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A nudez diáfana do burkini (ou a morte dos ” valores franceses” da liberdade, igualdade, fraternidade)

2016/08/26
(imagem retirada de https://www.facebook.com/3rdWF/)

(imagem retirada de https://www.facebook.com/3rdWF/)

O verão europeu (e mundial), mas em particular o verão francês, tem sido agitado pela polémica do “burkini”, o fato de banho inventado por uma modista australiana que, cumprindo (em princípio…) as leis islâmicas, permitiria a algumas mulheres que professam esta fé, e que o desejem, ir até uma praia, uma piscina ou um lago, e refrescarem-se ou darem umas braçadas,

Note-se que o burkini, como é evidente, não “destapa” (desculpem-me a palavra) as mulheres. E realço este facto porque as polémicas anteriores (datando de mais de um século) na luta das mulheres neste particularíssimo aspecto da sua luta pela igualdade, tinham a ver com o facto de, pelo contrário, estarem pouco vestidas (aliás os homens também começaram por usar umas coisas esquisitas, parecidas com uns pijamas de péssimo gosto, tapando os braços e pernas, isto pelo menos nos chamados banhos públicos).

Nas imagens seguintes, tiradas na década de 20 do século passado, a polícia sujeitava as mulheres mais ousadas (não, não eram as que se tapavam) verem as suas roupas medidas em público (por homens) para ver se a altura dos saiotes estava de acordo com a lei.

policia_1922 policia_palm-beach

 

Muito se caminhou desde então, mas talvez valha a pena ver o que, pouco antes daquelas fotos, se usava e se poderia chamar “burkinis avant-la-lettre” para homem e mulher.

saint_tropez homem_listado

Curiosamente, as quatro senhoras de cima foram fotografadas em St. Tropez, e portanto em absoluta oposição aos “valores franceses”, tal como eles agora foram redefinidos pelo inefável senhor Manuel Valls, primeiro-ministro francês. Elas não o sabiam, mas hoje fariam parte de uma lista restrita.

Quanto ao garboso bigodudo do fato listado, nada consta.

Não seria polémica se não tivesse opositores e defensores (assim como uma larga legião de indiferentes…)

É preciso que se diga que a questão dos trajes islâmicos (e não apenas, enquadrada na exibição de símbolos religiosos em geral) já vem sendo regulada em França há alguns anos, com mais ou menos polémica, no que diz respeito ao espaço público.

Não vou entrar nos detalhes, que envolvem quer os valores (esses sim) franceses e universais da liberdade, igualdade e fraternidade democráticas e republicanas, quer os da segurança das populações: numa palavra, a cara do cidadão e da cidadã é para se ver, para se identificar, para olhar nos olhos os outros cidadãos e ser olhado do mesmo modo.

Até aí foi a lei francesa, mas tê-la-à ultrapassado, segundo alguns, ao proibir especificamente certos tipos de vestuário, proibição essa que, sob o princípio da laicidade do Estado (e portanto aparentemente genérica), atingiu sobretudo as comunidades islâmicas.

O burkini (ou a sua polémica, visto que a peça de roupa não surgiu agora) aparece num contexto totalmente diferente: o pânico gerado com os atentados terroristas.

Se pensarmos em abstracto sobre o assunto, e olhando para as imagens que vimos atrás, toda a questão é ridícula: não se está a punir mulheres por estarem muito despidas na praia, mas por estarem demasiado vestidas! Têm a cara tapada? Não. Pelo contrário, para quem tem a ideia da mulher muçulmana tapada da cabeça aos pés, os exemplos que vi mostram mulheres um pouco mais “libertas” (e sei/faço ideia do que pesam estas aspas, pelo menos para muitas), usufruindo desse espaço público que é uma praia, um lago ou uma piscina.

burkini_5 burkini_1 burkini_2 burkini_3

É evidente que apenas um idiota poderá apontar argumentos de segurança contra estas mulheres que desfrutam da praia com a família e amigas e amigos. Levam símbolos religiosos para a praia? Não brinquem comigo. Violam os “valores franceses”, Manuel Valls? Bom, muito por baixo anda a consideração dos valores franceses, quando é preciso fazer tais concessões ao populismo e tal é o receio de deixar fugir apoios para o Front National da senhora Le Pen.

Resta um argumento igualmente muitas vezes utilizado: o burkini é a continuação da burka (e de outro vestuário que as mulheres muçulmanas seriam obrigadas a usar), pelo que ao proibi-lo as autoridades francesas (e outras que se preparam para fazer o mesmo, como as alemãs) estariam de facto a fazer um favor a estas mulheres, a contribuir para a sua “libertação”. A sério? É evidente que existe um sistema de poder em algumas sociedades (nas de maioria muçulmana em particular, mas não apenas; e não é preciso recordar que nas outras sociedades não foram os governos que impuseram o bikini e as minisaias da Mary Quant – pelo contrário, eu vi – e concerteza muita gente com a minha idade terá visto algo de semelhante- a polícia levar uma mulher cuja saia nem sequer era muito curta, e o mesmo se passou na praia com mulheres de bikini), com supremacia masculina, do pai, dos irmãos, e finalmente do marido (no limite, de qualquer homem que se arvora em zelador do que é correcto e do que está – ou ele pensa que está – num livro sagrado).

Só que esse sistema não é absoluto – não existe na realidade nenhum país com essas exigências de vestuário. Elas existem ao nível de algumas famílias, grupos, tribos, e sobretudo em zonas remotas. Claro que existe a imposição forçada, familiar, de bairro (para não parecer mal, etc. tal como com qualquer outro grupo social).

Mas uma coisa que não se deve fazer é confundir os muçulmanos que vivem na Europa com os que vivem em países de maioria muçulmana, e em que o islão é a religião oficial – e a lei reflecte isso mesmo. Mesmo se esses países têm uma grande diversidade, desde os mais democráticos, como Marrocos, a Tunísia (em transição…), a Turquia (????), a Indonésia, ao Afeganistão, Líbia, e…. Arábia Saudita.

A burka e o restante vestuário característico das mulheres muçulmanas pode ter origens históricas remotas, e ter sido aproveitado como instrumento de dominação – não tenho dúvidas sobre isso – mas o burkini pode ser um passo (pequenino que seja) para aliviar essa dominação.

E entretanto, para brincar na areia e tomar umas banhocas.

É que reparem nisto: numa coisa Valls, os munícipes do mediterrâneo e os muçulmanos ortodoxos estão de acordo:

Nenhum deles gosta do burkini!

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