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Catalunha, mais uma vez cercada

2017/11/8

Checkpoint perto de Barcelona, foto de Robert Capa, 1936

Sobre a Catalunha, muito se tem escrito e falado nestes últimos tempos.

Sobretudo, sobre a forma desastrada como as suas lideranças conduziram um processo que já de si se antevia difícil, não apenas não acautelando as bases em que sustentavam as suas reivindicações (históricas, culturais, jurídicas e políticas), como o necessário apoio, não apenas da população catalã, como de eventuais franjas da população de outras regiões de Espanha (que a isso estavam disponíveis, como se viu), e da Europa.

Sendo essas reivindicações reais, e estando presentes em grande parte da população, não foi acautelado o facto de nem toda a população concordar com elas. Ora, por muito justo que um processo possa ser, nunca pode avançar se uma parte da população achar que é feito contra ela.

Do mesmo modo, subestimaram a força do centralismo de Madrid, os resquícios de franquismo ainda existentes na sociedade espanhola (em todas as áreas), e sobrestimaram a independência dos media, quer a nível interno, quer internacional.

Os centralistas sabem (ou deviam saber) que um problema não desaparece com a repressão que se seguiu ao referendo de 1 de outubro, nem com o rebuçado das eleições de dezembro. O problema catalão existe há muito tempo, e com a actual constituição espanhola, vai continuar. No que respeita aos media, tem sido vergonhosa a atitude de subserviência, sendo o caso mais escandaloso o do “El País“, tido como um dos melhores jornais do mundo, que até dispensou colaboradores que se afastavam ligeiramente da linha editorial (e que, no entanto, não eram favoráveis à independência da Catalunha, como John Carlin).

Finalmente, não contaram com o duplo padrão das instituições internacionais, que actuam em casos similares de forma diferente, conforme a conveniência do momento ou a estratégia geopolítica dominante. Neste, como em muitos outros casos, não se trata de razão ou de legalidade, mas da simples e antiga lei do mais forte.

A minha posição nesta matéria já a exprimi várias vezes:

– ressalvando sempre que compete ao povo catalão decidir o seu destino, livre de impedimentos e de pressões externas, no respeito pela autonomia consagrada pelo direito internacional,

– não sou favorável à divisão das grandes unidades (nacionais, Estatais, confederais, etc.), em micro ou médios Estados, a não ser em condições muito excepcionais, sobretudo quando já existem instituições comuns, em particular de serviços (mas igualmente as tradicionais ligadas à soberania), que facilitam a integração no mundo globalizado actual.

Tenho perfeita consciência de que, numa primeira análise, esta perspectiva pode parecer “economicista“, sobrepondo os “custos de contexto” aos outros valores mais elevados, como a cultura e a história de um povo.

Permitam-me discordar.

Não estou a propor que se esqueçam aqueles valores, que também considero mais elevados, e que deverão ser preservados. Aliás, acho que a luta por eles deve continuar (como já disse atrás, deve ser preciso mudar a constituição espanhola, mas não me compete dizer a qem quer que seja o que deve ser feito, estou apenas a dar a minha opinião). Acho apenas que, numa nova atmosfera, numa Catalunha com os seus direitos assegurados e defendidos, e integrada num espaço maior (espaço esse, que, como os últimos tempos mostraram, precisa igualmente de uma nova atmosfera, mais limpa), só tem a beneficiar.

Quanto aos media em Portugal, tem-se assistido um pouco de tudo.

Desde artigos equilibrados (quer a favor, quer contra), outros simplesmente dizendo aquilo que acham que as pessoas querem ler/ouvir, as piadas brejeiras, etc,

Os mais execráveis são, obviamente, os que apenas vão buscar os pontos mais infelizes (para dizer o mínimo), de quem se quer atacar, fazendo passar esses pontos pela totalidade do discurso, reduzindo de uma penada este a uma espécie de linguajar nazi.

Foi o caso, ao que parece, das declarações de um dirigente catalão, que falou em diferenças e semelhanças genéticas entre catalães e outros povos. Claro que devia ter sido desautorizado, ou terem-lhe pedido explicações, mas quem anda nestas coisas deve pensar que abrir brechas quando se está a meio de uma luta, e em desvantagem, não deve ser boa ideia. Seja como for, fazer passar essas declarações como o essencial da posição das lideranças catalãs, é fazer política rasteira. Aliás, por aí entrou igualmente uma deputada catalã do Ciudadanos (num discurso de resto muito bom).

Entre os textos equilibrados, está este de Maria de Lurdes Rodrigues no Diário de Notícias, a 1 de Novembro, de que destaco o seu ponto 6. (e final), apesar do pessimismo dos dois últimos períodos – mesmo na melhor das hipóteses…

6 Não é por ser ilegal que a causa da independência da Catalunha não é justa. A independência dos EUA, como muitas outras independências do passado, foi ilegal e justa. Por isso, a resposta de Madrid às reivindicações separatistas da Catalunha é burocrática e ineficaz. Faltou capacidade para negociar com o objetivo de transformar reivindicações independentistas em ganhos de autonomia. Faltou capacidade para canalizar melhor reivindicações identitárias, talvez legítimas. Mas também não é por ser, porventura, legítima que a causa da Catalunha é justa. A afirmação nacionalista catalã poderá dar resposta a reivindicações legítimas de reconhecimento identitário, mas não creio que contribua para construir um mundo mais decente. Na melhor das hipóteses contribuirá para mais fechamento e menos pluralismo. Na pior das hipóteses abrirá caminho a um combate entre identidades assassinas, para recuperar a boa mas assustadora expressão de Amin Maalouf.

Mais recentemente, José Pacheco Pereira veio, no blog da revista Sábado, onde escreve, dizer várias coisas (entre elas, algumas que eu venho dizendo no Facebook, mas que compreensivelmente, não têm o mesmo alcance), que acho importante repetir aqui:

A Catalunha independente (1) 
Pode não restar quase nada da independência catalã (mas resta), mas o que se viu na Espanha e na Europa isso fica certamente e deveria preocupar todos os democratas. Em Espanha veio ao de cima um “espanholismo” de claras raízes franquistas e falangistas, como aliás sempre foi. Um partido como o socialista vai mais uma vez pagar caro o papel que teve, e que de há muito sempre tem tido na recente vida política espanhola. E o Podemos, idem. Se alguém ganhar uma vitória de Pirro na Catalunha, será sempre o PP. 

A Catalunha independente (2) 
Mas pior ainda, porque mostra uma fragilidade que mesmo a mim, que sou demasiado céptico, me espantou, foi ver o comportamento dos órgãos de comunicação espanhóis, e não me refiro apenas à estatal TVE – que como todos os órgãos do Estado quando chega aos momentos decisivos se comportam como a voz do dono –, mas de jornais como o El País. Já fiz esta comparação e repito -a: pareciam a Fox News, com o seu tom de comício permanente, com o silenciamento de tudo o que podia causar problemas ao discurso oficial, com mesas de debate sem qualquer pluralismo do género “mata e esfola”, absorvendo como sua a linguagem do poder.
A Catalunha independente (3) 

E o que é que se está a passar na Europa, cada vez mais autoritária, mais próxima dos Governos do que dos povos, com um discurso cego para o problema de que, ache-se bem ou não, uma parte importante da sociedade catalã quer a independência, num processo que tem sido pacífico e com suficiente legitimidade democrática para obrigar a ter outra moderação. Foi a Europa que como um mastim se voltou contra os gregos que agora se volta com a mesma intransigência contra os catalães. Não me engano certamente se considerar que, mesmo no contexto do Brexit, muita gente está a pressionar o Reino Unido para não repetir o voto pela independência da Escócia. 

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Elogio de Constança

2017/10/21

Para que não se esqueçam as pequenas ignomínias, as encomendas, e todos aqueles que agora se babam com as imagens de exibição despudorada da dor alheia, daqueles que sofreram mas sobreviveram às tragédias.
Não havia já um consenso de que essa dor devia ser respeitada, que só nos tablóides se esperaria vê-la?

Se fosse o Correio da Manhã ou a Judite de Sousa a publicar as fotos destes cidadãos, em sofrimento, muita gente criticaria, e bem, por se estar a mostrar ao mundo aquilo que de mais íntimo existe numa pessoa, aquilo que lhe vem do mais fundo do seu ser, e que com certeza apenas partilhariam com os seus mais próximos (e por vezes nem com estes).

Mas, pelos vistos, para o cidadão Marcelo, a bússola moral é diferente. E o nacional-bacoquismo até faz com que a maior parte das notícias em que estas fotos aparecem sejam intituladas de “as fotos de Marcelo que apareceram na Time“. Se fosse no Daily Mirror, seria diferente?

VAI E VEM

Constança Urbano de Sousa foi arrasada pela direita, por jornalistas e comentadores, acusada de incompetência e de fragilidade quando perante a tragédia de Pedrógão chorou no terreno e se emocionou na comissão parlamentar ao dizer  a deputados agressivos e mal educados, que aquele dia de Junho tinha sido o pior da sua vida.

A Constança não foi permitido chorar nem  estar triste porque isso era fragilidade. Só nos machos as lágrimas e a emoção são qualidades. Numa mulher são defeito. Mas, contradição reveladora: os mesmos que queriam Constança durona e fria queriam Costa chorão e meiguinho. Esquecem-se, esses, que nem sempre quem chora é quem mais sofre e sente o sofrimento próprio e alheio. E que há quem chore de alegria.

Constança não possuía os truques que o discurso político consagrou, não falava por soundbites e parecia sempre humilde e compreensiva mesmo quando a criticavam. Podia lá ser, uma  mulher com…

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Bom dia, paraíso! (recordando Nuno Brederode Santos)

2017/08/29
De vez em quando, no Facebook, Joana Lopes cumpre a tarefa altamente meritória de publicar/recordar algumas crónicas do saudoso Nuno Brederode Santos, através de links ao seu blog Entre as brumas da memória. Com a devida vénia e menção, sempre que possível procederei ao seu “roubo”, dado que embora não tenha pertencido ao seu círculo de amigos, pertenci e pertenço ao círculo certamente muito mais alargado dos que o consideram (não vou entrar nas futebolísticas “o maior”, etc.) um grande cronista e observador da vida e da sociedade portuguesa.
Destaco apenas as primeiras linhas de Brederode, como aperitivo:
Não é de hoje nem de ontem que os sexagenários se refugiam, no seu soturno convívio, na cansada graçola de que, daí para a frente, o seu destino é perderem a identidade, em caso de atropelamento. Tenhamos sido o mais desenvolto e transpirado na estiva dos trabalhadores do porto de Lisboa, ou o melhor professor de Filosofia dos liceus deste país, os jornais dirão “sexagenário mortalmente atropelado na Avenida da Índia.
Segue-se o post de Entre as brumas da memória.
Um grupo de amigos de Nuno Brederode Santos continua a recordá-lo regularmente. Hoje faço-o deixando aqui mais uma das suas belíssimas crónicas, neste caso publicada no Diário de Notícias de 12.10.2008.
«Não é de hoje nem de ontem que os sexagenários se refugiam, no seu soturno convívio, na cansada graçola de que, daí para a frente, o seu destino é perderem a identidade, em caso de atropelamento. Tenhamos sido o mais desenvolto e transpirado na estiva dos trabalhadores do porto de Lisboa, ou o melhor professor de Filosofia dos liceus deste país, os jornais dirão “sexagenário mortalmente atropelado na Avenida da Índia”. Mas o que eles calam – entre várias outras coisas que fazem muitíssimo bem em calar – é que a idade lhes rouba também o nocturno e o onírico. Esse mundo que, mesmo fugido ao território da vontade, nos alça em deuses fazedores, criadores do que ninguém controla ou condiciona. De tal modo que tem de ser a imaginação vigil a preencher esse vazio. Não vou por isso dizer que sonhei, mas, mais humilde e honestamente imaginei, o que se segue – reivindicando contudo o mesmíssimo estatuto de inimputabilidade do sonho, o que nem sequer Freud questionou.
. Aconteceu então que acordei com aquela antiquíssima vontade de tomar café. Lavei-me (mas não muito, porque a água deixou de correr na pendência do sacramento), vesti-me (mas não muito, porque do último fato já só me restavam as calças) e desci ao jardim público. Bebi no quiosque meio café aguado por quinze cêntimos e fui sentar-me no meu banco habitual, munido de um cartuchinho de papel pardo com os salvados do milho que compro ao mês. Sentei-me e, enquanto os pombos afluíam de todos os lados, pus-me a pensar, prazenteiro, na extraordinária fortuna que a Fortuna reservou à minha geração. Talvez não tenhamos sido melhores do que as outras. Mas, que raio!, investimos nas incertezas (sem qualquer pulsão de jogadores de casino); suámos brio e privámo-nos de muitos dos deleites sem alma que o quotidiano oferecia ao preço da uva mijona; e alguns – tantas vezes os melhores de entre nós – deram o sangue. Tudo isto porque – fôssemos da esquerda católica, ou da laica, ou comunistas, ou libertários – tínhamos o crânio povoado pelos fantasmas difusos, mas estimáveis, da liberdade, da igualdade, da fraternidade, do fim da exploração do homem pelo homem, das mãos dadas sem olhar a quem, do amor como irmão gémeo da razão – enfim, da vida como festa a ser fruída.
. Estava eu nisto quando, da minha esquerda, oiço uma voz: “Como está? Já não se lembra de mim? Sou o Varela, o sem-abrigo que, na Rua 4 de Infantaria, dormia e tomava conta, durante a noite, do Citroën Dyane do seu amigo Luís…” “Ó sr. Varela, está bom?”, tropecei eu, que o não reconhecera. Já o Varela, que trazia um pacotinho igual ao meu, deitava alpista aos pombos, quando me tocaram o braço direito. Era um senhor andrajoso e afável, sobraçando outro magro pacote de milho, a perguntar se podia sentar-se do outro lado do banco. Que sim, claro, entaramelei eu – e ele sentou-se. E atirou-me: “Posso-me apresentar? Eu sou o Américo. Tive mais cortiça que ninguém e na companhia dos petróleos nada se fazia sem o meu consentimento. Mas isso foram outros tempos…” “Ah”, disse eu, no esbugalho de olhos que as pálpebras ainda aguentam, “muito gosto”…
. E então conversámos os três, distribuindo, com a parcimónia dos tempos, o milho pelos pombos, que já nos trepavam pelas calças. Falámos da vida, do destino e da cidade, de vista cansada e hemorróidas, de flores, pinguins ameaçados e economias emergentes. Depois, por sugestão do Varela, cada qual torceu o papo ao seu pombo e lá fomos – naquela ternura inconfessada e a fingir frieza com que o Claude Rains tomou o braço do Humphrey Bogart, a fechar o Casablanca – até ao meu quintal, para uma cabidela alternativa de que só o Américo sabia a receita.
. Foi bom, foi solto, distendido, irresponsável. Os amanhãs não cantaram, mas os ontens não pesaram. No fim, talvez o Américo tenha contido uma lágrima pelo charuto perdido, o Varela pelo charro e eu pelo cigarro, mas não mais do que isso.
. E eu dei comigo a pensar, mas sem gozo nem rancor: como é possível que o empenho generoso de tantos tenha falhado, tão dolorosamente e durante tanto tempo, para agora, em menos de duas décadas, a pura inépcia de um bando mundial de yuppies, que restauraram o blazer (mas também a peúga branca) e cuja cabecinha jamais foi visitada por um qualquer conhecimento que a aritmética não possa exprimir, vir entregar-nos, de bandeja, a liberdade, a igualdade, a fraternidade, o fim da exploração, as mãos dadas sem olhar a quem… etc. A propriedade, não a tendo Proudhon abolido, exauriu-se e, com isso, a igualdade e a fraternidade instalaram-se, de seu natural. A liberdade acabou feita: talvez pelo desinteresse, mas aí está. Exploração, não tem como nem para quê. E eis que a vida virou festa a ser fruída. (Ainda que um tanto à custa dos pombos.) Qual quê! Nem Criação nem Big Bang. Nem Deus nem Darwin. Viva a escola de Chicago!»

Uma janela com vista (para o golpe)

2017/08/11

Nota prévia: Este texto foi escrito a pedido do meu amigo Nicolau Santos, director-adjunto do jornal Expresso, para a edição a assinalar os 40 anos do golpe de 27 de maio de 1977, em Angola. Como eu me encontrava num dos locais que foi atacado (e tomado) naquele dia, o Nicolau achou que seria interessante uma perspectiva diferente.

No entanto, por imperativos de espaço, compreensíveis na gestão que os media têm de fazer, no Expresso apenas saiu uma parte da experiência e do enquadramento que eu quis relatar.

AF Carranca

Uma janela com vista (para o golpe)

brdmNão sou de me levantar de madrugada para ir à casa de banho, mas naquele dia 27 de maio de 1977, talvez pelo barulho dos carros lá fora, talvez por demasiada excitação na cela colectiva onde me encontrava, no primeiro andar da cadeia de S. Paulo, em Luanda, lá estava eu.

Só depois percebi – a excitação e o barulho. Espreitando pela janela – de onde normalmente víamos o que se passava no bairro de S. Paulo, que quase rodeava a cadeia – vi uns quantos BRDM (carros de combate soviéticos, semelhantes aos Panhard utilizados pelo exército português) às voltas à cadeia, e também tropas a pé e viaturas militares ligeiras, assim como muitos populares a gritar palavras de ordem. Claro que não era só eu que estava à janela, quando lá cheguei já quase todos os lugares bons estavam ocupados.

Para já vou deixar os BRDM às voltas e dar algum enquadramento à minha presença naquele local, naquele dia (aliás, muitos dias mais, antes, e sobretudo depois).

Eu, e outros companheiros encontrávamo-nos presos em S. Paulo sob a acusação de fazermos parte de uma organização clandestina, a OCA – Organização Comunista de Angola. Digo “sob a acusação” porque uns pertenciam de facto à OCA (era o meu caso, e de outros e outras), mas também outros não pertenciam, tendo sido apanhados na rede de malha fina que as polícias normalmente usam nestes casos.

Eu, em particular, tinha sido preso a 23 de dezembro de 1976 (ver post Há 40 anos), e depois do período de interrogatórios mais intensos, em que estivera sempre em celas individuais, passara para aquela cela colectiva, inicialmente com umas poucas dezenas de presos (haveria de passar por outras, mas isso já não tem a ver com esta estória).

Nessa altura, na cadeia havia uma miscelânea de presos por vários motivos, tanto presos políticos (FNLA, UNITA, Revolta Activa, OCA,…), como económicos (ENPA – Empresa Publica de Abastecimentos, Diamang,) e outros de delito comum (e nestes, desde simples pilha galinhas até homicidas confessos), para não falar nos célebres mercenários capturados na ofensiva da FNLA a norte de Luanda (que contara com o apoio de ex-comandos portugueses e de tropas zairenses) e travados perto do Caxito /Porto Quipiri/Kifangondo, para além de presos à ordem do ANC (da África do Sul) e da SWAPO (da Namíbia). Havia ainda pelo menos um oposicionista zairense, e o seu assistente e homem de mão. E também um piloto de longo curso angolano, mas com cidadania zairense, que não se sabia muito bem como tinha ido ali parar, e um ex-militar português de patente superior. Havia presos “por associação”, quer porque fossem da família (irmãos, primos, cônjuges ou mesmo filhos), amigos ou colegas de trabalho. Isto, é evidente, baseando-me no que cada um contava, não me estou a pronunciar sobre a o fundamento das acusações. Já deu para perceber que – e falo por mim – a grande maioria não tinha processo no sentido em que tal é entendido num Estado de Direito, começando por um mandato de detenção com as acusações ou suspeitas, etc. Advogados então nem falar, muito menos comissões de direitos humanos, era coisa que, naquela altura, não havia. Eu entrei sem ver um papel com as acusações, e saí dois anos e sete meses depois sem mandato de soltura.

Para além dos motivos da prisão, havia evidentemente uma grande variedade de nacionalidades. A maioria eram angolanos, claro, seguidos, a grande distância, pelos portugueses. Proporcionalmente, estes tinham maior peso entre os “económicos”, sobretudo – mas não só – os relacionados com diamantes. Seguiam-se os zairenses – embora aqui possa haver alguma confusão, porque muitos eram de facto angolanos, ou descendentes, regressados do Zaire, que eram assim tratados por apenas falarem francês, além do kikongo. Os poucos sul-africanos e namibianos eram, como disse, presos à ordem do ANC e da SWAPO, e os mercenários eram americanos, britânicos e um irlandês. Entre estes avultava o argentino-americano Grillo, o mais espertalhaço de todos, e que, como falante de castelhano, se entendia com toda a gente.

No meio deste caldo de cultura, andavam os guardas, mal preparados, dotados de um poder que não sabiam exercer e facilmente subornáveis por quem tinha hipóteses de receber de fora qualquer coisa de tentador. Tal levava à criação de castas, entre os que podiam circular com maior ou menor facilidade, e fora de horas, fora das celas e os que ficavam confinados a estas, só saindo quando todos os outros saiam para apanhar um bocado de sol.

Era portanto um microcosmo, já nessa altura sobre lotado (haveria de ficar muito mais), com as suas hierarquias e relações de poder – a qualquer momento a pender para a violência – a todos os níveis, sem qualquer hipótese de negociação. E não me refiro apenas às “naturais” entre polícias/guardas e presos, mas entre os próprios presos, dada a sua diversidade.

De qualquer modo, e voltando ao tema desta história, mas ainda não aos BRDM…

Claro que lá dentro ia-se sabendo mais ou menos o que se passava cá fora, o esticar de corda entre Nito e Zé Van Dunen e a direcção do MPLA – mas não tenciono pronunciara-me sobre isso.

Só irei falar do que vivi e testemunhei nesses dias, no pouco antes e no pouco depois desse dia que para mim começou com as BRDM às voltas à cadeia.

Dois meses antes de eu ser preso, o Comitê Central do MPLA tinha afastado o Nito e o Zé Van Dunen das respectivas funções, extinto o ministério do Interior (que Nito titulava), fechado o Diário de Luanda e encerrado o Kudibanguela (jornal e programa de rádio de apoio a Nito, e que publicavam ou passavam na íntegra as suas intervenções, o que normalmente só acontecia com as de Neto). Não era preciso muito para se saber que dali para a frente o braço de ferro ia assumir outras formas, mas como disse, essa não era a nossa preocupação principal – era um assunto interno ao MPLA.

Em fevereiro de 1977, Nito publica as famosas “13 teses em minha defesa”, que, ao que parece, não contribuíram para sossegar os ânimos (quanto a mim, ainda estava em interrogatórios, pelo que não lhes terei prestado na altura a atenção que certamente mereciam).

Mas a 21 de maio o Comitê Central do MPLA decidiu acusar formalmente Nito e Zé Van Dunen de fraccionismo, e expulsá-los, e isso soube-se imediatamente dentro da cadeia.

Soube-se – e soube-se também do apelo que a seguir foi feito de autêntica “caça ao fraccionista”, no comício da cidadela – mas sobretudo sentiu-se: começou a entrar gente, muita gente, a todas as horas! As celas começaram a ficar abarrotadas.

A cela onde eu me encontrava, como disse, uma cela colectiva onde se encontravam, quando para lá fui, umas dezenas de pessoas, passou de repente a ter seguramente mais de duas centenas. Suponho que nas outras celas o panorama fosse o mesmo ou pior, porque durante aqueles dias não era possível vir ao pátio (e depois de 27 de maio, durante muito tempo, também não).

Pode-se calcular os problemas logísticos – e relacionais, bem entendido – que uma tal situação colocou. Em termos de ocupação do espaço, nós dormíamos no chão, em cima de um cobertor (os chamados, em Angola, cambriquitos). Portanto, de noite, o chão ficava totalmente tapado com cobertores (alguns parcialmente sobrepostos), de dia tinha de se enrolar tudo, não apenas para limpeza, como para se poder circular minimamente.

Entre os que entraram a seguir ao 21 de maio, havia membros de comitês do MPLA, oficiais das FAPLA (forças armadas), membros dos Comitês Henda, funcionários de serviços do Estado (que acumulavam ou não com alguma das situações anteriores). Mas (e não foi surpresa para mim), muitos deles eram, ou tinham sido, meus amigos e colegas no liceu, em Luanda ou em Nova Lisboa, ou mais recentemente na universidade. Outros, das FAPLA, tinha-os conhecido quando ainda dava apoio de formação política, quando os CAC – Comitês Amílcar Cabral, a organização que antecedeu a OCA, colaborava activamente com o MPLA. Claro, as nossas relações tinham esfriado nos últimos tempos, tinha havido um certo afastamento, mas não andávamos propriamente à guerra uns com os outros. E a prova é que, quer com os que estavam na minha cela, quer, como soube depois, nas outras celas, talvez pela proximidade e as preocupações acrescidas, as antigas relações foram-se reatando, embora lentamente (e com limitações). Mas eu sabia que havia outros sectores cujos sentimentos para connosco não eram tão cordiais, como se verá.

Houve, no entanto, outros presos que entraram nessa leva e com os quais eu não estava a contar: militantes de partidos comunistas do Brasil, Argentina, Uruguai e Chile, que estavam exilados em Angola nessa altura.

O brasileiro, com quem conversei mais vezes, e que acho que se chamava Lera, contou-me que ele e os outros tinham comparecido a uma reunião na embaixada soviética, na semana anterior, e que lhes tinham garantido que proximamente as coisas iriam mudar para melhor. Foi enigmático quando procurei esclarecer, pelo que não insisti.

De qualquer modo, até pelo andamento dos interrogatórios, por continuarem a entrar presos, pelos boatos que corriam (e saltavam de cela em cela, como se houvesse um sistema de comunicações bem oleado), as perguntas que todos faziam: onde está o Nito? E o Zé? Ao que havia logo quem dissesse terminantemente: já foram presos! Ou então: estão em conversações com o Neto para prender o Lara e nos pôr em liberdade!

Por tudo isso, cada hora que passava sentia-se a tensão a aumentar. Eram os presos, eram os guardas que, à noite, disparavam das guaritas ou da porta com mais facilidade e estavam mais irascíveis no tratamento, eram os interrogadores (não apenas os habituais, mas um contingente reforçado) que entravam de carro no pátio a toda a velocidade, por vezes trazendo mais um preso, outras vezes apenas com pressa para interrogar outro, que era chamado à pressa.

E assim se chega à noite de 26 para 27. Em retrospectiva (mas não posso jurá-lo) fica a ideia de que nessa noite pouco ou nada se terá dormido: que, de um lado e de outro se sabia que algo ia acontecer na manhã seguinte, e que parte do que ia acontecer (a mobilização popular que efectivamente acompanhou as forças rebeldes), aconteceu durante a noite e não podia passar despercebida (na prisão ouvíamos qualquer ruído anormal que se fizesse no bairro de S. Paulo durante a noite).

Portanto, e voltando às BRDM às voltas à cadeia, não era apenas a excitação e o barulho dos motores e dos populares: fiquei com a ideia de que se estava à espera, e não me refiro aos presos que entraram depois de 21 de maio (eventualmente alguns estariam) mas também, ou sobretudo, ao nervosismo acrescido dos guardas e da administração da prisão em geral.

Prova disso é o facto de, ao invés de terem reforçado a guarnição da cadeia com mais militares vindos de fora, terem ido, no dia 26, buscar militares das FAPLA, sim, mas que se encontravam presos. Um deles, que tinha tomado para si o nome de Sabata (herói de westerns spaghetti), era um conhecido lúmpen e homicida confesso, fazendo gala disso (e com o qual eu tinha um contencioso, visto que o Sabata tinha decidido que não gostava de mim e me provocava por todos os meios possíveis). O resultado foi o que seria de esperar: quando viu que a sorte da batalha pendia para os atacantes, Sabata mudou de campo. Soube que depois foi preso e morto, como muitos outros.

Sobre a batalha em si, não há muito a contar. Apesar de estar a espreitar pela janela, só via, como é evidente, um dos lados, pelo que não sei quem disparou o primeiro tiro. De repente começa uma fuzilaria de um lado e de outro, algumas balas entraram pelas janelas da cela e foram ter às paredes, mas não atingiram ninguém.

Quando parecia estar-se num impasse, o condutor de uma das BRDM atira a viatura contra a porta (que se via da nossa cela) e consegue entrar, e atrás dela os soldados e mais viaturas.

O edifício principal da cadeia é em forma de U, sendo a porta na base do U e um pátio entre os dois braços (num destes, no 1º andar, a cela colectiva onde eu me encontrava).

O BRDM deu a volta e chegou até ao pátio, sempre a disparar e com os soldados atrás, igualmente, ao passo que a guarnição da cadeia, comandada pelo sargento Miranda, procurava defender-se como podia. Pôde mal, como se viu: quer em número quer em qualidade, os atacantes eram superiores.

De qualquer maneira, a meio da manhã já estava tudo acabado.

A guarnição rendera-se. O BRDM retirou-se e os ocupantes começaram a tentar organizar-se (depois se viu que ainda não deviam ter pensado nisso muito bem, o grau de improvisação era elevado).

Alguns dos que tinham sido detidos depois de 21 de maio davam gritos de alegria e chamavam os que estavam no pátio para os virem libertar, o que aconteceu rapidamente.

A maioria estava de semblante fechado, perante a incógnita que uma situação nova sempre representa.

Para nós, eu em particular, depois da excitação da batalha, era altura de voltar a pensar em coisas sérias. A situação não era boa antes, estávamos presos pelo regime, sem garantias e sem prazos, não sabíamos o nosso futuro. E agora era pior? Era.

Como disse atrás, partindo do princípio de que haveria, se não uma mudança, pelo menos uma inflexão no sentido do endurecimento do regime, nesta sua nova faceta havia vários sectores que estavam longe de morrer de amores por nós – a começar pelo próprio Nito, e passando pelo Kudibanguela, que se começou logo a ouvir na rádio após os primeiros sinais de vitória – e as primeiras palavras de ordem não nos deixaram descansados, referindo-se explicitamente a nós, e não em termos muito amigáveis…

E isso começou a ver-se logo a seguir.

Começaram por mandar sair das celas todos os que tinham sido detidos após o dia 21 de maio, sob a acusação de fraccionismo, alguns tendo sido recebidos com grandes abraços no pátio, e suponho que tenham saído logo porta fora da prisão.

Quanto aos restantes, tiveram tratamentos diferenciados.

No nosso caso (OCA) e também aos da RA (Revolta Activa), tivemos um tratamento particular. Começaram por ir ao “comboio” (a zona onde se procedia aos interrogatórios, onde estavam os arquivos, e onde estavam as celas individuais onde eu próprio estivera – e onde já sabíamos que Helder Neto se suicidara) buscar os nossos arquivos. Colocaram uma mesa no meio do pátio, onde colocaram esses arquivos, e começaram a fazer a chamada, após o que cada um era mandado encostar à parede de uma das alas (as minhas iniciais são A, F e C, pelo que fui logo o primeiro; aparentemente os arquivos estavam bem organizados).

Não foi dito explicitamente o que iam fazer connosco, mas dados os ânimos, as armas apontadas, e as notícias que íamos ouvindo, não tínhamos grandes ilusões. E a própria imagem de estar “encostado à parede”, quando já se estava na prisão, não ajudava. Mas também não me parece que nos tenham chamado a todos, não me lembro ao certo quantos estivemos ali encostados à parede, mas não estávamos todos de certeza.

Até porque a partir do meio/fim da manhã verificámos que o nervosismo foi aumentando por parte dos atacantes, e notou-se que eram cada vez mais escassos. É difícil dizer exactamente, mas o certo é que os fomos vendo desaparecer até não restar nenhum, à medida que se ouviam as notícias de que as forças do governo se aguentavam – já então constava lá dentro que o Onambwa tinha ido ao Cacuaco falar com os cubanos e tinha regressado com eles e os tanques, retomando de caminho a casa de reclusão, a rádio nacional (o que se notou quando o Kudibanguela deixou de transmitir) e outros pontos estratégicos. Foi uma debandada silenciosa, mas notória.

Bom, mas entretanto, estávamos nós a fazer contas à vida, quando uma sequência de acontecimentos joga a nosso favor.

Como é sabido, o ataque à cadeia de S. Paulo foi da responsabilidade do batalhão feminino da 9ª Brigada, cuja comandante era a Virinha e a comissária política a Nandy. A Nandy (que se encontrava grávida na altura), era irmã do Kassange, comandante das FAPLA que tinha sido nosso companheiro (dos CAC/OCA) e que tinha morrido próximo do Lobito, juntamente com outro companheiro, em combate contra a UNITA. E pelos vistos a Nandy, ou sabia disso, ou simplesmente era uma mulher de bom senso, e chegou ali e disse para se acabar com aquela charada, que não ia haver fuzilamentos nenhuns, nem julgamentos expeditos.

E assim foi. Talvez por isso eu (e muitos outros) se ainda aqui andamos, devemo-lo à Nandy.

Mas a Nandy não andou muito mais tempo, infelizmente. Ela foi presa, deixaram-na ter o filho, mas foi morta.

Como disse, os primeiros a sair em liberdade foram os acusados de fraccionismo. Mas a partir do momento em que os ocupantes tomaram conta da cadeia, a guarnição (ou o que restava dela) abandonou-a.

Ora, sensivelmente a partir do meio dia, mais coisa menos coisa, também dos atacantes já não havia rasto na cadeia. Com algum humor negro, dizíamos que estávamos em autogestão, mas na realidade a única coisa que havia para gerir não era a cadeia, mas a sobrevivência. É certo que não tínhamos ninguém a guardar-nos (e também ninguém para nos alimentar: nesse dia não houve refeição nenhuma), mas ouviam-se tiros, quer de armamento ligeiro quer pesado, por toda a cidade. A principal decisão a tomar era: ficar ou sair, e neste caso, para onde e quais as eventuais consequências.

Muitos saíram, claro. Eu, depois de avaliados todos os riscos (atravessar a cidade naquelas condições, etc.) fui um dos que decidiram ficar, na realidade já estava por tudo naquele dia.

Íamos ouvindo o que se passava pela cidade, sabíamos que os cubanos se tinham posicionado ao lado de Neto (e sim, eu disse que não ia entrar por aí, mas é para mim evidente que Cuba tomou, naquele dia, uma posição a contracorrente do resto – URSS, RDA, partidos “amigos”, etc. – ver notas no fim, que confirmam a intuição que na altura tive), e para mim havia um grande perigo pela frente: sabia-se que a cadeia de S. Paulo tinha sido tomada pelos insurrectos; pelo que ouvíamos, os outros pontos que tinham sido tomados tinham sido retomados à força, alguns com alguma brutalidade; ora, não se sabendo que a cadeia havia sido abandonada, receávamos que primeiro se disparasse e só depois se perguntasse alguma coisa.

Felizmente não foi assim que as coisas se passaram. Lá para o fim da tarde, estávamos ao pé da porta de entrada escancarada, quando pára lá fora uma viatura das FAPLA, e de lá sai uma jovem de camuflado, linda e de sorriso aberto, que se dirige a nós: “Os camaradas estão bem? Está tudo calmo por aqui?” De facto, só faltava o toque surrealista àquele dia!

Lá lhe respondemos que estávamos mais ou menos, alguns que a conheciam de vista (e que disseram tratar-se da esposa de Xietu, na altura chefe do Estado-Maior das FAPLA) perguntaram-lhe o que se passava no resto da cidade. Ela lá respondeu que “está tudo bem, e já virá alguém tratar de vós” … Não sabíamos se havíamos de ficar descansados ou não, mas suponho que estávamos demasiado cansados para pensar nisso.

O certo é que daí a algum tempo apareceu à frente da porta um tanque, com alguns soldados cubanos à volta e viaturas das FAPLA. Mas quando o tanque começou a rodar a torrinha e a apontar o canhão na direcção da prisão, começámos de facto a ficar preocupados: será que não tinham conversado com a simpática jovem FAPLA?

Mas nada aconteceu, os soldados cubanos, juntamente com alguns angolanos, entraram, começaram a mandar-nos para as respectivas celas, e foi isso. Francamente, tanto quanto me lembro, as celas nem foram revistadas, podíamos lá ter ficado com um arsenal que ninguém teria notado. E nós também não, com o cansaço, a fome e a excitação toda daquele dia (e, embora ninguém o tenha verbalizado, o alívio por ter sobrevivido).

Mas logo naquela noite, e nos dias seguintes, voltou tudo ao mesmo. Ou antes, a pior. A prisão voltou a encher, ainda mais do que estivera antes, mas agora a atitude de guardas e, sobretudo, de interrogadores, era muito mais dura e violenta: se antes incidia sobre acusados de fraccionismo, agora era sobre autores comprovados de um golpe fraccionista, que tinham assassinado elementos importantes do MPLA e tentado tomar o poder.

O ambiente era de chumbo, nesses dias que se seguiram ao golpe. Quanto aos interrogatórios a que foram sujeitos, e à sua violência, os próprios falarão – se assim o entenderem – com maior propriedade. Não se trata de cada um falar do seu processo, mas da propriedade e, eventualmente, privacidade, que cada um queira guardar para si.

Mas as restrições (saídas ao pátio para apanhar sol, visitas) abrangiam todo o universo prisional, pelo que ao fim de algumas semanas todos – e friso bem, todos – estávamos com muito menos cores que antes.

Aos poucos também iam-se sabendo as notícias, não me recordo exactamente por que ordem cronológica: as prisões (e mortes) de Nito, Zé Van Dunen, Monstro Imortal, Sita, etc. Também se ia sabendo das “mortes anónimas” um pouco por todo o país, anónimas excepto para familiares e amigos.

Aos poucos também dentro da cadeia as coisas iam “normalizando”, mas com surpresas desagradáveis. Aconteceu estar no pátio quando vejo um grupo de soldados ir à porta de uma cela chamar o Rui Coelho, entram numa viatura e desaparecem. Pensámos (pensei eu) que fosse para um interrogatório. Mas nunca mais foi visto.

Estava também no pátio à conversa com o Ademar Valles (irmão da Sita) quando vêm dois soldados chamá-lo. Também entrou numa viatura para nunca mais ser visto.

Li algures uma afirmação de Pepetela de que não teria havido nenhuma “Comissão das Lágrimas”, da qual teriam feito parte ele próprio, Luandino Vieira, Manuel Rui Monteiro, Henrique Abranches e Costa Andrade (Ndunduma), entre outros.

Bom, eu não sei se houve ou não. Sei que uma noite, umas semanas após o 27 de maio, foram-me chamar à cela. Lá fui, e cá fora, ao pé de uma viatura, estavam vários conhecidos meus (já os referi atrás, amigos e conhecidos de longa data, que os caminhos da política haviam afastado naqueles tempos), não do meu processo, mas acusados no processo de fraccionismo. A princípio estranhei a mistura (eu de um processo, todos eles de outro), mas lá fomos, e suponho que não era apenas eu que ia com o coração apertado – já todos tínhamos ouvido falar dos que tinham saído àquela hora e ninguém mais ouvira falar deles ou os tinha visto. Quando vi o destino, o ânimo não aumentou: o quartel-general das FAPLA (o mesmo onde antes era o quartel general do exército português, a caminho do palácio). Lá chegados, íamos sendo levados, um de cada vez, para uma sala/auditório, com equipamento de som, filmagens, etc. Na assistência, muita gente, uns fardados outros não, para além dos citados atrás.

É verdade que o Pepetela não me fez perguntas, nem o Abranches (já agora, nem o Dilolwa, que também lá se encontrava), que eram os que me conheciam melhor. Quem eram os mestres de conferências eram o Ndunduma e outro de que não me lembro o nome (acho que Manuel Rui também fez uma pergunta). Devo dizer que desde antes, e sobretudo após o 27 de maio, o Ndunduma, como director do Jornal de Angola, tudo fazia para colar a OCA a Nito, aos Comitês Henda, etc. Escrevera mesmo vários editoriais em que afirmava que a OCA era uma das organizações por trás do golpe. Portanto as perguntas que colocou foram todas no sentido de as minhas respostas poderem ser “retocadas”. Adoptei a táctica de repetir as perguntas que me fazia e ir respondendo por partes, o que o deixou muito irritado, disse-me para deixar de fazer aquilo, e como o continuei a fazer, houve alguém que disse para acabar e passar à frente, chamar outro. Ainda hoje ignoro se alguma das minhas “declarações” chegou a ser utilizada para alguma coisa, mas suponho que não.

Não sei o que se passou com os outros, nem sei se era esta comissão a que chamaram “Comissão das Lágrimas”, nome que só ouvi recentemente.

Dou aqui por encerrada a narrativa da minha experiência pessoal daquele dia, que me marcou, certamente, mas, mais grave e mais importante, marcou e parece que continuará a marcar a minha sofrida terra de Angola. E acho que nenhum país, nenhuma comunidade, consegue progredir com uma tal ferida por sarar.

Há quem proponha uma espécie de “comissões de verdade e reconciliação”, do tipo das que Mandela instaurou, encarregadas de apurar os factos, mas não de punir.

Não sei, quem esteja mais próximo saberá. Mas, como um exemplo do que não ajuda nada à compreensão, ou à reconciliação, a disparidade dos vários estudos, livros, etc. sobre o número de mortos (qualquer coisa entre 5.000 e 80.000, havendo alguns que dizem “fiquemo-nos pelos 30.000”, como se fosse uma questão de tirar as médias ou medianas, mais parecendo números atirados para o ar). Tal não abona à seriedade com que esses trabalhos devem ser encarados, embora se deva reconhecer a dificuldade da tarefa, que não é facilitada pelo Estado.

Oeiras, 2 de maio de 17

António Carranca

Notas finais

[1] Sobre esta questão (já aflorada a respeito dos membros dos partidos comunistas sul-americanos que estavam exilados em Angola e que foram presos nas vésperas do golpe), e que na altura era apenas uma intuição, só recentemente tomei conhecimento, através do jornal online esquerda.net, nas edições que fez a propósito dos 40 anos do 27 de maio, da existência de documentos oficiais que lhe dão suporte (um deles pelo punho do próprio Raul Castro e dirigido a Fidel) sobre as desconfianças entre o MPLA e a URSS).

memorando raul a fidel

E também as cândidas confissões de Pedro Fortunato (talvez pensando que tal lhe daria algum poder negocial) sobre as reuniões dele, Nito e Zé Van Dunen nas embaixadas da URSS, Bulgária e Vietname:

raul sobre confissão de pedro fortunato

Recordo que um dos detidos, um comunista brasileiro que ficou na minha cela, me confirmou ter havido reuniões na embaixada soviética com o embaixador, retraindo-se depois quando procurei obter mais detalhes.

Há 40 anos

2017/08/8

eu carmelino gabi

No dia 23 de dezembro de 1976, estava eu a dar aulas no antigo liceu feminino de Luanda, quando a aula é interrompida (ordeiramente, diga-se) por um pequeno grupo de polícias da DISA (nome que então tinha a segurança do Estado), informando-me que eu estava preso, e, portanto, tinha de os acompanhar.

Devo dizer que – e, como é evidente, já pensei nisto muitas vezes – não manifestei uma grande surpresa, nem senti uma grande surpresa interior. Era como se soubesse que era apenas uma questão de mais dia menos dia, ou semana ou mês, mas aquele dia chegaria de certeza. O que não sabia era se e quando sairia (posso adiantar já: foi 2 anos, 7 meses e 6 dias depois, a 29 de julho de 1979).

Claro que para além da surpresa há outros sentimentos e pensamentos (certamente bem mais importantes que a surpresa que manifestamos ou sentimos) que nos vêm à cabeça, só que a situação é tal, as coisas acontecem a uma tal velocidade, que só o esforço de as coordenar faz com que depois não nos lembremos delas com exactidão.

Medo? Certamente! Sabia que dali para a frente seria eu (e outros companheiros, uns que já estavam presos e outros que entrariam depois) contra eles, sem garantias de qualquer espécie, sem advogados, sem juízes de instrução, sem organizações de direitos humanos, sem imprensa livre.

Por outro lado, tinha responsabilidades. Tanto quanto sabia, havia companheiros e companheiras que estavam salvaguardados em casas seguras, mas de que eu, enquanto membro dos órgãos dirigentes (e outro companheiro, que vim a verificar, ao entrar na prisão, também tinha sido preso), conhecíamos a localização e as identidades. Evidentemente, precisavam, pelo menos, de tempo suficiente para adaptação às novas circunstâncias.

Havia a questão de avisar as pessoas certas em tempo útil. Aqui jogou o factor sorte: entre as minhas alunas estava uma ainda hoje muito querida amiga, que conhecia alguém, que conhecia outrem, que…

Os polícias meteram-me num jipe que estava parado à porta do liceu, mas não me levaram logo para a cadeia: fomos primeiro ao meu apartamento, um pequeno estúdio no primeiro andar do prédio onde também morava o meu irmão. Se estavam à espera de encontrar grande material da organização, devem ter ficado desiludidos, porque não havia nenhum. Mas tiveram a satisfação de me levar toda a minha biblioteca (foi a terceira biblioteca que me desapareceu, sendo as duas primeiras na casa da Vila Alice, que por azar ficava no meio dos confrontos entre o MPLA e a FNLA, e que uma das vezes meteu também o exército português).

Quando pensei que estavam satisfeitos e que íamos finalmente para a prisão, o chefe (não era um chefinho, era o capitão Zé Maria, que viria a ser um dos interrogadores mais constantes, juntamente com o Helder Neto) diz que não, e que faltava uma coisa. Era o que eu mais temia, meterem o meu irmão ao barulho, que não tinha nada a ver com esta história, e irem revistarem-lhe também a casa! E a sua companheira da altura, a minha querida Leni (que foi um grande apoio durante todo o tempo em que estive preso – quando tal era possível) que era tão ciosa da arrumação da sua casa!

Bom, mas como eu não tinha voto na matéria, lá fomos, os polícias portaram-se com um mínimo de civilidade, e eu aproveitei para dizer ao meu irmão para sossegar os meus pais e sobretudo – sobretudo! – não queria ouvir falar em eles irem lá enquanto eu estivesse preso. Conhecia o suficiente de outras histórias para minimizar os riscos de chantagem que a presença dos meus pais representaria.

E finalmente lá fomos para a cadeia de S. Paulo.

A cadeia de S. Paulo já funcionava como tal no tempo colonial, estando sob a tutela da PIDE/DGS, ficando à entrada do bairro de S. Paulo, próxima do estádio da cidadela.

Tinha várias secções, sendo a maioria de celas colectivas, e uma zona destacada, a que se chamava o “comboio”, de celas individuais e salas de interrogatório (que havia também noutros edifícios).

Fui colocado numa dessas celas individuais do comboio, muito pequena. Camas não havia, nem colchões: era-nos distribuída uma daquelas mantas/cobertores muito vulgares em Angola a que se chamava “cambriquitos”, cinzentos e ásperos. Punham-se no chão e deitávamo-nos por cima, se tínhamos frio dava-se uma volta: durante toda a estadia foram meus fieis companheiros, só talvez nos últimos 2/3 meses tive cama com colchão. Havia uma sanita, daquelas no chão com lugar onde colocar os pés (que verifiquei agora na Wikipedia ser “vaso sanitário estilo turco”), onde a água corria continuamente – e que era a onde tinha de me abastecer de água. Custa, mas uma pessoa habitua-se, sobretudo quando há outras preocupações.

E a partir daí começaram as coisas sérias, ou seja, os interrogatórios, com os quais não vou maçar ninguém. Até ao Ano Novo praticaram a privação do sono, não sei ao certo durante quanto tempo. Eu e o meu outro companheiro víamo-nos de vez em quando, a passar de uma sala para outra, mas depois em conversa nenhum de nós tinha a certeza se nos tínhamos visto, se era truque da polícia, se era alucinação.

No dia 1 de janeiro de 1977 fui mudado para uma cela colectiva. Em mau estado, bem recebido por uns, mal por outros, mas pude ir recuperando.

Claro que continuaram os interrogatórios, mas a preocupação da polícia já parecia ser outra, que considerava mais séria: o fraccionismo.

Quanto a nós, o objectivo que nos propusemos de dar tempo aos outros companheiros de se reorganizarem parecia ter sido atingido (verificou-se que assim foi, pelo menos durante um ano). Mas claro que a polícia quando caça o faz com caçadeira de canos serrados, pelo que não se pôde evitar que muita gente fosse presa apenas por ter relações de proximidade ou de familiaridade com membros da organização (e outros nem isso – se bem que alguns mais que isso, embora a polícia não o soubesse…)

Como disse, em Angola não havia condições para qualquer tipo de apoio institucional ou cívico a presos políticos, naquela altura. Pelo que esse apoio passou essencialmente pelo exterior, sobretudo Portugal mas não apenas por aqui.

E foi assim esse dia, há 40 anos. No resto do tempo evidentemente passou-se muita coisa.

Fui desafiado para andar à pancada por um bandido encartado, o Sabata, que estava na mesma cela que eu e que diziam (e ele confirmava) já tinha vários mortos no currículo. Não se concretizou – bom, eu estou aqui e o Sabata não… – já não me lembro por que razão, mas no golpe do 27 de maio de 77, primeiro começaram por chamar o Sabata para reforçar a guarnição da prisão. Quando os atacantes entraram, o Sabata mudou de campo. Soube que depois foi morto.

Antes do golpe do 27 de maio de 77, a prisão começou a encher e a rebentar pelas costuras. E não eram apenas angolanos. Só à minha cela vieram parar membros dos PCs do Brasil, do Uruguai, do Chile, etc. que estavam exilados em Angola, e que se queixaram, pois ainda na semana anterior tinham estado numa reunião na embaixada da URSS.

Quanto ao golpe, vi que ia acontecer antes de começarem os tiros. A cela era no 1º andar, eu tinha ido à casa de banho e ao olhar pela janela estranhei o barulho, espreitei e vi as autometralhadoras, acho que BRDM, às voltas da prisão. Logo a seguir começa a fuzilaria, a resistência, uma das BRDM derruba a porta, a luta passa fazer-se dentro da prisão, e depois a guarnição rende-se.

Nós começamos a fazer contas de cabeça, pois não somos propriamente bem vistos entre os novos senhores da prisão. E com razão: um deles vai buscar os ficheiros e começa a fazer a chamada, mandando os chamados encostar a uma parede. Para meu azar os meus nomes próprios começam por A e F.

Mas não vou dourar a pílula: logo a seguir vem a comissária do batalhão feminino (que por acaso estava grávida), que se lembrava que o irmão, que falecera num embate com a UNITA, era nosso companheiro, a dizer que naquele dia ninguém ia ser fuzilado…

E assim eu estou aqui, 40 anos depois.

Mas ela não. Foi presa, deixaram-na ter o filho, mas foi morta.

ANEXO

Junto, a título de curiosidade, alguns recortes de jornais portugueses da altura, que os meus pais, na sua aflição, foram coligindo, sobre os vários apoios que íamos recebendo.

jornais

Uma história simples

2017/08/8
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Corria o ano de 1974, pouco depois do 25 de Abril.

Era já tarde, e eu queria chegar a Luanda ainda de dia, pois tinha aulas na faculdade no dia seguinte, e já tinha faltado alguns dias.

Tinha ido a Silva Porto levar a Rita. Tínhamos ido os dois de avião, um Friendship da TAAG, e no aeroporto estavam os velhos, a Belita e a Magui (ainda me lembro dos berros da Magui no aeroporto: Rita! Rita! Rita!). A Rita e a Magui eram ainda miuditas, quase bébés.

Seja como for, eu precisava de regressar a Luanda, e como não tinha carro, o velho emprestou-me o seu Peugeot 404, e ele depois arranjaria maneira de alguém lho levar de volta para Nova Sintra /Catabola.

Ia a andar bem, já tinha passado a Quibala e o Muquitixe, e ia a sonhar com uns cacussos grelhados nas margens do Cuanza, no Dondo, quando ouço um barulho, e logo depois o carro começa a aquecer, mesmo muito.

peugeot 404

Não tive outra solução senão encostar. Sou um cepo em mecânica, mas deixei o motor arrefecer, e só depois abri o capot e espreitei, à espera de ver não sei o quê. Mas por acaso até vi. Tanto quanto percebi, o Peugeot tinha dois compartimentos de água para arrefecimento, ligados um ao outro, suponho que em circuito fechado (era a diesel, não sei se isso importa para alguma coisa – mas sei que os carros a diesel daquela altura eram muito diferentes dos de hoje). E verifiquei que um dos compartimentos – em plástico – estava completamente destruído, partido, ou seja, a água que era suposto passar por ali, perdia-se por completo. Até um analfabeto mecânico como eu via que se insistisse na viagem, pegaria fogo ao carro, ou qualquer coisa parecida.

Por aquela altura já estava escuro. Quem conhece aquelas paragens sabe como se passa em pouco tempo do dia claro, para o lusco-fusco, e depois para a noite escura.

Carros já não passavam há algum tempo, além disso tinha estacionado o Peugeot numa pequena saída que não era muito visível da estrada, mesmo com dia claro, muito menos à noite. Àquela hora também já não passava ninguém a pé, além disso não me parecia que houvesse aldeias ou sanzalas próximo da estrada. Sabia que havia algumas fazendas, mas não me ia aventurar no escuro à procura delas.

Claro que ainda iriam passar alguns carros – como passaram, quer ligeiros, quer camiões – mas nem me cheguei à estrada a fazer qualquer sinal. Não apenas isso por vezes não era aconselhável, àquelas horas, como era uma daquelas retas intermináveis, onde os condutores metiam o pé na tábua para chegar o mais depressa possível ao seu destino, fosse ele qual fosse.

Convenci-me então de que teria de passar a noite dentro do carro, naquele descampado, e no dia seguinte pediria uma boleia para o Dondo para trazer um mecânico para rebocar o carro. Se tivesse arranjo imediato, óptimo, seguia para Luanda nele, senão, apanhava o comboio ou o autocarro e viria busca-lo depois.

Quanto à situação presente, os maiores inimigos seriam o frio e a fome (ou assim eu pensava).

Quanto ao frio, embora naquela zona já se comece a descer do planalto central para o litoral, ainda se está a uma certa altitude, e antes de se começar a descer para Cambambe ainda tem de se subir um bocado. Sobretudo à noite – para a qual não vinha preparado – faz um friozinho cortante. Mas bom, não era por isso que me iam encontrar congelado, no dia seguinte, embora não antecipasse uma noite agradável.

A fome iria de certeza apertar mais tarde. Nas minhas directas, quer para o Huambo, quer para o Bié, fazia sempre uma paragem (normalmente no Muquitixe, mas nem sempre), para comer um prego no pão e beber uma cuca. Se estava para aí virado, sentava-me e comia e bebia, senão, metia-me no carro e ia comendo e bebendo enquanto conduzia (eu sei que isto é um sacrilégio nestes tempos de cintos de segurança, sopros no balão, etc.)

O policiamento na estrada era escasso, de vez em quando lá víamos um “creme nívea”, que era o nome dado aos Volkswagen da polícia com as cores do mesmo creme.

Seja com for, naquele dia tinha comido o meu prego (com a respectiva cuca) muito mais cedo, na Cela (a antecipar uma fome razoável para os cacussos no Dondo).

Portanto, frio e fome, os inimigos a enfrentar. O antídoto? Sono vigilante (afinal, estava no meio de nenhures), e de manhã apanhar uma boleia para o Dondo, arranjar um mecânico (ou um restaurante? Logo se veria).

Lembro-me que nos primeiros momentos em que me aconcheguei para dormir, passaram logo alguns carros, dois deles a uma velocidade razoável, que talvez tivessem permitido uma abordagem. Bah! Já tinham passado, não valia a pena pensar mais nisso.

Voltei a aconchegar-me e a tentar dormir.

E foi então que o ouvi.

Quando conto esta história refiro-me sempre a “ele” como “o leão”, mas na realidade, nunca o vi, portanto não posso jurar que fosse de facto um leão.

Só o ouvi, isto é o seu urro.

Primeiro foi uma coisa indistinta, não tive a certeza (ou não quis acreditar).

Depois um segundo urro, mais distinto e, pareceu-me, mais próximo. Confesso que este me provocou algum formigueiro na cabeça. É certo que estava dentro de um carro, mas era um Peugeot 404 com vidros por todos os lados (avariado, ainda por cima), e não um tanque Panzer.

E depois, que diabo, não é suposto os leões dormirem de noite (que era também o que eu gostava de estar a fazer)? Talvez este estivesse apenas a ir ter com a família.

Não vale a pena prolongar o suspense. Ainda ouvi acho que mais uns três urros, e lembro-me que um deles me pareceu demasiado próximo, o suficiente pelo menos para eu quase não pregar olho para o resto da noite (a não ser eventualmente por breves instantes, por cansaço, medo ou nervosismo).

Mas acho que tudo isto se passou no início da noite. O bicho terá partido para outras paragens, ou terá continuado a sua jornada, pois não viu motivos para alterar os seus planos originais. Os meus é que nem tanto.

De manhã procedi como tinha planeado. O primeiro carro a passar foi uma camioneta Scania-Vabis. O motorista não apenas se prontificou a dar-me a boleia até ao Dondo como a dar uma vista de olhos ao Peugeot, tendo confirmado as minhas previsões.

scania

Como era mesmo muito cedo, chegámos ao Dondo antes da abertura da oficina, pelo que ofereci ao motorista da Scania (cujo nome não recordo) o pequeno almoço – não os sonhados cacussos da véspera, mas um grande bife com ovo a cavalo, batatas fritas, bacon, fiambre, regado a cerveja, e depois muito café. Não era só eu que estava cheio de fome, ele tinha conduzido toda a noite, e ainda ia para Luanda!

Na oficina tive de esperar um bocado, mas depois foram comigo o patrão e um mecânico numa camioneta (que fazia as vezes de reboque) ver o Peugeot. Chegados lá, estavam uns miuditos, que deveriam ser de alguma sanzala próxima, a olhar com curiosidade, mas tanto quanto verifiquei não lhe tinham tocado. Claro que fizeram a habitual festa, com risos e galhofa, com as dificuldades das manobras para colocar o Peugeot em cima da camioneta, o que irritou o mecânico que foi connosco, que teve de ser acalmado pelo patrão, que conduzia a camioneta.

Bom, como diz o título, esta é uma história simples (ou uma não história).

O Peugeot teve que ficar no Dondo uns dias, eu regressei a Luanda na carreira da EVA, e depois o mesmo alguns dias depois para buscar o carro.

autocarros EVA

 

 

 

 

 

 

 

Ah, mas dessa vez matei as saudades dos cacussos à beira rio.

Uma semana de espanto, críticas e medos

2016/11/14

 

Faz amanhã uma semana que Donald Trump foi eleito 45º presidente dos Estados Unidos da América.

Ainda na véspera, a maioria dos analistas e órgãos de comunicação (dentro e fora dos EUA) colocavam a sua oponente, Hillary Clinton, como favorita, à frente quer no voto popular quer no colégio eleitoral (assim como previam que os democratas reconquistassem a maioria pelo menos no Senado).

Essa tendência só se começou a inverter já durante as primeiras sondagens à boca da urna, e só então muitos (inclusive, ao que pareceu, pertencentes ao próprio staff de Trump) começaram a acreditar na vitória do candidato mais impreparado e com a campanha eleitoral mais racista, misógina, antissemita, isolacionista da história dos EUA, e aquele cujos aspectos da vida pessoal que vinham a público mostravam um ser abaixo de qualquer qualificação, na relação com as mulheres (conversas de balneário, gravadas – que, é certo, levantam aspectos de privacidade), com os seus subordinados, ou com as instituições (“não pagar impostos faz de mim mais esperto que os outros”).

Muita gente se tem debruçado (e continuará a debruçar) sobre o que realmente aconteceu: se foi Trump que ganhou se foi Hillary e o partido democrata que perderam (para além dos resultados efectivos e mensuráveis, bem entendido: Trump será empossado e Hillary não…)

Refiro-me evidentemente a questões como se a candidata dos democratas foi bem escolhida, se a sua campanha foi bem conduzida, etc. etc. Porque do outro lado tudo apontaria para a pior escolha, para uma campanha destrambelhada, divisionista e exclusiva, e no entanto ganhou.

Este pequeno texto faço-o apenas para meu benefício e memória futura do que publiquei no Facebook na última semana de campanha. São pequenos textos meus, sem maior conhecimento do que aquilo que ia vendo nos órgãos de comunicação social.

É visível que não nutro grandes simpatias por Hillary Clinton, mas evidentemente preferia que fosse ela a eleita no lugar de Trump.

O post seguinte foi colocado no dia 2 de Novembro, uma semana e um dia antes da eleição. Acho que estava preocupado (nota-se muito?)

O post seguinte, colocado no dia 5 de Novembro, é uma partilha do The Economist, e tem a particularidade de contrariar o excesso de confiança dos democratas, mas no caso inverso ao que ocorreu, isto é, perder o voto popular, mas esperando mesmo assim ganhar no colégio eleitoral… Surpresas, surpresas…

O post seguinte foi colocado dia 6/11, 2 dias antes da votação, e nele manifesta-se, sobrepondo-se ao cepticismo, muito wishfull thinking (“Trump pode não ganhar”…), mas sobretudo um pouco (não tudo…) do que eu acho que está errado em Hillary Clinton (e muito mais haveria a dizer, e se calhar deveria, e só não foi por qualquer preconceito politicamente correcto, por ser mulher, por ser a candidata do “lado certo”, etc. – talvez cheguemos um dia à conclusão que criticar a tempo – se bem – o nosso lado pode ser mais importante que criticar os apoiantes do outro lado).

Eu sei que o post seguinte, uma partilhe feita na véspera do dia da votação, é mauzinho. Mas eu não esqueço que Hillary, enquanto foi Secretária de Estado no primeiro mandato de Obama, encheu o departamento de neocons que vinham dos apoiantes de Bush pai e filho, incluindo a senhora Victoria Nuland, esposa de Robert Kagan, que era um dos seus ideólogos. A senhora Nuland foi a orquestradora do cerco da NATO à Rússia e do golpe de Kiev que resultou na destituição de um presidente eleito da Ucrânia (ficou famosa a sua frase “fuck the EU”, ouvida por vários jornalistas e diplomatas, quando lhe disseram que vários países da União Europeia não viam com bons olhos as provocações à Rússia). E Hillary tem responsabilidades nos campos do ISIS em que se tornaram a Líbia, o norte do Iraque e o leste da Síria. Não as responsabilidades na criação do ISIS que Trump lhe quis atribuir, no entanto: essas são todas das aventuras de Bush Jr.

Finalmente, no próprio dia da votação, a esperança de que o Al Capone tivesse razão, porque de facto este ano os Chicago Cubs lá ganharam o campeonato deles (a que chamam pomposamente “World Series”) pela primeira vez desde 1908…