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A LER

2005/05/5

Por um catolicismo como o mundo moderno espera, de João Lobo Antunes (link apenas válido para assinantes).

"E contudo este não é o melhor dos tempos para o espírito dos homens. A atitude confortável é dizer simplesmente que, por razões múltiplas e complexas, tudo isto resulta de uma crise de valores morais que alguns consideram resignadamente como consequência inevitável da "modernidade".
Assim se proclama o anátema da decadência espiritual de uma sociedade chamada depreciativamente técnico-científica, que cobre um novo bezerro com o ouro do êxito, do poder, do dinheiro, da exaltação da vida e do sucesso.
E de facto, parece evidente que todas as conquistas que poderiam ter levado ao triunfo incontestável sobre tantos males da civilização não foram acompanhadas de um progresso moral correlativo, e, mais do que isso, é mais tímida a afirmação dos valores de morais tradicionais em que fomos educados, e mais envergonhado o testemunho de uma cidadania na tradição cristã ocidental. E a própria Igreja não permaneceu incólume, abalada por escândalos que revelaram as chagas da sua pobre humanidade, ou pela ofensa de um silêncio quando a história parecia reclamar um grito.
"
(…)
"Parece hoje que apenas pagamos a César, e que já não são nossos os mártires. Se a Igreja tem decerto uma voz mais activa na intervenção política, e se se verifica o que se poderia chamar uma globalização do poder Papal, na afirmação vigilante da solidariedade e da justiça, a Igreja não se pode afastar das reais questões da sociedade do nosso tempo, a sua voz não pode ser débil quando interpelada pelas consciências inquietas, nem frágil e fragmentada a intervenção dos católicos, nem retrógrada a sua posição em relação aos desafios contemporâneos da ciência e da técnica. É que a Igreja surge por vezes como uma força que parece travar e não iluminar, como se a revolução científica a apanhasse de surpresa, e a sua resposta fosse tardia e inadequada. De facto, o progresso científico criou saberes e tecnologias cuja aplicação parece desafiar uma ordem moral sedimentada ao longo dos séculos, e a Igreja tem de desembaraçar o complexo novelo da modernidade."

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