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Declaração de voto em dia de reflexão

2011/06/4

Neste dia os cidadãos deviam ponderar sobre o que ouviram ´das várias forças políticas durante a campanha eleitoral e, com um ar circunspecto, decidir em consciência em quem irão votar.

Lamento, mas acho o dia de reflexão uma hipocrisia. Parece-me que neste dia a maioria das pessoas que irão votar já decidiram há muito tempo em que partido irão votar. Por outro lado, os órgãos de comunicação, que nesta campanha atingiram níveis por mim nunca vistos de enviesamento e parcialidade, também não respeitam o dia de reflexão, apenas são mais cuidadosas na forma de apresentar as notícias.

O CDS/PP procura reforçar o seu nicho de mercado, com vista a ganhar poder negocial caso se coloque a hipótese de uma coligação com o PSD (cada vez mais provável, a acreditar nas últimas sondagens). Nada de novo por ali, as mesmas ideias conservadoras, mas no entanto, caso se concretize aquela coligação, vamos ter uma situação paradoxal: o CDS/PP será (poderá ser) um travão a algumas das propostas mais ultra liberais do PSD de Passos Coelho.

Quanto a este, é certamente o PSD mais à direita de sempre. Não apenas pelas ideias ultra liberais que Passos vem defendendo desde o princípio (na saúde, com o abandono da universalidade dos serviços prestados, na educação, com o financiamento estatal de escolas-empresas em locais onde existe ensino público, em detrimento do investimento na qualidade deste, na política social, no trabalho, na política fiscal, na política de privatizações, e outras), como por, devido ao facto de nunca ter estado tanto tempo afastado do poder, à volta de Passos se ter juntado uma multidão de ressabiados (e não me refiro apenas à Dra. Manuela, que é apenas a face mais patética dessa turba) e de oportunistas que, aproveitando-se da situação do país e do acordo com a UE/BCE/FMI, querem introduzir alterações à legislação, nomeadamente fiscal e laboral, que não constam do acordo nem têm qualquer impacto na competitividade do país.

A ideia peregrina de privatizar a Caixa geral de Depósitos foi prontamente rejeitada, mesmo por economistas e gestores próximos do PSD e do CDS, que sabem da importância de ter um banco estatal com aquelas características, sobretudo nas atuais circunstâncias (o que não invalida alterações estatutárias quanto ao seu objecto e à sua independência).

A CDU e o Bloco de Esquerda parecem ter como missão única prejudicar os governos PS e facilitar os governos da direita. Parece uma afirmação muito forte? E certamente merecedora, por parte daqueles dois partidos, dos habituais epítetos de reacionária, e pior, pois eles apresentam-se como “a esquerda”, e está tudo dito, fora disso é direita. Quero eu dizer com isto que, a contrario, eles deveriam facilitar os governos do PS? Não, nem por sombras! Deveriam ser exigentes com o PS para que se mantivesse (mais) fiel à sua matriz de esquerda, não cedendo mais do que o necessário a um certo pragmatismo governativo. Mas é sempre necessário um certo pragmatismo governativo. Mas igualmente a CDU e o Bloco devem admitir que não são cristalinamente puros, e que um certo pragmatismo seria necessário se de facto estivessem interessados em defender os interesses dos trabalhadores, e não apenas a sua imagem como Cavaleiros da Revolução (que obviamente não são).

Fica o PS. Estou satisfeito com o PS e com José Sócrates? Claro que não, só um seguidista acéfalo poderia responder afirmativamente. O estilo de Sócrates deixa muito a desejar, é verdade que muitas vezes roça a arrogância, mas não estou a votar num concurso de personalidades. O PS cometeu muitos erros? Claro que sim, até seria fastidioso enumerá-los aqui. Por exemplo, e para citar alguns dos mais falados, muitas das Parcerias Público Privadas não fazem qualquer sentido, e são financeiramente ruinosas. Muitas vias de comunicação construídas em formato de auto-estrada poderiam ter sido construídas noutro formato, mais barato. Devia-se ter apostado mais na correção do que foi um grande erro que remonta ao cavaquismo, a recuperação da rede ferroviária. Mas, paradoxalmente, e talvez à exceção de alguns pormenores, não são do governo os erros que conduziram à crise da dívida, e só o analfabetismo ou o oportunismo de alguns comentadores/economistas/gestores puderam deixar criar uma situação em que os eleitores vão para uma eleição totalmente desinformados (e, já agora, igualmente a falta de resposta do PS e do governo, apanhados já numa situação em que tinham de jogar à defesa). Os órgãos de informação numa primeira fase ainda se socorreram dos “economistas” (eufemismo com que designam os economistas oficiais e ortodoxos – se se verificar, por exemplo, em Portugal, eram sempre os mesmos, das mesmas áreas e a dizer as mesmas coisas) nenhum explicando a evolução da crise desde a sua génese na crise do subprime nos EUA, aos ataques dos especuladores financeiros às dívidas soberanas de alguns países, sob o olhar benevolente do Banco Central Europeu.

Mas independentemente da crise orçamental e da dívida externa, o governo do Partido Socialista foi o que mais avançou numa série de áreas que foram deixadas esquecidas ao longo de anos por outros executivos, áreas fundamentais para o desenvolvimento do país.

Uma dessas áreas foi a das políticas sociais, com a introdução do complemento solidário para idosos e da rede de cuidados continuados de saúde. A reforma da segurança social tornou-a sustentável por um maior período de tempo, e com um saldo financeiro de tal maneira elevado que a direita o quer utilizar… para pagar as políticas liberais de Passos Coelho.

Outra foi a aposta na investigação e no conhecimento, com a ligação a conhecidas instituições universitárias internacionais (não é para agradecer, vejo nos blogs e na comunicação em geral cientistas portugueses que beneficiam de forma ímpar com essa colaboração – e reconhecem-no – a apelar ao voto noutras forças: espero que não digam que estavam sujeitos a alguma forma de asfixia).

As exportações beneficiaram igualmente com essa colaboração, sendo esse o caminho a seguir, e não uma redução dos custos laborais (via Taxa Social Única) que não teria qualquer peso, seria absorvida como lucro pelas empresas, dava o sinal errado de que não se deve apostar na inovação e sim nos baixos salários, e colocaria problemas de financiamento da segurança social que teriam de ser colmatados através de impostos.

Na campanha eleitoral os outros partidos procuraram igualmente desvalorizar a aposta pessoal de Sócrates nas energias renováveis. Os mais críticos disseram que Sócrates é um homem sem visão. Talvez. Mas como não dispomos de nenhum “visómetro”, aceitemos pelo menos o facto de que ele neste caso acertou: essa aposta, com resultados visíveis mesmo sabendo-se que esta  é uma daquelas áreas em que os grandes resultados só podem surgir a médio/longo prazo, é elogiada internacionalmente, e as empresas portuguesas do ramo estão nos principais mercados (como os EUA), do mesmo modo que existem associações com empresas japonesas de viaturas elétricas para se produzirem em Portugal baterias e se constituir uma rede de abastecimento.

Finalmente, no que toca ao governo electrónico, ou às relações da administração pública com os cidadãos através da internet, Portugal é líder mundial, e recebe em anos sucessivos prémios pelas suas boas práticas nesta área, fornecendo também assessoria a outros países.

Noutras áreas, como a educação, apesar das resistências corporativas, foram introduzidas as alterações possíveis, melhorando o que praticamente não existia, nomeadamente no que respeita à avaliação dos professores.

Não vale tornar mais longo o que já longo vai.

Vou voltar a votar PS.

One Comment leave one →
  1. João Cysneiros Esteves permalink
    2011/06/4 4:26 pm

    concordo e subscrevo inteiramente.
    obrigado e um abraço,
    J

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