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E depois da vitória militar?

2003/04/14

Tal como esperado, as forças da coligação anglo-americana venceram a guerra contra o Iraque. Tal nunca esteve em dúvida para quem tivesse um mínimo de informação e de bom-senso. Por um lado, todas as informações sobre o Iraque davam conta de um país muito mais enfraquecido do que na primeira guerra do Golfo, onde a vitória da coligação aliada (aí sim, podia-se falar de aliados, inclusive entre os países árabes) já tinha surpreendido pela facilidade (tendo espantado muito mais gente que não se tivesse nessa altura aproveitado para ir até ao fim, mas o objectivo primeiro, acabar com a ocupação do Koweit, tinha já sido atingido). E esse enfraquecimento, juntamente com o embargo que vigorou desde então, não podia deixar de afectar igualmente as suas forças armadas, aliás objecto durante esse tempo todo de uma vigilância muito mais apertada, com zonas de exclusão aérea cobrindo todo o norte e sul do país, e com ataques periódicos de americanos e britânicos a alvos militares específicos.
Por outro lado, o poderio reconhecido às forças armadas norte-americanas, com tecnologia com que os outros países (todos, não apenas o Iraque) apenas podem sonhar, com o maior poder de fogo que a história já conheceu, com meios aéreos (aviões, helicópteros e mísseis) que autenticamente limpavam extensas áreas de quaisquer vestígios de forças inimigas, assim como algumas áreas habitacionais e mercados em hora de ponta para o suficiente grau de intimidação) não admitia qualquer outro resultado. Não obstante, a propaganda americana não se cansava de “avisar” sobre os enormes riscos que a guerra representava, que se esperava uma resistência encarniçada, que a Guarda Republicana era um temível conjunto de fanáticos fortemente armados, e que o regime, em desespero de causa, não deixaria de utilizar o armamento de destruição maciça que, era um facto porque a administração americana assim o dizia, dispunha em abundância.
O que se viu? Alguma resistência esporádica, muita basófia do Ministro iraquiano da Informação, e uma quase nula oposição à entrada dos soldados americanos em Bagdad. Em Basra (Bassorá) os britânicos depararam com uma resistência mais aguerrida, paradoxalmente na zona xiita, onde se esperaria precisamente o contrário.
Em tudo isto, pelo menos até agora, utilização de armamento proibido só pela coligação anglo-americana, com as bombas de fragmentação (cluster bombs) que ainda irão matar muita gente, civis principalmente, nos próximos tempos.
Certamente ninguém terá saudades do regime de Saddam, mas seria de esperar que as forças de ocupação cumprissem com os seus deveres, bem explícitos nas convenções internacionais, de assegurarem a segurança e a satisfação dos serviços mínimos nas zonas ocupadas. O que temos visto é pelo contrário a mais completa indiferença pela anarquia e pelos saques desenfreados que se desenrolam à sua frente. Residências, ministérios, hospitais (!!!) são objecto de autênticas rapinas, e os únicos cuidados que os rapinantes têm que ter (por vezes nem esse) é, quando passam à frente de forças americanas, poisarem o saque e darem vivas a Bush e aos USA (criando as famosas “multidões” que fizeram alguns articulistas, como José Manuel Fernandes, verter uma lágrima comovida e exporem-se ao ridículo mais completo de as compararem ao 25 de Abril, ou ao derrube de Milosevic). Depois é só voltar a pegar no saque e andar. Ainda se há-de conhecer com maior exactidão a tragédia que se abateu sobre o Museu de Bagdad, um dos mais importantes do mundo e onde estavam salvaguardadas uma grande parte das mais importantes memórias da humanidade, em particular as que dizem respeito ao próprio nascimento da civilização. Como disse a sub-directora do museu, que não pôde conter a comoção e as lágrimas ao ver as salas vazias, apenas com bocados de pedras milenares que teriam pertencido a tesouros da humanidade, bastava um tanque em frente do museu para desencorajar os assaltantes. Mas Bush, Rumsfeld, Cheney e Wolfowitz devem estar convencidos que a escrita, a numeração posicional e o teorema de Pitágoras (conhecido e representado nos bens do museu milénios antes de Pitágoras lhe dar o nome) terão sido inventados algures no Texas.

Afinal eles tinham razão?
Chegados a este ponto, os promotores da guerra, e os seus porta-vozes (bem representados na imprensa portuguesa) exultam de alegria, mas não descuram o seu combate a quem sempre se opôs a esta guerra. Haverá inclusive quem, tendo-se oposto, comece com dúvidas sobre a sua posição: afinal de contas, não morreu assim tanta gente, quase não houve atentados suicidas, e o regime despótico de Saddam foi desta para melhor! Isso não é bom? Guardando uma prudente reserva sobre o número de vítimas civis (é sempre de boa prática esperar por avaliações independentes, e não aceitar de cruz as dos vencedores), é evidente que o desaparecimento de um regime despótico e sem escrúpulos, que à mínima suspeita de deslealdade prendia e/ou matava qualquer cidadão (incluindo familiares próximos dos dirigentes), que provocou duas guerras devastadoras com países vizinhos, que combatia ferozmente as populaçôes curdas e outras dentro das suas fronteiras, que se apropriava de uma parte substancial da riqueza enorme do país para seu benefício pessoal e para a glorificação da pessoa do líder, para além de outras malfeitorias é sempre de saudar. Mas estamos a esquecer-nos de qualquer coisa aqui.
Regimes desses, infelizmente, não são uma raridade no nosso mundo. Vamos declarar-lhes guerra a todos? Ou só aos que não são “nossos amigos”, o que quer que isto queira dizer?
Infelizmente, sendo o mundo o que é, há guerras inevitáveis (justas, chamemos-lhes assim, embora ninguém ainda tenha definido com rigor o conceito). Já falámos da primeira guerra do Golfo, e se ela teve o apoio de uma coligação tão alargada, incluindo dos países árabes vizinhos do Iraque, foi porque se tratou de uma guerra em legítima defesa (neste caso do Koweit, que não tendo meios para o fazer, pediu e obteve um apoio alargado). É claro, como foi glosado abundantemente à época, se a principal riqueza do Koweit fossem batatas, ainda hoje era uma província iraquiana. Mas isso não retira legitimidade à intervenção então feita.
O problema é que esta guerra transcende em muito o Iraque. Ela começou a ser planeada (pelos homens que hoje rodeiam Bush) logo a seguir à guerra do Golfo de 91. A subida de Bush junior ao poder troxe igualmente esses homens para o poder. E aí começaram a trabalhar nela mais a sério, sendo as primeiras afirmações a este respeito feitas logo a seguir à tomada de posse.
Os atentados de 11 de Setembro vieram alterar um pouco as prioridades (no entanto, logo a seguir aos atentados, ainda a conexão à rede de Ben Laden não havia sido estabelecida, começou-se logo a falar do Iraque, que Atta – um dos pilotos suicidas – tinha passado a certa altura pelo Iraque, etc).
Os atentados de 11 de Setembro, com a sua tragédia humana (potenciada pelo aspecto mediático de todo o mundo estar a ver “aquilo” acontecer em directo), e também por representar uma “nova forma de fazer terrorismo”, a uma maior intensidade, comoveram o mundo, e os Estados Unidos gozaram de uma simpatia e de uma compreensão pelo resto do mundo que raramente se terá visto, mesmo de Estados e personalidades que sempre lhes dedicaram uma certa, chamemos-lhe, por baixo, má vontade.
(a propósito disto, que envolve Estados e personalidades muito distintas, e a propósito da “má-vontade” que certos sectores americanos dedicam agora à França pelo simples facto de não ter dito a tudo que sim, já muita gente se esqueceu que foi um jornal francês que colocou na sua primeira página “Hoje somos todos americanos”). A NATO (que, como se sabe, os Estados Unidos só utilizam quando lhes convém) pela primeira vez, e sem ser a pedido do estado ofendido (neste caso, os EUA) colocou-se inteiramente à disposição para o que fosse necessário. A resposta é conhecida: os Estados Unidos recusaram, pois eram capazes de tratar de tudo sozinhos. Este foi o primeiro mau sinal de que a grande potência, pela primeira vez atingida no seu território continental, se queria impôr no lugar a que achava que tinha direito após o fim da situação bipolar, que morrera com o fim do bloco soviético.
Este post já vai mais longo do que eu queria, mas convém não esquecer o seguinte: esta guerra estava decidida há muito tempo. Os argumentos que a justificavam aos olhos da administração americana foram surgindo à medida das necessidades (perigo para os países vizinhos, posse de armas de destruição maciça, ligações à al Qaeda) e foram sucessivamente caindo por falta de provas. Finalmente surgiu o argumento final: a libertação do “bom povo do Iraque” (a expressão é de Bush junior).
Quando me dão um argumento, de preferência provado, é uma coisa. Quando os argumentos vão surgindo da gaveta a ver se algum pega, é outra, e eu começo a desconfiar. Quando se faz chantagem com aliados tradicionais para que caucionem as nossas posições, quando (ao que parece por pressão de Blair) se mete finalmente a questão no sítio certo, a ONU, se aceita uma resolução, a 1441 (que hoje toda a gente esqueceu, mas na sua negociação ficou tacitamente aceite que não haveria automatismos no sentido da guerra), quando se enviam inspectores com prazos irrealistas para descobrirem as armas de destruição maciça, quando eles não as encontram e são depois criticados por isso, quando se convoca a “Cimeira da Paz” nos Açores, e o encarregado da logística (no caso o primeiro-ministro português) assegura que dela não sairá nenhuma declaração de guerra, quando dela sai uma autêntica chantagem sobre o Conselho de Segurança da ONU, com um prazo de 24 horas para subscreverem a guerra ao Iraque (obviamente recusado) os agressores não agiram de boa-fé em todo o processo. Apenas procuraram, sem muita insistência, uma caução para o que já estava decidido há muito. Não conseguiram essa caução, agiram na mesma.
É assim que os impérios actuam. É assim que iremos ter o mundo nos próximos tempos?

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