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O lugar mais perigoso do mundo

2002/05/30

Dois artigos hoje no New York Times sobre o conflito indo-paquistanês à volta de Caxemira (ou sob o pretexto de Caxemira?), um de Salman Rushdie e o outro de William Safire. Rushdie, que conhece bem o terreno e a massa de que são feitas as lideranças locais, (não é ele um dos filhos da meia-noite que dividiu o subcontinente?) mostra-se pessimista, e recorda que as diferentes situações de conflito entre os dois países, tendo Caxemira como pretexto imediato, destinaram-se sobretudo (ou também) a distraír as atenções de problemas políticos e sociais internos. E quanto ao facto de ninguém de bom senso embarcar numa suicida guerra nuclear, lembra que o suicídio dos mártires está na ordem do dia. Musharraf pode não ser feito do material dos mártires, mas em caso de derrota convencional com a India, o caminho ficaria aberto para sectores mais extremistas e pouco dados a esses estados de alma.
Já Safire centra o seu artigo no direito de acção preventiva dentro das fronteiras de outro estado, citando o antigo Secretário de Estado George Schultz dirigindo-se na véspera a uma audiência de diplomatas: "reservamo-nos, no exercício do nosso direito de auto-defesa, o direito de prevenir ameaças terroristas dentro das fronteiras de outros estados – não apenas de perseguição violenta, mas de prevenção violenta" ("hot pursuit" e "hot pre-emption"). Dá como exemplos dessa doutrina, obviamente a intervenção dos Estados Unidos no Afganistão e de Israel nos territórios sob administração da Autoridade Palestina (seria mais correcto dizer territórios que deveriam estar sob administração da AP mas que nunca o estiveram, quer por incapacidade desta, quer porque Israel se encarregou de garantir que tal não fosse possível). Mas no caso de a India tentar fazer o mesmo na Caxemira sob administração paquistanesa surge um pequeno óbice: o Paquistão é uma potência nuclear regional, tal como a India!
O conflito indo-paquistanês é suficientemente sério por si só para que todos nós estejamos preocupados. Devem-se fazer todos os esforços para que a sua resolução seja pacífica, e quer Rushdie quer Safire sugerem algumas medidas que poderão contribuir para a sua resolução, e se necessário a comunidade internacional deve ter parte activa nesse processo (pense-se no dominó: Paquistão começaa a perder, chama o aliado preferencial China; India fica em posição de fraqueza chama o aliado preferencial Rússia; etc., se houver etc.)
Mas também não seria mau que se começasse a pensar que um princípio de auto-defesa que afinal só é legítimo quando quem o pratica tem uma grande superioridade militar sobre aquele que o sofre não parece uma boa base para uma ordem internacional que se quer pacífica e cooperante, e não assente na violência e na submissão.

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