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pera bufa

2004/10/11

1. Um ministro de quem ningum tinha ouvido falar, mas que teoricamente tem a pasta dos Assuntos Parlamentares, Rui Gomes da Silva de seu nome, desatou a invectivar o seu correligionrio do PSD, e ex lder do partido, Marcelo Rebelo de Sousa, que at semana passada, e durante quatro anos e meio, assegurava uma homilia dominical no jornal das 8 da TVI. O motivo imediato foi Marcelo ter criticado a tolerncia de ponto concedida pelo governo para o dia 4 de Outubro, vspera do feriado da implantao da Repblica, comparando esse acto do governo aos piores do ltimo governo Guterres. Mas o ministro, que falava enquanto tal, acusou Marcelo de destilar um dio ao Primeiro-Ministro superior ao que lhe devotariam (o dio) o PS, o PCP e o BE em conjunto, e bramava contra a ausncia de contraditrio na dita homilia, invocando a actuao imediata da Alta Autoridade para a Comunicao Social.
2. Marcelo, instado a responder, disse que o faria na homilia do domingo seguinte.
3. No dia seguinte, e aps uma reunio de Marcelo com o patro do grupo proprietrio da TVI, vem-se a saber que tal homilia j no ter lugar. Marcelo remete-se ao silncio, excepto para…
4. …O Presidente da Repblica, com quem tem uma audincia de cerca de hora e meia, mas da qual no transparece nada para fora dos muros do Palcio de Belm.
No vale a pena voltar a esmiuar os detalhes conhecidos desta srdida histria, com intervenes/desafios do Primeiro-Ministro, outras de desagrado e preocupao quer de cronistas quer de personagens pblicas, algumas delas com importncia no prprio PSD, como outro ex-Presidente e ex-Primeiro-Ministro, Cavaco Silva.

Realce-se:
1. Para o ministro desbocado e para quem o mandou fazer aquela figura triste, o antagonismo e a crtica poltica baseiam-se no em diferenas de opinio mas em dios. S isto diz imenso sobre quem detem o poder neste pas.
2. Claro que o formato das homilias de Marcelo era excessivo, em termos de durao e do papel dos jornalistas de servio, que actuavam como meros compres. Claro que no tinha contraditrio: esse papel deveria ser desempenhado por outros comentadores ou cronistas em outros rgos de comunicao. Uma notcia deve ser cuidadosamente confirmada junto das partes nela referidas, um debate contraditrio por princpio, mas uma crnica de jornal (ou um comentrio na televiso ou na rdio) s devem ter um contraditrio externo (noutro comentrio ou crnica), pois so a expresso de uma opinio pessoal, baseada numa anlise pessoal, e com responsabilidade pessoal.
3. A censura nas democracias modernas no assume o mesmo aspecto da que conhecemos durante a ditadura. Pode ser auto-censura, mas pode tambm ser censura exercida pelo grupo ou grupos econmicos que detm a propriedade de um meio de comunicao. No sabemos se ter sido esse o caso, embora a sequncia de factos conhecidos para isso aponte. De qualquer modo chama a ateno para este problema, com grandes grupos econmicos a deter fatias considerveis dos media, e em alguns casos grupos econmicos teoricamente privatizados mas em que o Estado continua a deter posies de refrncia.
4. Para alm da abjeco de tudo isto, eu fico com a impresso de que Marcelo j deu a volta por cima e est feliz da vida a preparar o prximo movimento. Apesar de ter dito que o silncio era uma forma de resposta, no me parece que o silncio o satisfaa. E o papel de vtima pode sempre ser proveitosamente utilizado por quem sabe.

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