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Ninguém tem o exclusivo da memória

2009/02/3

No Les Canards libetaîres foi publicado o seguinte texto de Francisco Luís Parreira, que foi recusado pelo jornal Público:

Esther Mucznik (EM), no Público de 15 de Janeiro último, refuta a acusação de que Israel perpreta em Gaza um novo Holocausto, o que faria dos judeus os novos nazis e dos palestinos os novos judeus. Em manifestações ditas pela paz, mas talvez mais pela vingança, essa acusação tem sido expressa em cartazes que sobrepõem a cruz suástica à estrela de David. A acusação é absurda e a sua refutação salutar. Quanto aos símbolos, observo apenas que ostentar uma suástica, seja com que objectivo for, é sempre e só declarar-se representado por ela. E associá-la à estrela de David não é pronunciar-se, com miserável ironia, sobre o actual conflito; é, com miserável ironia, legitimar o passado. EM, porém, deseja compreender os motivos da acusação. Com esse fim, faz uma série de observações sobre a identidade judaica e a sua relação com a guerra actual que reputo de singulares e até mistificadoras. Ao debatê-las, não me coloco entre os adversários de EM. Creio até que essas observações se viram contra quem as defende e servem ambos os lados; sugerem mesmo uma afinidade essencial entre adversários de opinião e, pior ainda, entre inimigos em guerra.
Na referida acusação, EM recusa ver uma responsabilidade objectiva do acusado. Mas deduz, admiravelmente, uma responsabilidade objectiva do acusador. A acusação, diz, é um modo que o acusador tem de se libertar da culpa [sic] do Holocausto. Se, na vítima de ontem, ele vir o carrasco de hoje, então o Holocausto não foi a terrível singularidade que imaginou: pode assim renunciar à sua culpa. O acusador pretende esquecer a lição da História, mas Israel está aí para lembrá-la. E é por bem recordá-la que Israel “pode por vezes não querer a paz”. Ela ensina que é preciso defender a própria existência com unhas e dentes. Os acusadores de Israel ignoram essa lição, a própria Europa já a esqueceu. Acusar Israel, conclui-se, é a prova de um defeito essencial da Europa: a amnésia. Tal amnésia manifesta-se sob a forma de má-consciência, mas na crítica a Israel insinua-se um elemento mais sinistro: o anti-semitismo. Comprova-o EM com citações de comentadores portugueses; avulta uma que refere a hipocrisia internacional, para a qual o dinheiro israelita é mais valioso que as vidas palestinas.
Comecemos por aqui. Tento descortinar o anti-semitismo das citações, mas só vejo idiotia — a qual, por natureza, não carece de qualificação adicional. Deixe lá os comentadores, cara Mucznik, não lhes dê essa importância. Se Almada desse em bombardear Lisboa com mísseis iranianos e lhes estorvasse os passeios contemplativos, é certo que exigiam logo de Lisboa o que agora condenam em Israel. Não há hoje nada de tão inimputável como o “part-time” de comentador e nada tão excitante e imune à dúvida como corrigir nações inteiras. Mas há também os outros, os que Almada não vai apanhar de surpresa. À sua inteligência dilatada, repugna-lhe a pequena dimensão das coisas. Sabem que por detrás de Almada está o Irão e que nunca há guerras em causa própria. Pela mesma razão, não deploram em Israel a política — decerto ditada pela loucura — de se entregar, para a sua sobrevivência, à protecção de um potência distante (os EUA) e ter alienado de vez a boa vontade dos vizinhos. Aplicam-se muito a virtualizar o inimigo (dependem intelectualmente da sua existência) e, na escala larga a que se atrevem, não podem deixar de fazer sua esta guerra. São de direita, mas parecem maoístas. Não encontram na História a luta de classes, mas o choque de civilizações e, entre pilhas de mortos, conseguem sempre distinguir os “instrumentalizados”. Uns e outros parecem saber muito acerca da guerra. Não vejo como. Almada nunca bombardeou Lisboa. Eu, daquilo que há realmente para saber nas guerras, não sei nada, graças a Deus. Mas sigo os bons exemplos e recordo que saber que nada se sabe é uma vantagem sobre aqueles que nem isso sabem e que, talvez por isso, tomam sempre posição.
Prefiro, se me permite, fazer-lhe uma repreensão. O seu artigo é todo perpassado por uma ideia que nunca ousa tornar explícita: a de que existe na memória do Holocausto um poder de julgamento pelo qual se “pode não querer a paz”. Tal julgamento, porém, só pode ser feito de dentro dessa memória, de modo que é um património exclusivo dos Judeus. Há aqui algo de escandaloso, mas já lá vamos. A repreensão prende-se com o uso do termo “Holocausto”. Saberá EM que é o termo encontrado pela Patrística cristã para traduzir um dos tipos de sacrifício mencionados no Levítico; com o tempo, ganhou o sentido de sacrifício supremo, de um abandono último ao sagrado. Ora, associar, por meio dessa palavra, um motivo sagrado ao extermínio de Judeus é, no mínimo, afrontoso. Ignoro se já visitou Auschwitz. Nenhum Deus ali pôde ou poderá comparecer. O local significa a própria interdição do testemunho de Deus e garanto que não existe qualquer relação entre uma câmara de gaz e um altar sacrificial. A impressão que se tem, porém, é que, se for preciso, amanhã está pronto a funcionar, e o mais perigoso a respeito do Mal é achá-lo único, impartilhável e irrepetível. EM, porém, faz de Israel a encarnação desta memória e trá-la a desempenhar um papel argumentativo no conflito actual. EM é judia, eu não. Que não me leve a mal perorar-lhe sobre o Extermínio. Os seus antepassados conheceram o horror mais infame da história humana. Os meus não, tiveram só as tragédias que lhes coube. Mas jamais ousaria definir-me a partir delas. Todas as tragédias escarnecem da nossa pretensão a herdá-las. Somos assim, Mucznik e eu, mais parecidos um com o outro do que com os nossos antepassados: ao pé deles, somos bem-aventurados. Tem, portanto, de chegar o momento em que se torne possível falarmos sem a mediação de Auschwitz e em que uma guerra seja encarada como aquilo que é. Vista de Auschwitz, toda a justificação é grotesca. Nenhum museu do Holocausto lhe oferece mais do que uma esmola de sentido, e muito menos pode aquela memória ser associada a um exército que parte para a guerra, mesmo que seja o exército de Israel.
EM, porém, exige essa mediação para falarmos desta guerra. Eis então o escandaloso: como os manifestantes que deplora, está a afirmar que é sob o primado da suástica que se tem de entender a estrela de David, embora isso agora tenha o prestígio de uma justificação. Está a afirmar que Auschwitz é, ainda que no plano simbólico, o momento fundador da presente guerra; que o inimigo de Israel não mudou e é eterno; que todos os israelitas combatem a mesma guerra dos seus avós europeus. Receio, aliás, que este mito não seja privado; receio que tenha sido o único fundamento do sionismo no pós-guerra. O erro é perigoso, sobretudo para Israel. Confundir a natureza de uma guerra é condenar-se a perdê-la. Mas o perigo maior é depender da guerra para certificar um elemento identitário. Ao pretender que combate o Extermínio, pode Israel imputar aos actos do inimigo a mesma demência incompreensível. Pode, sem esforço e sem remorso, sentir os actos do Hamas como desligados dos seus, como pura exterioridade e mal absoluto. Isto não significa apenas a banalização de Auschwitz. É também uma rendição ao inimigo. Só ele serve de prova à continuidade do mito identitário, e por isso é desejável. O inimigo crê o mesmo; por força deste mimetismo, tiram a sua existência um do outro e da inimizade que os define.
Talvez devamos operar distinções nesse mimetismo. Mas quais? Quando vejo em reportagens de Gaza as vítimas infantis amortalhadas, acho sempre estranho que apareçam a chorá-las adultos sem um único ferimento. Todas as mães desejam o melhor para os seus filhos, mas muitas mães palestinas parecem achar que o melhor não é esta vida e não hesitam em dá-los à primeira linha dos “mártires”. Israel também não. Como todo o bom estado moderno, já se substituiu às mães e chora o martírio dos seus filhos, não com gemidos lancinantes, mas com honras militares. A guerra, “desigual” ou “equilibrada”, é mais miserável das condições. Nenhuma morte tem precedente e cada uma é a intolerável recapitulação de todas as outras. Que se chore as mortes, que as honras sejam prestadas. Mas que não se rivalize na sua justificação, seja ela Alá, a pátria ou, pior ainda, a lição da História.
Nesta guerra, para EM, é directamente a vida do judeu que está em causa. A sobrevivência é o essencial da experiência judaica. Foi nessa vida que Israel se fundou politicamente. Perguntou “quem é o judeu?” e não, por exemplo, “quem é o cidadão?” Como todos os estados a braços com duas ordens distintas de realidade, a nacionalidade e a soberania, está condenado a produzir minorias excluídas, refugiados e apátridas — condição outrora conhecida dos judeus. Mas também se condena a produzir uma abstracção: a do judeu ele mesmo. Não me refiro sequer ao facto de Israel não ser os judeus da diáspora ou os não sionistas. Refiro-me à consequência de se fazer daquela vida o objecto essencial da guerra. É-se assim chamado a considerar a existência do judeu como algo que tem de ser proclamado em si mesmo, fora de qualquer conteúdo político, filosófico ou religioso; a entendê-la como valor superior a qualquer ideal de liberdade ou justiça, até ao direito internacional. Isso é torná-lo numa abstracção. Ora, é essa mesma perversidade da abstracção que alimenta o anti-semitismo. E mais uma vez, os inimigos são o mesmo.
A morte, porém, é avessa a abstracções. Se cada morte em Gaza ou Israel representa alguma coisa, é a evidência de que só o presente existe e os inimigos estão integralmente nele. A dívida de uma vida é tão grande que nenhum passado pode dar conta dela. Todo o passado e toda a memória têm que ser cancelados, a começar pela mais estúpida questão de uma guerra fundada apenas sobre a violência territorial: quem tem direito àquela terra? A este cancelamento do passado, sem o qual não é possível viver em paz, o artigo de EM não presta qualquer serviço.
Não pretendo excluir-me, com este texto, do Ahabath Israel ou amor a Israel. Mas o mesmo amor não o tenho aos “Judeus”: não posso ter amor a uma abstracção (tal como outros têm ódio). E mesmo que o tivesse, só o faria por uma razão: porque não sou judeu. Se o fosse, não ia amar-me a mim mesmo, só porque o era. Isso seria tão absurdo como amar a terça-feira, só porque não é quarta. E, tendo amado Deus outrora, só me restava agora amar-me a mim, podendo não “querer a paz e sem nada esperar de ninguém”?

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