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Tempos Difceis (II)

2004/04/23

Volto ao artigo de Joo Bnard da Costa, desta vez para abordar os pontos 3. e 4.

A propsito da mgoa de uma amiga sua relativamente a um artigo escrito h um ano (em plena guerra do Iraque) em que se declarava mais prximo dos falces do que das pombas, e angustiado por se sentir crescentemente afastado da sua famlia ideolgica (estou a esquematizar um pouco, a questo interior de JBC certamente mais complexa), reafirma a sua posio com a citao da parte do artigo em questo, que termina com a frase “Mas, enquanto me lembrar (…) desse 11 de Setembro, que essas mesmas pombas varreram da memria ou da razo, julgo que sou fiel aos fluxos que outrora recebi e transmiti, ao recusar-me qualquer pensamento, palavra ou obra que me aparte das vtimas desse inominvel horror ou que me aproxime dos brbaros que o cometeram, o pagaram, o apoiaram ou o compreenderam.”
Desde essa altura, muita gua e muito sangue correu pelo Eufrates. No vale a pena fazer aqui o historial da ignomnia a que estados democrticos se dedicaram para justificar a guerra. No, no me estou a esquecer que o regime de Saddam era incomensuravelmente mais ignominioso, e a sua queda at agora o nico aspecto positivo. Mas JBC incorre, na minha opinio, no maior dos equvocos desta guerra, hoje generalizadamente aceite, mesmo nos Estados Unidos: a guerra do Iraque no s no faz parte da guerra contra o terrorismo global tragicamente apresentado a 11 de Setembro de 2001, como constituiu (constitui) um grande desperdcio de tempo, recursos e vidas que teriam muito melhor aplicao num combate decidido e mais eficaz a esse mesmo terrorismo, com um mbito multilateral, no chantageando, dividindo e alienando os aliados naturais (os pases democrticos) e incentivando o dilogo com as correntes moderadas e politicamente laicas dos pases de maioria islmica, organizando e investindo nos servios de informaes e segurana e na sua colaborao e troca de informaes. Ou seja, o contrrio do que foi feito, e continua a fazer, se bem que j com pequenas inflexes, mais ditadas pelas dificuldades criadas e por consideraes eleitorais do que por assuno do erro.
O regime de Saddam era terrvel, mas, pelos crimes do passado j tinha sido (e continuava a ser) punido, e nas vsperas da guerra j no estava em condies de ameaar qualquer estado vizinho, estava enfraquecido e no era certamente a prioridade, face ao terrorismo global com o qual no tinha nada a ver. Resultado: hoje sim, o Iraque est assolado pelo terror e constitui uma boa base avanada dos grupos terroristas mais diversos; para alm disso, com o desvio de recursos, os talibans voltaram a ter alguma preponderncia no Afganisto.
Espanta-me ter JBC cado no raciocnio dicotmico que Bush decretou, ao pensar que ser-se contra a guerra do Iraque nos “aparte das vtimas desse inominvel horror ou que me aproxime dos brbaros que o cometeram, o pagaram, o apoiaram ou o compreenderam. ” Pelo contrrio.

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