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O lobo mau Rússia e o capuchinho Geórgia

2008/08/11
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Com o fim da União Soviética e a queda do muro abriu-se uma nova era na história (e não foi o fim da história, como imediatamente se tornou evidente).

Claro que só os mais ingénuos poderiam acreditar que essa nova era seria de uma maior cooperação entre os Estados, em particular na Europa, no sentido da paz e do desenvolvimento. Cedo se viu que, com a Rússia grandemente enfraquecida, era a ocasião de aproveitar e ocupar o vazio deixado pela URSS. Só que essa ocupação não deveria apenas apoiar os vários Estados na sua democratização e desenvolvimento, mas tinha (tem) um objectivo estratégico muito mais importante: condicionar o desenvolvimento da Rússia, “comprando” os vários nacionalismos nas suas fronteiras (com dinheiro, com apoios políticos e com apoio militar, que vai mesmo ao ponto de instalar bases militares ou rampas de mísseis em alguns deles), desde os Balcãs, passando pelo Cáucaso, até algumas repúblicas da Ásia Central.

A primeira amostra foram as guerras balcânicas dos anos 90, em que os nacionalismos encabeçados pelos ex-comunistas das várias repúblicas ioguslavas foram incentivados e reconhecidos pelos Estados Unidos e alguns países da União Europeia (com a pioneira Alemanha a acender o rastilho com o reconhecimento da Croácia), e com a Rússia a apoiar a Sérvia. Ali não havia santos (ou pelo menos os que havia não tinham o poder), mas logo se fez a distinção entre os “nossos” e os “outros”, com a Sérvia a encabeçar estes últimos. Às atrocidades de parte a parte que se seguiram, a resposta do Ocidente foi a de aplicar a justiça dos vencedores (perseguindo, justamente, mas ainda não punindo, os chefes dos “outros”, mas esquecendo ou perdoando os “nossos” facínoras, como o ex-presidente croata Franjo Tudjman e muitos outros, croatas, bósnios e albaneses. A manta de retalhos que é hoje a Bósnia-Herzegovina, actualmente em paz relativa, apenas aguarda melhor altura para voltar a explodir. Apoiou-se a secessão do Montenegro, felizmente sem grandes confrontações. No Kosovo começou-se por amplificar as notícias dos confrontos (leiam-se hoje os relatórios da altura da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa), para se fazer um ultimato humilhante à Sérvia em Rambouillet, e de seguida se atacar a Sérvia, então sim provocando-se um enorme êxodo de kosovares-albaneses para a Albânia, e de kosovares-sérvios para a Sérvia. O resultado foi, na prática, a limpeza étnica do Kosovo, ficando os sérvios reduzidos a uma percentagem ínfima que se vai reduzindo. E já este ano o Kosovo, que segundo as leis internacionais é parte da Sérvia, declarou a independência, logo reconhecida sem pruridos pelos Estados Unidos, França e Alemanha, e abrindo um precedente que poderá ser reivindicado (segundo algumas estimativas) por cerca de 200 ou mais regiões em todo o mundo.

Duas dessas regiões (mas há muitas mais nos despojos da ex-União Soviética) são a Ossetia do Sul e a Abkhazia, dentro das fronteiras da Geórgia mas com população na sua maioria russa. E sabe-se como o Cáucaso é geoestrategicamente importante nos jogos pouco florais do comércio petrolífero.

Não sei quem começou o presente conflito na Geórgia (e pelo que vejo nos media portugueses e internacionais, ninguém parece saber muito bem). Mesmo quando os media entrevistam as populações deslocadas, já vi a atribuição de culpas quer à Rússia quer à Geórgia. Mas o ocidente já decidiu pela aplicação de uma regra simples: se mete a Rússia, foi a Rússia.

Nas primeiras reportagens aparecidas nos media sobre o conflito ainda se podiam ver e ouvir opiniões contraditórias. Numa delas, uma mulher que fugiu dos bombardeamentos com os filhos para a Ossetia do Norte (em território da Federação Russa) dizia: eu sou georgiana, como vou explicar aos meus filhos que viram o exército e a aviação da Geórgia a bombardear a nossa casa?

Vai uma aposta que reportagens dessas já não passam nos mainstream media?

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