de soldados ir à porta de uma cela chamar o Rui Coelho, entram numa viatura e desaparecem. Pensámos (pensei eu) que fosse para um interrogatório. Mas nunca mais foi visto.

Estava também no pátio à conversa com o Ademar Valles (irmão da Sita) quando vêm dois soldados chamá-lo. Também entrou numa viatura para nunca mais ser visto.

Li algures uma afirmação de Pepetela de que não teria havido nenhuma “Comissão das Lágrimas”, da qual teriam feito parte ele próprio, Luandino Vieira, Manuel Rui Monteiro, Henrique Abranches e Costa Andrade (Ndunduma), entre outros.

Bom, eu não sei se houve ou não. Sei que uma noite, umas semanas após o 27 de maio, foram-me chamar à cela. Lá fui, e cá fora, ao pé de uma viatura, estavam vários conhecidos meus (já os referi atrás, amigos e conhecidos de longa data, que os caminhos da política haviam afastado naqueles tempos), não do meu processo, mas acusados no processo de fraccionismo. A princípio estranhei a mistura (eu de um processo, todos eles de outro), mas lá fomos, e suponho que não era apenas eu que ia com o coração apertado – já todos tínhamos ouvido falar dos que tinham saído àquela hora e ninguém mais ouvira falar deles ou os tinha visto. Quando vi o destino, o ânimo não aumentou: o quartel-general das FAPLA (o mesmo onde antes era o quartel general do exército português, a caminho do palácio). Lá chegados, íamos sendo levados, um de cada vez, para uma sala/auditório, com equipamento de som, filmagens, etc. Na assistência, muita gente, uns fardados outros não, para além dos citados atrás.

É verdade que o Pepetela não me fez perguntas, nem o Abranches (já agora, nem o Dilolwa, que também lá se encontrava), que eram os que me conheciam melhor. Quem eram os mestres de conferências eram o Ndunduma e outro de que não me lembro o nome (acho que Manuel Rui também fez uma pergunta). Devo dizer que desde antes, e sobretudo após o 27 de maio, o Ndunduma, como director do Jornal de Angola, tudo fazia para colar a OCA a Nito, aos Comitês Henda, etc. Escrevera mesmo vários editoriais em que afirmava que a OCA era uma das organizações por trás do golpe. Portanto as perguntas que colocou foram todas no sentido de as minhas respostas poderem ser “retocadas”. Adoptei a táctica de repetir as perguntas que me fazia e ir respondendo por partes, o que o deixou muito irritado, disse-me para deixar de fazer aquilo, e como o continuei a fazer, houve alguém que disse para acabar e passar à frente, chamar outro. Ainda hoje ignoro se alguma das minhas “declarações” chegou a ser utilizada para alguma coisa, mas suponho que não.

Não sei o que se passou com os outros, nem sei se era esta comissão a que chamaram “Comissão das Lágrimas”, nome que só ouvi recentemente.

Dou aqui por encerrada a narrativa da minha experiência pessoal daquele dia, que me marcou, certamente, mas, mais grave e mais importante, marcou e parece que continuará a marcar a minha sofrida terra de Angola. E acho que nenhum país, nenhuma comunidade, consegue progredir com uma tal ferida por sarar.

Há quem proponha uma espécie de “comissões de verdade e reconciliação”, do tipo das que Mandela instaurou, encarregadas de apurar os factos, mas não de punir.

Não sei, quem esteja mais próximo saberá. Mas, como um exemplo do que não ajuda nada à compreensão, ou à reconciliação, a disparidade dos vários estudos, livros, etc. sobre o número de mortos (qualquer coisa entre 5.000 e 80.000, havendo alguns que dizem “fiquemo-nos pelos 30.000”, como se fosse uma questão de tirar as médias ou medianas, mais parecendo números atirados para o ar). Tal não abona à seriedade com que esses trabalhos devem ser encarados, embora se deva reconhecer a dificuldade da tarefa, que não é facilitada pelo Estado.

Oeiras, 2 de maio de 17

António Carranca

Notas finais

[1] Sobre esta questão (já aflorada a respeito dos membros dos partidos comunistas sul-americanos que estavam exilados em Angola e que foram presos nas vésperas do golpe), e que na altura era apenas uma intuição, só recentemente tomei conhecimento, através do jornal online esquerda.net, nas edições que fez a propósito dos 40 anos do 27 de maio, da existência de documentos oficiais que lhe dão suporte (um deles pelo punho do próprio Raul Castro e dirigido a Fidel) sobre as desconfianças entre o MPLA e a URSS).

memorando raul a fidel

E também as cândidas confissões de Pedro Fortunato (talvez pensando que tal lhe daria algum poder negocial) sobre as reuniões dele, Nito e Zé Van Dunen nas embaixadas da URSS, Bulgária e Vietname:

raul sobre confissão de pedro fortunato

Recordo que um dos detidos, um comunista brasileiro que ficou na minha cela, me confirmou ter havido reuniões na embaixada soviética com o embaixador, retraindo-se depois quando procurei obter mais detalhes.

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