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Bush, o “revolucionário” e o “idealista”

2005/01/21

Bush Jr. tomou ontem posse para o seu segundo mandato. No seu discurso, fez afirmações que, lidas literalmente, são empolgantes e nos deveriam alegrar a todos. No entanto, dada a experiência e o conhecimento que já temos do personagem (e da sua corte), a utilização de fortes filtros torna-se necessária para descodificar a mensagem.
Por exemplo (retiro as citações do Público de hoje):

"A América, neste novo século, proclama a liberdade por todo o mundo e para todos os seus habitantes"

Fosse outro o estadista de qualquer outra nação a proclamar, isto não passaria sequer por uma piedosa e bem-intencionada declaração de intenções: seria imediatamente rotulada de arrogância pelos cães de guarda da comunicação. Mas não Bush.
A América é que proclama a liberdade para todo o mundo (e seus habitantes)? É "idealismo revolucionário", escreve com lágrimas nos olhos José Manuel Fernandes, talvez lágrimas idênticas às que lhe cairam quando saudou a "libertação" de Bagdade, comparando-a ao 25 de Abril (nada de mais semelhante!).
E já agora, qual o papel dos habitantes desse mundo, para o qual Bush Jr. proclamou a liberdade? Esperarem sentados, até que aviões que descolaram de aeroportos longinquos os comecem a bombardear, abrindo caminho para as tropas libertadoras? Ou ficarem mais preocupados, porque agora já nem se vai passar pela fase das campanhas mentirosas do tipo "armas de destruição maciça" e fingir que se negoceia na ONU quando as decisões já estão tomadas há muito?
Outra pérola:

"E todos os aliados dos EUA saberão: honramos a vossa amizade, confiamos no vosso conselho e dependemos da vossa ajuda"

Está visto que sim. Trata-se de uma autocrítica à política de intimidação e divisão do campo democrático que antecedeu a invasão do Iraque, de um reconhecimento de que de facto dependem da ajuda dos outros (o défice federal não pode esticar indefinidamente, e verfica-se uma forte retracção no voluntariado para as forças armadas, pelo que também há falta de carne para canhão)? Ou trata-se antes de mais do mesmo, indicando aos aliados que uns o são mais do que outros, consoante haja ou não uma submissão total às decisões de Washington?

Não vi citadas quaisquer declarações sobre a política de detenções expeditas e torturas sistemáticas (sim, política, definida ao mais alto nível e com pareceres favoráveis de consultores jurídicos – como o hoje Procurador-Geral, e eventual futuro membro do Supremo Tribunal – e não casos pontuais, como querem fazer crer os julgamentos dos e das brutamontes que só lá estão porque foram suficientemente burros para ficar na fotografia).
As proclamações de liberdade, democracia e respeito pelas leis deveriam começar por casa.

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