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Há 40 anos

2017/08/8

eu carmelino gabi

No dia 23 de dezembro de 1976, estava eu a dar aulas no antigo liceu feminino de Luanda, quando a aula é interrompida (ordeiramente, diga-se) por um pequeno grupo de polícias da DISA (nome que então tinha a segurança do Estado), informando-me que eu estava preso, e, portanto, tinha de os acompanhar.

Devo dizer que – e, como é evidente, já pensei nisto muitas vezes – não manifestei uma grande surpresa, nem senti uma grande surpresa interior. Era como se soubesse que era apenas uma questão de mais dia menos dia, ou semana ou mês, mas aquele dia chegaria de certeza. O que não sabia era se e quando sairia (posso adiantar já: foi 2 anos, 7 meses e 6 dias depois, a 29 de julho de 1979).

Claro que para além da surpresa há outros sentimentos e pensamentos (certamente bem mais importantes que a surpresa que manifestamos ou sentimos) que nos vêm à cabeça, só que a situação é tal, as coisas acontecem a uma tal velocidade, que só o esforço de as coordenar faz com que depois não nos lembremos delas com exactidão.

Medo? Certamente! Sabia que dali para a frente seria eu (e outros companheiros, uns que já estavam presos e outros que entrariam depois) contra eles, sem garantias de qualquer espécie, sem advogados, sem juízes de instrução, sem organizações de direitos humanos, sem imprensa livre.

Por outro lado, tinha responsabilidades. Tanto quanto sabia, havia companheiros e companheiras que estavam salvaguardados em casas seguras, mas de que eu, enquanto membro dos órgãos dirigentes (e outro companheiro, que vim a verificar, ao entrar na prisão, também tinha sido preso), conhecíamos a localização e as identidades. Evidentemente, precisavam, pelo menos, de tempo suficiente para adaptação às novas circunstâncias.

Havia a questão de avisar as pessoas certas em tempo útil. Aqui jogou o factor sorte: entre as minhas alunas estava uma ainda hoje muito querida amiga, que conhecia alguém, que conhecia outrem, que…

Os polícias meteram-me num jipe que estava parado à porta do liceu, mas não me levaram logo para a cadeia: fomos primeiro ao meu apartamento, um pequeno estúdio no primeiro andar do prédio onde também morava o meu irmão. Se estavam à espera de encontrar grande material da organização, devem ter ficado desiludidos, porque não havia nenhum. Mas tiveram a satisfação de me levar toda a minha biblioteca (foi a terceira biblioteca que me desapareceu, sendo as duas primeiras na casa da Vila Alice, que por azar ficava no meio dos confrontos entre o MPLA e a FNLA, e que uma das vezes meteu também o exército português).

Quando pensei que estavam satisfeitos e que íamos finalmente para a prisão, o chefe (não era um chefinho, era o capitão Zé Maria, que viria a ser um dos interrogadores mais constantes, juntamente com o Helder Neto) diz que não, e que faltava uma coisa. Era o que eu mais temia, meterem o meu irmão ao barulho, que não tinha nada a ver com esta história, e irem revistarem-lhe também a casa! E a sua companheira da altura, a minha querida Leni (que foi um grande apoio durante todo o tempo em que estive preso – quando tal era possível) que era tão ciosa da arrumação da sua casa!

Bom, mas como eu não tinha voto na matéria, lá fomos, os polícias portaram-se com um mínimo de civilidade, e eu aproveitei para dizer ao meu irmão para sossegar os meus pais e sobretudo – sobretudo! – não queria ouvir falar em eles irem lá enquanto eu estivesse preso. Conhecia o suficiente de outras histórias para minimizar os riscos de chantagem que a presença dos meus pais representaria.

E finalmente lá fomos para a cadeia de S. Paulo.

A cadeia de S. Paulo já funcionava como tal no tempo colonial, estando sob a tutela da PIDE/DGS, ficando à entrada do bairro de S. Paulo, próxima do estádio da cidadela.

Tinha várias secções, sendo a maioria de celas colectivas, e uma zona destacada, a que se chamava o “comboio”, de celas individuais e salas de interrogatório (que havia também noutros edifícios).

Fui colocado numa dessas celas individuais do comboio, muito pequena. Camas não havia, nem colchões: era-nos distribuída uma daquelas mantas/cobertores muito vulgares em Angola a que se chamava “cambriquitos”, cinzentos e ásperos. Punham-se no chão e deitávamo-nos por cima, se tínhamos frio dava-se uma volta: durante toda a estadia foram meus fieis companheiros, só talvez nos últimos 2/3 meses tive cama com colchão. Havia uma sanita, daquelas no chão com lugar onde colocar os pés (que verifiquei agora na Wikipedia ser “vaso sanitário estilo turco”), onde a água corria continuamente – e que era a onde tinha de me abastecer de água. Custa, mas uma pessoa habitua-se, sobretudo quando há outras preocupações.

E a partir daí começaram as coisas sérias, ou seja, os interrogatórios, com os quais não vou maçar ninguém. Até ao Ano Novo praticaram a privação do sono, não sei ao certo durante quanto tempo. Eu e o meu outro companheiro víamo-nos de vez em quando, a passar de uma sala para outra, mas depois em conversa nenhum de nós tinha a certeza se nos tínhamos visto, se era truque da polícia, se era alucinação.

No dia 1 de janeiro de 1977 fui mudado para uma cela colectiva. Em mau estado, bem recebido por uns, mal por outros, mas pude ir recuperando.

Claro que continuaram os interrogatórios, mas a preocupação da polícia já parecia ser outra, que considerava mais séria: o fraccionismo.

Quanto a nós, o objectivo que nos propusemos de dar tempo aos outros companheiros de se reorganizarem parecia ter sido atingido (verificou-se que assim foi, pelo menos durante um ano). Mas claro que a polícia quando caça o faz com caçadeira de canos serrados, pelo que não se pôde evitar que muita gente fosse presa apenas por ter relações de proximidade ou de familiaridade com membros da organização (e outros nem isso – se bem que alguns mais que isso, embora a polícia não o soubesse…)

Como disse, em Angola não havia condições para qualquer tipo de apoio institucional ou cívico a presos políticos, naquela altura. Pelo que esse apoio passou essencialmente pelo exterior, sobretudo Portugal mas não apenas por aqui.

E foi assim esse dia, há 40 anos. No resto do tempo evidentemente passou-se muita coisa.

Fui desafiado para andar à pancada por um bandido encartado, o Sabata, que estava na mesma cela que eu e que diziam (e ele confirmava) já tinha vários mortos no currículo. Não se concretizou – bom, eu estou aqui e o Sabata não… – já não me lembro por que razão, mas no golpe do 27 de maio de 77, primeiro começaram por chamar o Sabata para reforçar a guarnição da prisão. Quando os atacantes entraram, o Sabata mudou de campo. Soube que depois foi morto.

Antes do golpe do 27 de maio de 77, a prisão começou a encher e a rebentar pelas costuras. E não eram apenas angolanos. Só à minha cela vieram parar membros dos PCs do Brasil, do Uruguai, do Chile, etc. que estavam exilados em Angola, e que se queixaram, pois ainda na semana anterior tinham estado numa reunião na embaixada da URSS.

Quanto ao golpe, vi que ia acontecer antes de começarem os tiros. A cela era no 1º andar, eu tinha ido à casa de banho e ao olhar pela janela estranhei o barulho, espreitei e vi as autometralhadoras, acho que BRDM, às voltas da prisão. Logo a seguir começa a fuzilaria, a resistência, uma das BRDM derruba a porta, a luta passa fazer-se dentro da prisão, e depois a guarnição rende-se.

Nós começamos a fazer contas de cabeça, pois não somos propriamente bem vistos entre os novos senhores da prisão. E com razão: um deles vai buscar os ficheiros e começa a fazer a chamada, mandando os chamados encostar a uma parede. Para meu azar os meus nomes próprios começam por A e F.

Mas não vou dourar a pílula: logo a seguir vem a comissária do batalhão feminino (que por acaso estava grávida), que se lembrava que o irmão, que falecera num embate com a UNITA, era nosso companheiro, a dizer que naquele dia ninguém ia ser fuzilado…

E assim eu estou aqui, 40 anos depois.

Mas ela não. Foi presa, deixaram-na ter o filho, mas foi morta.

ANEXO

Junto, a título de curiosidade, alguns recortes de jornais portugueses da altura, que os meus pais, na sua aflição, foram coligindo, sobre os vários apoios que íamos recebendo.

jornais

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