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O papa e a exploração da miséria humana

2005/03/30

Desde há vários anos que o agravamento do estado de saúde do papa é conhecido. É normal, dadas as doenças de que padece (nomeadamente doença de Parkinson), a que o avançar da idade não ajuda.

O que não me parece nada normal (nada católico, como soi dizer-se) é a exploração que vem sendo feita das imagens de degradação humana com o fito de cativar fiéis pela piedade ou a comiseração. Não apenas não me parece normal como me parece obsceno.

Dirão alguns que a questão do protagonismo do papa ou de uma sua eventual resignação é matéria interna à Igreja Católica. Concerteza que é. Mas as imagens omnipresentes de um ancião doente, cansado, que aparenta um esforço superior às suas forças abrem a porta às interpretações que qualquer leigo queira fazer. E a minha interpretação é a de que a hierarquia da igreja, com ou sem o consentimento do papa, está a explorar despudoradamente a imagem (crística?) de agonia e sofrimento de um velho.

Essa exploração tem atingido o auge nas últimas semanas, desde a última doença que acometeu o papa e o obrigou a ser intervencionado numa clínica romana. Refiro-me à novela do "aparece ou não à janela, fala ou não fala aos fiéis" que comparecem em grande número para (legitimamente) se inteirarem da evolução do seu estado de saúde, e que culminou no dia de Páscoa, com um ancião a aparecer e a tentar, por diversas vezes e sem êxito, dizer algumas palavras.

O sofrimento de uma pessoa, mais a mais de um idoso, é uma coisa íntima. O facto de o papa ser uma figura pública não desculpa a exibição das suas misérias.

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