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Memórias – os carrinhos de bordão

2018/09/3

Os carrinhos de bordão eram a minha perdição, numa certa altura da minha infância, sobretudo em Caxito.

De um post no Facebook, em 3 de setembro de 2017.

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A “independência” dos organismos internacionais

2018/01/22

“O economista-chefe do Banco Mundial, Paul Romer, pediu desculpas ao Chile. As subidas e descidas nada tiveram a ver com mudanças reais na política chilena, mas com mudanças nos critérios usados. O facto de essas alterações coincidirem com as mudanças de ciclos políticos no Chile levou Paul Romer a assumir, no “The Wall Street Journal”, que os critérios terão sido “potencialmente contaminados pelas motivações políticas do pessoal do Banco Mundial”. Não é preciso dizer que esta revelação causou grande indignação no Chile e que a Presidente Bachelet, que em março volta a dar lugar a Piñera, exigiu uma investigação profunda ao sucedido.”

 

via Fraude no Banco Mundial: índices da normalização política 

Lumumba e eu

2018/01/18
lumumba

Lumumba após ser preso

 

Patrice Lumumba e eu nunca nos encontrámos.

Não é que na altura estivéssemos muito afastados: ele na então Leopoldville (agora Kinshasa), perto da fronteira com Angola, e eu no Caxito/Mabubas: a umas centenas de quilómetros, por estrada.

Quando eu ouvi falar dele tinha cerca de 10 anos de idade, e pouco depois ele morreria assassinado, num episódio que ainda hoje permanece obscuro, mas em que se sabe que houve a mão de Kasa Vubu, presidente do Congo recém independente, do governo belga de então, ex-potência colonizadora, cujo rei Balduíno aparentemente não havia gostado do discurso frontal de Lumumba na cerimónia de independência, das Nações Unidas e do então secretário –geral, o sueco Dag Hamarksjoeld, que tinham tropas no Congo em princípio para assegurar uma transição pacífica, mantendo a neutralidade, e, inevitavelmente, dos Estados Unidos, através da CIA e do Conselho Nacional de Segurança.

Ah, já me esquecia: espreitando na sombra, mas prontos a surgir à luz do dia, dois personagens sinistros, que iriam trazer ao enredo algumas das piores características da história da África pós-colonial: o golpismo, por um então jovem coronel Mobutu, e o separatismo, pelo líder regional catanguês Mose Tshobe.

Claro que, para além de não conhecer Lumumba, na altura eu não tinha quaisquer ideias políticas. Toda a minha família tendo nascido em Angola (com excepção dos avós, que para lá tinham ido no início do século (o meu avô materno até no final do século XIX, entre o Congo e Angola), sabíamo-nos portugueses porque assim o diziam os documentos, a escola (desde os reizinhos todos desde Afonso Henriques, a geografia do Minho e do Alentejo, os ramais ferroviários, o Entroncamento…), as cerimónias, a rádio, e as pessoas que vinham de Portugal – não escondendo no entanto a superioridade (“brancos de segunda…”).

Acresce que o meu pai, sendo funcionário administrativo, enquanto chefe de posto ou administrador de concelho (ou adjunto) era muitas vezes o (ou um dos) representante do Estado português nesse posto ou concelho onde nos encontrássemos.

Mas mesmo não tendo, como é evidente, quaisquer ideias políticas, tal não quer dizer que não estivesse a par – mais ou menos – do que se passava, em Angola, no Congo, e um pouco pelo mundo.

A principal “fonte de informação” eram, como seria de esperar, as conversas dos mais velhos (por muito que, por vezes, procurassem proteger-nos de preocupações inúteis). Esforço inútil: se não era em casa, era na rua, ou na escola, ou à saída da igreja, ou em qualquer outro lado.

Todos andavam preocupados, porque para além das atoardas de Salazar, toda a gente tinha a sensação – a certeza – de que o que se passava no Congo era apenas uma antecâmara do que se iria passar em Angola.

E havia outras fontes, claro.

A rádio, primeiro que tudo.

Vivemos em muitos postos e concelhos onde só se ligava a electricidade uma ou duas horas por dia (se o motor não estivesse avariado), acho que normalmente entre as 8 e as 10 da noite, para o que fosse necessário.

Pois era a essa hora também que se ouvia rádio (como é evidente, não havia transístores): notícias, um pouco de música, e já está.

Caxito, como ficava próximo da barragem das Mabubas, foi o primeiro local em que tivemos electricidade 24 horas por dia, o que equivale a uma revolução. Claro que, convém não esquecer, estou a falar das notícias “possíveis”, numa colónia, em pleno “Estado Novo”.

Mas havia ainda uma outra fonte: a imprensa escrita.

E aqui há um aspecto curioso. Nos grandes centros, talvez houvesse “comissões de censura” para a imprensa internacional. Nos concelhos, essa tarefa era entregue às administrações (não sei se aos administradores, que as delegavam nos adjuntos, se directamente nestes, sei que normalmente iam parar ao meu pai). Ora o meu pai, ou por não ter pachorra para aquilo, ou por achar que tinha mais que fazer, deixava as revistas lá por casa (Paris Match, Time, O Cruzeiro, Manchete, Life, etc.), até as devolver.

Depois, Caxito encontra.se numa situação muito particular: ao mesmo tempo próximo de Luanda e do norte de Angola (zona de passagem), e com uma população com uma qualificação superior à média, tal como por exemplo a da periferia de Luanda ou Catete –para não fugir às palavras, pessoas que a terminologia colonial designava por “assimilados”. Assimilados, talvez, mas não submissos.

Recordo um episódio, antes ainda de antes de a guerra ter começado em Angola (ou “o terrorismo”, como foi denominada a luta de libertação durante todo o seu período até 1974).

Caxito era famoso pelo seu carnaval. Um carnaval genuíno, popular, em que as populações dos bairros à volta da vila participavam com os seus grupos, as suas danças e as suas músicas (recordo uma, “Cidrália”, que nunca mais ouvi).

Havia um senhor – não costumo citar a cor da pele, mas aqui impõe-se dizer que era negro – que vinha todas as semanas de Luanda na sua motorizada NSU vender lotaria na zona de Caxito, e eventualmente nas redondezas. Recordo um homem simpático e afável, que todas as semanas era esperado, para vender as cautelas e mostrar a lista para se ver se havia algum prémio.

Bom, no último carnaval antes da guerra (portanto terá sido o de 1960), houve uma discussão entre esse senhor e outro senhor – branco, e adianto já que não sei quais os motivos da discussão, nem quem tinha razão – e o cauteleiro acabou atirado para a vala de rega da companhia do açúcar.

Claro que, em si, a queda na vala não representava nenhum risco grave do ponto de vista físico: eu próprio e os meus colegas da escola primária mergulhámos muitas vezes nela, não era preciso saber nadar, todos tínhamos pé.

O factor chave aqui foi a humilhação, e a presença da multidão que festejava o carnaval. Lembremo-nos que tudo isto se passa já após o assassínio de Lumumba, e ainda durante grande tumulto no Congo, em particular no Katanga.

A multidão começa a juntar-se, a protestar, a ameaçar, a dirigir-se para a frente da administração. O meu pai, como responsável da administração do concelho (na ausência do administrador), teve de se desdobrar em diplomata. Não sei como ele fez, mas nós víamos que ele estava evidentemente preocupado: as populações negras estavam indignadas, a população branca (em muito menor número), entre o temeroso e o mostrando já algumas armas, e as únicas “tropas” de que dispunha eram seis ou sete sipaios, alguns dos quais vinham do carnaval, e em última análise nunca se sabia bem de que lado estavam.

É certo que Luanda está só a 60 quilómetros, mas mesmo assim ainda é pelo menos uma hora até algum reforço chegar.

Como digo, não sei qual a táctica utilizada pelo meu pai. À distância, parece-me que optou por falar com os membros mais destacados de ambas as comunidades (isso eu sei que ele conhecia bem – eram conhecimentos que lhe ficavam para a vida toda, e que ele reencontrou mesmo depois da independência), e que da parte destes encontrou a receptividade e a sensatez necessárias para serenar os ânimos, pelo menos em grande parte.

Quando, ao fim da tarde, chegou de Luanda uma pequena força policial, já havia poucas pessoas pelas ruas.

Mas o que eu queria realçar com este episódio era o seguinte: o que eu recordo daqueles tempos é a sensação de que qualquer fagulha acenderia a fogueira – tal como viria a acontecer no ano seguinte, em janeiro na baixa do Cassange, em Luanda a 4 de fevereiro, e a 15 de março no norte de Angola, também em alguns postos do Caxito – como em Quicabo, onde nós estivemos a almoçar, na casa do chefe de posto, Melo, uma semana antes.

Não deveria meter num texto que começa com uma tragédia – e da qual o Congo ainda não se libertou – episódios semi-humorísticos. Mas como está ligado – e não esqueçamos que toda a tragédia tem – normalmente – duas faces, neste caso, à tragédia secular dos congoleses, não podemos deixar de esquecer os belgas que lá viviam, e que não eram certamente todos exploradores e saqueadores.

Com a independência do Congo, Angola, e em particular, Luanda, tornou-se o ponto preferencial de saída dos belgas. Sim, “refugiados”, era o nome por que eram conhecidos em Luanda os belgas que eram vistos a circular, de carro ou a pé, e organizaram-se formas de os ajudar (os que precisavam).

Ora, acontece que por aquela altura, eu e o meu irmão Carlos eramos assim para o louro, tal como o meu pai (a minha irmã não, saiu morena como a minha mãe). Andávamos nós por Luanda, com a minha mãe, às compras, quando um grupo de senhoras, certamente com as melhores intenções, literalmente nos ataca: “Coitadinhos dos refugiados, precisam de ajuda, diga do que precisa?”

Foi difícil à minha mãe convencer as boas almas de que não eramos refugiados, de que graças a deus não precisávamos de nada.

E quanto a Lumumba?

Só mais tarde, claro, compreendi, a sua estatura, a ignomínia em que estiveram envolvidos os suspeitos do costume na consumação da sua tragédia.

Se ele tem sobrevivido, a história do Congo (e dos países vizinhos) teria sido diferente?

Nunca o saberemos, como é evidente.

Sabemos quem foram os vencedores (Mobutu foi um deles), e só as leis da vida os afastaram.

Jornalistas e professores

2017/12/17

“No princípio do século XX, a miséria espiritual da vida dos estudantes foi um tema filosófico que ganhou algum relevo: no princípio do século XXI é a miséria da vida espiritual dos professores que se tornou relevante. Dir-se-ia que os professores integraram completamente um hábito muito próprio da escola, essa instituição que passa muito tempo a falar sobre si própria. Se recuarmos, talvez encontremos uma justificação para esta má relação entre jornalistas e professores, que é mesmo uma inimizade se falarmos da relação entre o jornalismo e a universidade. Neste caso, trata-se de uma velha inimizade com uma história respeitável. Um eminente universitário italiano explicou-a em termos muito parciais, até um pouco arrogantes e demasiado marcados por uma pretensão de auto-legitimação: o discurso do jornalista situa-se na lógica da opinião; o poder dos professores, pelo contrário, legitima-se em termos de saber, isto é, o contrário da opinião. “

A Estátua de Sal

(António Guerreiro, in Público, 15/12/2017)

Guerreiro António Guerreiro

A profissão de professor encontra-se hoje tão deslegitimada e degradada como a profissão de jornalista.


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A sopa envenenada

2017/12/17

Notas ao artigo de JPP.

1) A menção ao facto – penso que do conhecimento geral – de a associação das doenças raríssimas ter “obra reconhecida como meritória (podia não ser)”.

Tanto quanto julgo saber, quer a nível nacional, quer internacional.

2) “Nalguns casos pode ter havido crimes, noutros comportamentos eticamente reprováveis.”

E não se pode, nem deve, como é hábito, meter tudo no mesmo saco.

3) “Uma reportagem da TVI denunciou o caso, os abusos e as cumplicidades. Fê-lo com equilíbrio e com matéria probatória sólida, incluindo depoimentos, emails e alguns filmes, uns feitos às escondidas, outros às claras.”

Nem sempre com equilíbrio, antes pelo contrário.
Se é verdade que em matérias não relevantes para o assunto principal em análise – mas que ficam na memória dos espectadores – como quem pertenceu ou viria a pertencer a cargos semi-simbólicos (assembleia geral, etc.), ou quem aparece em fotografias com a presidente da associação (Marcelo, Maria Cavaco Silva, etc.) – nas sucessivas repetições e entrevistas a que a reportagem deu aso apenas aparecem referências a personalidades ligadas ao PS.

Concordo na generalidade com as restantes considerações, em particular com a que leva à conclusão, e que ainda não tinha visto realçada:

“Acresce que o facto de a principal culpada dos desmandos ser uma mulher não é irrelevante. Pior ainda é uma mulher “insuportável”, arrogante, atractiva e muito senhora de si para parecer um perigo para os homens e para as mulheres que no fundo temem as mulheres deste tipo, ou pura e simplesmente temem as mulheres como se fossem amazonas. O sexismo facilitou e muito o incêndio dos comentários e há uma espécie de exorcismo contra a sedução implícita. Se não querem ouvir as sereias, coloquem cera nos ouvidos e não fiquem babados a ver a televisão e a vociferar de inveja, de todas as invejas.”

A Estátua de Sal

(José Pacheco Pereira, in Público, 16/12/2017)

JPP Pacheco Pereira

Este artigo não é sobre as “raríssimas”; ou seja, sobre o caso da associação com esse nome. Este artigo é sobre as vulgaríssimas; ou seja, sobre aquilo que este caso revela sobre a nossa sociedade, sobre os nossos comportamentos, sobre o modo como os media e os seus consumidores estão impregnados da sopa envenenada que é hoje a chamada “opinião pública”. O caso em si é fácil de descrever: numa instituição de solidariedade social, com obra reconhecida como meritória (podia não ser), a sua responsável (e certamente vários dos seus colaboradores, incluindo os “whistleblowers”, como é costume) abusou da sua situação para obter vantagens materiais, viver à custa dos dinheiros “solidários”, ter luxos, e empregar a família e amigos. À sua volta, uma rede de cumplicidades, envolvendo o poder político, e membros do Governo ou ajudaram a causa, sem cuidados…

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Catalunha, mais uma vez cercada

2017/11/8

Checkpoint perto de Barcelona, foto de Robert Capa, 1936

Sobre a Catalunha, muito se tem escrito e falado nestes últimos tempos.

Sobretudo, sobre a forma desastrada como as suas lideranças conduziram um processo que já de si se antevia difícil, não apenas não acautelando as bases em que sustentavam as suas reivindicações (históricas, culturais, jurídicas e políticas), como o necessário apoio, não apenas da população catalã, como de eventuais franjas da população de outras regiões de Espanha (que a isso estavam disponíveis, como se viu), e da Europa.

Sendo essas reivindicações reais, e estando presentes em grande parte da população, não foi acautelado o facto de nem toda a população concordar com elas. Ora, por muito justo que um processo possa ser, nunca pode avançar se uma parte da população achar que é feito contra ela.

Do mesmo modo, subestimaram a força do centralismo de Madrid, os resquícios de franquismo ainda existentes na sociedade espanhola (em todas as áreas), e sobrestimaram a independência dos media, quer a nível interno, quer internacional.

Os centralistas sabem (ou deviam saber) que um problema não desaparece com a repressão que se seguiu ao referendo de 1 de outubro, nem com o rebuçado das eleições de dezembro. O problema catalão existe há muito tempo, e com a actual constituição espanhola, vai continuar. No que respeita aos media, tem sido vergonhosa a atitude de subserviência, sendo o caso mais escandaloso o do “El País“, tido como um dos melhores jornais do mundo, que até dispensou colaboradores que se afastavam ligeiramente da linha editorial (e que, no entanto, não eram favoráveis à independência da Catalunha, como John Carlin).

Finalmente, não contaram com o duplo padrão das instituições internacionais, que actuam em casos similares de forma diferente, conforme a conveniência do momento ou a estratégia geopolítica dominante. Neste, como em muitos outros casos, não se trata de razão ou de legalidade, mas da simples e antiga lei do mais forte.

A minha posição nesta matéria já a exprimi várias vezes:

– ressalvando sempre que compete ao povo catalão decidir o seu destino, livre de impedimentos e de pressões externas, no respeito pela autonomia consagrada pelo direito internacional,

– não sou favorável à divisão das grandes unidades (nacionais, Estatais, confederais, etc.), em micro ou médios Estados, a não ser em condições muito excepcionais, sobretudo quando já existem instituições comuns, em particular de serviços (mas igualmente as tradicionais ligadas à soberania), que facilitam a integração no mundo globalizado actual.

Tenho perfeita consciência de que, numa primeira análise, esta perspectiva pode parecer “economicista“, sobrepondo os “custos de contexto” aos outros valores mais elevados, como a cultura e a história de um povo.

Permitam-me discordar.

Não estou a propor que se esqueçam aqueles valores, que também considero mais elevados, e que deverão ser preservados. Aliás, acho que a luta por eles deve continuar (como já disse atrás, deve ser preciso mudar a constituição espanhola, mas não me compete dizer a qem quer que seja o que deve ser feito, estou apenas a dar a minha opinião). Acho apenas que, numa nova atmosfera, numa Catalunha com os seus direitos assegurados e defendidos, e integrada num espaço maior (espaço esse, que, como os últimos tempos mostraram, precisa igualmente de uma nova atmosfera, mais limpa), só tem a beneficiar.

Quanto aos media em Portugal, tem-se assistido um pouco de tudo.

Desde artigos equilibrados (quer a favor, quer contra), outros simplesmente dizendo aquilo que acham que as pessoas querem ler/ouvir, as piadas brejeiras, etc,

Os mais execráveis são, obviamente, os que apenas vão buscar os pontos mais infelizes (para dizer o mínimo), de quem se quer atacar, fazendo passar esses pontos pela totalidade do discurso, reduzindo de uma penada este a uma espécie de linguajar nazi.

Foi o caso, ao que parece, das declarações de um dirigente catalão, que falou em diferenças e semelhanças genéticas entre catalães e outros povos. Claro que devia ter sido desautorizado, ou terem-lhe pedido explicações, mas quem anda nestas coisas deve pensar que abrir brechas quando se está a meio de uma luta, e em desvantagem, não deve ser boa ideia. Seja como for, fazer passar essas declarações como o essencial da posição das lideranças catalãs, é fazer política rasteira. Aliás, por aí entrou igualmente uma deputada catalã do Ciudadanos (num discurso de resto muito bom).

Entre os textos equilibrados, está este de Maria de Lurdes Rodrigues no Diário de Notícias, a 1 de Novembro, de que destaco o seu ponto 6. (e final), apesar do pessimismo dos dois últimos períodos – mesmo na melhor das hipóteses…

6 Não é por ser ilegal que a causa da independência da Catalunha não é justa. A independência dos EUA, como muitas outras independências do passado, foi ilegal e justa. Por isso, a resposta de Madrid às reivindicações separatistas da Catalunha é burocrática e ineficaz. Faltou capacidade para negociar com o objetivo de transformar reivindicações independentistas em ganhos de autonomia. Faltou capacidade para canalizar melhor reivindicações identitárias, talvez legítimas. Mas também não é por ser, porventura, legítima que a causa da Catalunha é justa. A afirmação nacionalista catalã poderá dar resposta a reivindicações legítimas de reconhecimento identitário, mas não creio que contribua para construir um mundo mais decente. Na melhor das hipóteses contribuirá para mais fechamento e menos pluralismo. Na pior das hipóteses abrirá caminho a um combate entre identidades assassinas, para recuperar a boa mas assustadora expressão de Amin Maalouf.

Mais recentemente, José Pacheco Pereira veio, no blog da revista Sábado, onde escreve, dizer várias coisas (entre elas, algumas que eu venho dizendo no Facebook, mas que compreensivelmente, não têm o mesmo alcance), que acho importante repetir aqui:

A Catalunha independente (1) 
Pode não restar quase nada da independência catalã (mas resta), mas o que se viu na Espanha e na Europa isso fica certamente e deveria preocupar todos os democratas. Em Espanha veio ao de cima um “espanholismo” de claras raízes franquistas e falangistas, como aliás sempre foi. Um partido como o socialista vai mais uma vez pagar caro o papel que teve, e que de há muito sempre tem tido na recente vida política espanhola. E o Podemos, idem. Se alguém ganhar uma vitória de Pirro na Catalunha, será sempre o PP. 

A Catalunha independente (2) 
Mas pior ainda, porque mostra uma fragilidade que mesmo a mim, que sou demasiado céptico, me espantou, foi ver o comportamento dos órgãos de comunicação espanhóis, e não me refiro apenas à estatal TVE – que como todos os órgãos do Estado quando chega aos momentos decisivos se comportam como a voz do dono –, mas de jornais como o El País. Já fiz esta comparação e repito -a: pareciam a Fox News, com o seu tom de comício permanente, com o silenciamento de tudo o que podia causar problemas ao discurso oficial, com mesas de debate sem qualquer pluralismo do género “mata e esfola”, absorvendo como sua a linguagem do poder.
A Catalunha independente (3) 

E o que é que se está a passar na Europa, cada vez mais autoritária, mais próxima dos Governos do que dos povos, com um discurso cego para o problema de que, ache-se bem ou não, uma parte importante da sociedade catalã quer a independência, num processo que tem sido pacífico e com suficiente legitimidade democrática para obrigar a ter outra moderação. Foi a Europa que como um mastim se voltou contra os gregos que agora se volta com a mesma intransigência contra os catalães. Não me engano certamente se considerar que, mesmo no contexto do Brexit, muita gente está a pressionar o Reino Unido para não repetir o voto pela independência da Escócia. 

Elogio de Constança

2017/10/21

Para que não se esqueçam as pequenas ignomínias, as encomendas, e todos aqueles que agora se babam com as imagens de exibição despudorada da dor alheia, daqueles que sofreram mas sobreviveram às tragédias.
Não havia já um consenso de que essa dor devia ser respeitada, que só nos tablóides se esperaria vê-la?

Se fosse o Correio da Manhã ou a Judite de Sousa a publicar as fotos destes cidadãos, em sofrimento, muita gente criticaria, e bem, por se estar a mostrar ao mundo aquilo que de mais íntimo existe numa pessoa, aquilo que lhe vem do mais fundo do seu ser, e que com certeza apenas partilhariam com os seus mais próximos (e por vezes nem com estes).

Mas, pelos vistos, para o cidadão Marcelo, a bússola moral é diferente. E o nacional-bacoquismo até faz com que a maior parte das notícias em que estas fotos aparecem sejam intituladas de “as fotos de Marcelo que apareceram na Time“. Se fosse no Daily Mirror, seria diferente?

VAI E VEM

Constança Urbano de Sousa foi arrasada pela direita, por jornalistas e comentadores, acusada de incompetência e de fragilidade quando perante a tragédia de Pedrógão chorou no terreno e se emocionou na comissão parlamentar ao dizer  a deputados agressivos e mal educados, que aquele dia de Junho tinha sido o pior da sua vida.

A Constança não foi permitido chorar nem  estar triste porque isso era fragilidade. Só nos machos as lágrimas e a emoção são qualidades. Numa mulher são defeito. Mas, contradição reveladora: os mesmos que queriam Constança durona e fria queriam Costa chorão e meiguinho. Esquecem-se, esses, que nem sempre quem chora é quem mais sofre e sente o sofrimento próprio e alheio. E que há quem chore de alegria.

Constança não possuía os truques que o discurso político consagrou, não falava por soundbites e parecia sempre humilde e compreensiva mesmo quando a criticavam. Podia lá ser, uma  mulher com…

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