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Uma história simples

2017/08/8
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Corria o ano de 1974, pouco depois do 25 de Abril.

Era já tarde, e eu queria chegar a Luanda ainda de dia, pois tinha aulas na faculdade no dia seguinte, e já tinha faltado alguns dias.

Tinha ido a Silva Porto levar a Rita. Tínhamos ido os dois de avião, um Friendship da TAAG, e no aeroporto estavam os velhos, a Belita e a Magui (ainda me lembro dos berros da Magui no aeroporto: Rita! Rita! Rita!). A Rita e a Magui eram ainda miuditas, quase bébés.

Seja como for, eu precisava de regressar a Luanda, e como não tinha carro, o velho emprestou-me o seu Peugeot 404, e ele depois arranjaria maneira de alguém lho levar de volta para Nova Sintra /Catabola.

Ia a andar bem, já tinha passado a Quibala e o Muquitixe, e ia a sonhar com uns cacussos grelhados nas margens do Cuanza, no Dondo, quando ouço um barulho, e logo depois o carro começa a aquecer, mesmo muito.

peugeot 404

Não tive outra solução senão encostar. Sou um cepo em mecânica, mas deixei o motor arrefecer, e só depois abri o capot e espreitei, à espera de ver não sei o quê. Mas por acaso até vi. Tanto quanto percebi, o Peugeot tinha dois compartimentos de água para arrefecimento, ligados um ao outro, suponho que em circuito fechado (era a diesel, não sei se isso importa para alguma coisa – mas sei que os carros a diesel daquela altura eram muito diferentes dos de hoje). E verifiquei que um dos compartimentos – em plástico – estava completamente destruído, partido, ou seja, a água que era suposto passar por ali, perdia-se por completo. Até um analfabeto mecânico como eu via que se insistisse na viagem, pegaria fogo ao carro, ou qualquer coisa parecida.

Por aquela altura já estava escuro. Quem conhece aquelas paragens sabe como se passa em pouco tempo do dia claro, para o lusco-fusco, e depois para a noite escura.

Carros já não passavam há algum tempo, além disso tinha estacionado o Peugeot numa pequena saída que não era muito visível da estrada, mesmo com dia claro, muito menos à noite. Àquela hora também já não passava ninguém a pé, além disso não me parecia que houvesse aldeias ou sanzalas próximo da estrada. Sabia que havia algumas fazendas, mas não me ia aventurar no escuro à procura delas.

Claro que ainda iriam passar alguns carros – como passaram, quer ligeiros, quer camiões – mas nem me cheguei à estrada a fazer qualquer sinal. Não apenas isso por vezes não era aconselhável, àquelas horas, como era uma daquelas retas intermináveis, onde os condutores metiam o pé na tábua para chegar o mais depressa possível ao seu destino, fosse ele qual fosse.

Convenci-me então de que teria de passar a noite dentro do carro, naquele descampado, e no dia seguinte pediria uma boleia para o Dondo para trazer um mecânico para rebocar o carro. Se tivesse arranjo imediato, óptimo, seguia para Luanda nele, senão, apanhava o comboio ou o autocarro e viria busca-lo depois.

Quanto à situação presente, os maiores inimigos seriam o frio e a fome (ou assim eu pensava).

Quanto ao frio, embora naquela zona já se comece a descer do planalto central para o litoral, ainda se está a uma certa altitude, e antes de se começar a descer para Cambambe ainda tem de se subir um bocado. Sobretudo à noite – para a qual não vinha preparado – faz um friozinho cortante. Mas bom, não era por isso que me iam encontrar congelado, no dia seguinte, embora não antecipasse uma noite agradável.

A fome iria de certeza apertar mais tarde. Nas minhas directas, quer para o Huambo, quer para o Bié, fazia sempre uma paragem (normalmente no Muquitixe, mas nem sempre), para comer um prego no pão e beber uma cuca. Se estava para aí virado, sentava-me e comia e bebia, senão, metia-me no carro e ia comendo e bebendo enquanto conduzia (eu sei que isto é um sacrilégio nestes tempos de cintos de segurança, sopros no balão, etc.)

O policiamento na estrada era escasso, de vez em quando lá víamos um “creme nívea”, que era o nome dado aos Volkswagen da polícia com as cores do mesmo creme.

Seja com for, naquele dia tinha comido o meu prego (com a respectiva cuca) muito mais cedo, na Cela (a antecipar uma fome razoável para os cacussos no Dondo).

Portanto, frio e fome, os inimigos a enfrentar. O antídoto? Sono vigilante (afinal, estava no meio de nenhures), e de manhã apanhar uma boleia para o Dondo, arranjar um mecânico (ou um restaurante? Logo se veria).

Lembro-me que nos primeiros momentos em que me aconcheguei para dormir, passaram logo alguns carros, dois deles a uma velocidade razoável, que talvez tivessem permitido uma abordagem. Bah! Já tinham passado, não valia a pena pensar mais nisso.

Voltei a aconchegar-me e a tentar dormir.

E foi então que o ouvi.

Quando conto esta história refiro-me sempre a “ele” como “o leão”, mas na realidade, nunca o vi, portanto não posso jurar que fosse de facto um leão.

Só o ouvi, isto é o seu urro.

Primeiro foi uma coisa indistinta, não tive a certeza (ou não quis acreditar).

Depois um segundo urro, mais distinto e, pareceu-me, mais próximo. Confesso que este me provocou algum formigueiro na cabeça. É certo que estava dentro de um carro, mas era um Peugeot 404 com vidros por todos os lados (avariado, ainda por cima), e não um tanque Panzer.

E depois, que diabo, não é suposto os leões dormirem de noite (que era também o que eu gostava de estar a fazer)? Talvez este estivesse apenas a ir ter com a família.

Não vale a pena prolongar o suspense. Ainda ouvi acho que mais uns três urros, e lembro-me que um deles me pareceu demasiado próximo, o suficiente pelo menos para eu quase não pregar olho para o resto da noite (a não ser eventualmente por breves instantes, por cansaço, medo ou nervosismo).

Mas acho que tudo isto se passou no início da noite. O bicho terá partido para outras paragens, ou terá continuado a sua jornada, pois não viu motivos para alterar os seus planos originais. Os meus é que nem tanto.

De manhã procedi como tinha planeado. O primeiro carro a passar foi uma camioneta Scania-Vabis. O motorista não apenas se prontificou a dar-me a boleia até ao Dondo como a dar uma vista de olhos ao Peugeot, tendo confirmado as minhas previsões.

scania

Como era mesmo muito cedo, chegámos ao Dondo antes da abertura da oficina, pelo que ofereci ao motorista da Scania (cujo nome não recordo) o pequeno almoço – não os sonhados cacussos da véspera, mas um grande bife com ovo a cavalo, batatas fritas, bacon, fiambre, regado a cerveja, e depois muito café. Não era só eu que estava cheio de fome, ele tinha conduzido toda a noite, e ainda ia para Luanda!

Na oficina tive de esperar um bocado, mas depois foram comigo o patrão e um mecânico numa camioneta (que fazia as vezes de reboque) ver o Peugeot. Chegados lá, estavam uns miuditos, que deveriam ser de alguma sanzala próxima, a olhar com curiosidade, mas tanto quanto verifiquei não lhe tinham tocado. Claro que fizeram a habitual festa, com risos e galhofa, com as dificuldades das manobras para colocar o Peugeot em cima da camioneta, o que irritou o mecânico que foi connosco, que teve de ser acalmado pelo patrão, que conduzia a camioneta.

Bom, como diz o título, esta é uma história simples (ou uma não história).

O Peugeot teve que ficar no Dondo uns dias, eu regressei a Luanda na carreira da EVA, e depois o mesmo alguns dias depois para buscar o carro.

autocarros EVA

 

 

 

 

 

 

 

Ah, mas dessa vez matei as saudades dos cacussos à beira rio.

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