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Tempos Difceis (I)

2004/04/23

As crnicas de Joo Bnard da Costa s sextas-feiras no Pblico so um prazer de que no me privo. No se trata de concordar ou no com as premissas, os raciocnios ou as concluses que nelas lemos, mas sempre um prazer ler algum que escreve com elegncia, erudio e fina ironia, sem concesses a facilitismos. Viajamos as suas viagens, escutamos as conversas que relata, vemos as obras de arte que visita ou revisita, sejam elas pintura, escultura, msica, dana, literatura ou cinema. E, embora com grandes intermitncias, um prazer que j tem dcadas (vem de antes do 25 de Abril, que faz agora os seus trinta anos), e que por acaso comeou pelo cinema, com poltica pelo meio. Mas essas so outras histrias.

A crnica de hoje intitula-se precisamente Tempos Difceis, e tem cinco pontos. No primeiro auto-denuncia-se pelo roubo do ttulo a uma crnica recente de Antnio Barreto; como estou a cometer o mesmo delito, tomo a liberdade de o subscrever na ntegra. O quinto uma referncia pessoal onde leio uma excelente sugesto subliminar: voltar ao Museu de Arte Antiga para admirar o “Ecce Homo”.

Mas o que me levou a comentar aqui o artigo foram sobretudo os pontos 2., 3. e 4. Tratam de questes distintas (no tanto os dois ltimos), mas qualquer delas importante nos tempos (difceis) que correm.

O ponto 2. trata da magna questo da “acessibilidade” do que se escreve do ponto de vista dos leitores potenciais. Leitores de JBC queixaram-se da dificuldade em compreender a sua escrita (mais especificamente, segundo me pareceu, ao artigo da semana passada, onde falava, citava e comentava as Inconferncias de Harvard de e.e. cummings).

No uma questo menor, esta. Em princpio, qualquer autor quer-se fazer entender pelos seus leitores. Mas h assuntos e assuntos. Se h temas que podem ser abordados de uma forma mais “acessvel” ao grande pblico, outros h que, mesmo numa perspectiva de divulgao, no conseguem evitar algum grau de complexidade.
Mas a questo no se resume diferena dos temas abordados. Em primeiro lugar, a simplificao para efeitos pedaggicos ou de divulgao, por meritria que seja, constitui sempre um empobrecimento do tema abordado. Esse empobrecimento (assumido) pode ser maior ou menor, consoante os destinatrios. Em segundo lugar, o autor, mesmo sem estar a fazer uma dissertao ou uma exibio da sua erudio, pode no querer abdicar do seu mtodo e do seu estilo. E ser que deve?

JBC d a resposta voltando a e.e. cummings e a uma histria anedtica (e estamos nos incios da dcada de 50 do sculo passado) sobre as regras a respeitar na comunicao (no caso uma revista) por forma a satisfazer esse ente informe que se chama O Pblico. E mostra como essas regras se expandiram at abarcarem, hoje em dia, a quase totalidade dos meios de comunicao. E tambm como elas se ligam (causa ou efeito?) ao generalizado analfabetismo funcional, ou iliteracia. E independentemente dos argumentos a favor ou contra, reivindica o seu direito inalienvel a, enquanto puder, continuar a escrever como gosta.

No tenho a pretenso de compreender todas as referncias, inferncias, parbolas ou metforas que emanam dos artigos de JBC (e tambm de outros autores, claro), mas encaro esse facto como um desafio a que procuro responder. Se no sei ou no compreendo, mas acho que me interessa, vou procurar (num livro, numa enciclopdia, na internet, ou a um amigo ou conhecido). Por exemplo, para quem acher que houve gralha do autor ou do jornal na grafia do nome de cummings, ficar sempre um pouco mais rico se investigar um pouco.

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