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A ler: Teodora Cardoso sobre as estatísticas e os políticos

2004/12/1

No Jornal de Negócios Online Teodora Cardoso apresenta um interessante artigo sobre o estatuto que as estatísticas tiveram ao longo do tempo no discurso político, e comentando certos factos recentes (pré-anúncio da dissolução da AR) e ilustrativos, de reacções de políticos a estudos ou estatísticas publicadas (que para esses políticos – que não se restringem apenas ao governo actual, sublinhe-se – se dividem em boas e más, consoante lhes sejam ou não favoráveis). Recomendo vivamente o artigo, apenas sublinhando dois factos que me parecem evidentes: As estatísticas, mesmo quando nos aparecem sob a forma de um indicador que é um número, normalmente com um ou dois decimais, podem parecer de uma enorme simplicidade, e de leitura acessível e imediata a qualquer um. Ora isso não é verdade, mesmo por trás do indicador mais simples encontra-se um complexo processo de construção, com a sua teoria, a recolha, tratamento e análise dos dados, até à sua publicação. Não quero com isto dizer, ou defender, que só um grupo de eleitos deveria falar delas, extraír conclusões etc. Pelo contrário. Mas contece que para isso é preciso possuír alguma formação básica, e como sabemos, se em Portugal a iliteracia é grande, a inumeracia é enorme.
Todos já tivemos (na realidade, quase todos os meses) a experiência de, quando o INE publica os dados referentes ao Índice de Preços no Consumidor, diferentes órgãos de comunicação afirmarem ao mesmo tempo que a inflação diminuiu, aumentou ou se manteve estável. Aparentemente, estas situações vêm reforçar as opiniões daqueles que sustentam que as estatísticas dizem o que nós quisermos. Na realidade, as aparentes contradições resultam de confusões entre os vários indicadores de inflação que se podem extraír do IPC, nomeadamente a sua variação mensal, a sua taxa média anual ou a sua taxa homóloga (entre outros), que podem de facto variar em sentidos diferentes para a mesma realidade mensal, mas que não autorizam aquelas diferentes interpretações. Na realidade, é o conjunto delas (e das suas subcomponentes, regionais e/ou por categorias da despesa) que nos fornecem a maior informação. Este erro é frequente mesmo nas secções económicas de alguns órgãos de informação. Outros indicadores citados por Teodora Cardoso, como a evolução do PIB ou da execução orçamental, são ainda mais complexos e exigentes. O outro aspecto que queria realçar é a absoluta necessidade de as estatísticas serem produzidas por órgãos independentes e sejam livremente disponibilizadas à sociedade, seja o INE, o Banco de Portugal ou centros de estudo académicos ou empresariais. Como sabemos, a evolução recente do INE não foi nesse sentido, o que não deixa de ser preocupante.

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