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Morte de um homem bom

2007/11/28

Fernando PaivaConheci o Fernando Paiva na cadeia de S. Paulo, em Luanda, onde nos encontrávamos presos sem acusação formal, sem defesa, sem garantias de qualquer espécie, e sem qualquer ideia sobre o tempo que lá ficaríamos. Guardo na memória as longas conversas que tivemos e a amizade que entre nós se foi cimentando com o tempo.

Sobre o que foi a sua vida, é elucidativa a biografia posta a circular por Adolfo Maria hoje, que transcrevo:

FERNANDO PAIVA

 

Faleceu esta madrugada no Hospital dos Capuchos, em Lisboa, Fernando Castro Paiva, um nacionalista angolano que, desde muito jovem, militou pela libertação do seu país.

 

Fernando Paiva nasceu em Luanda a 3 de Maio de 1939, tendo crescido no bairro operário (o famoso B. O.)  situado entre o Alto das Cruzes e a missão católica de S. Paulo. Depois de frequentar a Escola Industrial de Luanda foi estudar em Portugal, no Instituto do Porto onde se formou em agente técnico de engenharia (a designação de então dos engenheiros técnicos), nos finais da década de 1950. Como estudante era membro da Casa dos Estudantes do Império e responsável da delegação da Casa na cidade do Porto.

 

A Casa dos Estudantes do Império desenvolvia intensa actividade cultural de cariz nacionalista e nela participaram numerosos indivíduos que viriam mais tarde a desempenhar relevante papel na luta de libertação dos seus países, então colónias portuguesas. Fernando Paiva foi um deles.

 

Em meados de 1961, cerca de cem estudantes africanos oriundos de Angola, Moçambique, São Tomé, Cabo Verde, e alguns familiares realizaram uma fuga colectiva de Portugal para França para integrarem as fileiras nacionalistas. Entre eles João Vieira Lopes, Gentil Viana, Pedro Sobrinho, Manuel Videira, , Carlos Pestana, Tomás Medeiros, Bento Ribeiro, Lopes Teixeira, Jerónimo Wanga, Mateus Neto, Henrique Carreira, Ana Wilson, Africano Neto, José Araújo, Serafina Assis, Henrique Santos, Rui de Sá, Pedro Filipe, Lima de Azevedo, Samuel Abrigada, Fernando Paiva. A maior parte desses estudantes alistou-se no MPLA e são hoje conhecidos só pelo nome de guerra que adoptaram, como por exemplo: Iko, Dibala, Onambwa, Katiana. Muitos deles assumiram cargos directivos no referido Movimento e outros tornaram-se também altos dirigentes do estado angolano.

 

Aqueles estudantes que fugiram de Portugal em Junho de 1961 foram depois encaminhados para vários países europeus e africanos, conforme a sua escolha de movimento nacionalista ou instruções recebidas das direcções das respectivas organizações políticas. Fernando Paiva foi para a então União Soviética onde concluiu o curso de engenheiro do ramo electricidade, especializado em alta tensão. Nesse pais era o representante dos estudantes angolanos do MPLA. Era também por inerência um dos membros dirigentes da UGEAN, organização que agrupava os estudantes das então colónias portuguesas. Assim desenvolveu vasta actividade associativa e diplomática, participando em numerosos congressos internacionais de estudantes  e fóruns de apoio à luta de libertação em África.

Em 1969, recebeu formação militar específica, sendo depois destacado para a frente guerrilheira do MPLA, no Leste. Transferido em 1970 para o Congo Brazzaville, a fim de participar na organização dos serviços de telecomunicações do Movimento (SRT) na Frente Norte, que englobava Cabinda (2ª Região político-militar) e o norte de Angola (1ª Região), foi nomeado responsável dos SRT da Frente Norte, tendo como seu adjunto o actual presidente angolano, José Eduardo dos Santos.

 

Perante a profunda crise que se vivia no MPLA, Fernando Paiva adere, em Maio de 1974,  a um  movimento de militantes e quadros, a Revolta Activa, que contestava os métodos e políticas seguidas pela direcção do MPLA. Participa, em Agosto desse ano, no fracassado congresso de Lusaka, que visava fazer a reunificação do MPLA, dividido em três tendências: a da Direcção, a Revolta do Leste (Chipenda) e a Revolta Activa.

 

Regressado a Angola no início de 1975, começa a trabalhar nos Serviços de Aeronáutica Civil.

 

Após a proclamação da independência, os serviços de propaganda do regime do MPLA no poder desencadeiam forte ataque contra os chamados «divisionistas» e «fraccionistas», visando membros da ex-Revolta Activa, que se auto-dissolvera no início de 1975,  e duma tendência que nascera em Luanda, a OCA. Alguns membros desta organização são logo presos pela recém-criada polícia política, a DISA. Em Março de 1976, o regime passa às ameaças concretas sobre a primeira. Nito Alves, num longo discurso feito na Câmara Municipal de Luanda, defende que sejam banidos dos seus empregos e exemplarmente castigados os membros da ex-Revolta Activa. O Bureau Político do MPLA do qual faziam parte, entre outros, Agostinho Neto, Nito Alves, Lúcio Lara, Iko Carreira, Dilolwa, Ludi Kissassunda (o chefe da DISA) decide, em 10 de Abril de 1976 a prisão de vários indivíduos que tinham pertencido àquela tendência. A 13 é lançada uma operação de captura a Gentil Viana, Capita, F. Paiva, Brooks, Tito Gonçalves, Lukamba, Totoy, irmãos Justino, Vicente e Merciano Pinto de Andrade, Rafael, Jota, António Menezes e Adolfo Maria. Os dois últimos conseguem escapar e passam a viver na clandestinidade longos meses. Os outros são distribuídos por várias prisões herdadas do regime colonial e vão juntar-se a dois outros ex-membros que tinham sido anteriormente presos: Videira e Castro Lopo.

 

Só em Setembro de 1978 é que o presidente Agostinho Neto ordena o fim da sua detenção. Os primeiros presos libertados saem da cadeia em Outubro, mas a Disa retém na prisão Jota e Fernando Paiva até meados de Novembro. A este é fixada residência numa cidade a cerca de mil quilómetros de Luanda.

 

As necessidades de organização e operacionalidade dos aeroportos de Angola levaram a que a empresa pública onde Paiva  fora colocado, a ENANA, o requisitasse em breve para os serviços centrais, terminando assim o seu exílio interior. Inteligente, rigoroso no seu desempenho profissional, Fernando Paiva foi-se impondo como um excelente quadro daquela empresa.

 

Austero de carácter, sóbrio nas suas emoções, fiel nas suas amizades, Fernando Paiva enfrentou sacrifícios com dignidade, até aos instantes finais da sua vida, que expirou depois de um tenaz combate de dez anos contra um cancro.

 

Angola perde um bravo combatente pela liberdade da Pátria e um exemplar cidadão.

 Lisboa, 27 de Novembro de 2007

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