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Considerações avulsas (I)

2019/01/2
  1. O que leva alguns líderes autoritários, ditatoriais, fascistas, ou com ambições a tal, a juntarem ao título oficial, um adorno, recuperado historicamente, ou inventado para a ocasião?

    O primeiro ministro Benito Mussolini, passou a “Il Duce”, o chanceler Adolf Hitler a “Führer” (líder, ou guia), o chefe de Estado e de governo Francisco Franco Bahamonde a “El Caudillo” e também a “Generalíssimo”. Rafael Leónidas Trujillo, homem simples, era apenas “El jefe”.

    Mito de Narciso

    Na mitologia grega, um dos mais famosos mitos é o de Narciso, um jovem tão bonito que despertou o amor de Eco, uma bela ninfa. Narciso rejeitou esse amor, fazendo que a ninfa ficasse destruída com a rejeição. Como castigo, a deusa Nêmesis fez com que ele se apaixonasse pelo próprio reflexo no rio, de tal forma que Narciso morreu afogado.

  2. Não vi o(s) programa(s) em que a RTP atribuiu o título de personalidade do ano (ou acontecimento do ano, à sua eleição, não sei) a Jair Bolsonaro, apenas as reacções inflamadas no Facebook. Do mesmo modo, assisti/li a algumas reacções sobre a presença de Marcelo na sua tomada de posse.

    Devo dizer que em relação a ambos os acontecimentos tenho uma posição um pouco diferente da maioria das que vi/li/ouvi. (e não vou repetir aqui a minha opinião a respeito de Bolsonaro: está escrita e publicada, aqui e no Facebook, pode ter sido lida por pouca gente, mas é clara).

    Despacho já a presença de Marcelo na tomada de posse: acho perfeitamente natural, dada a importância das relações entre os dois países, as comunidades de portugueses e brasileiros presentes num e noutro, etc. em resumo, seja qual for o governo de qualquer dos países, as relações têm de continuar, e a presença num acto oficial não representa de modo nenhum qualquer forma de endosso das suas políticas.

    Primeiro, acho que não se deve dar demasiada importância a essas atribuições de “personalidade do ano”, ou melhor, devem ser relativizadas, de acordo com o órgão que as atribui, se são de carácter geral ou específico (música do ano, pontapé de bicicleta do mês, etc.), e se são devidamente explicadas e contextualizadas.

    Quando se fala disto, vem sempre à conversa a revista Time, que terá iniciado a moda, e atribuiu a Hitler esse título, em 1938. É certo, a Time tem um artigo em que explica e contextualiza a decisão. Está perdoada?

    É interessante ver a lista dos premiados da Time (basta ir à Wikipedia), para se constatar que a ideia não é exactamente a mesma de uns jogos florais (além de Hitler, Estaline levou duas capas, 1939 e 1942, Khomeini em 1979, Kissinger, organizador de subversões e golpes de Estado, em 1972, Bill Clinton duas vezes, por boas razões (1992), quando foi eleito, e por dúbias razões (1998), juntamente com o juiz Ken Starr, investigador de manchas em vestidos, etc. etc.).

    Ou seja, não é para premiar boas acções, mas sim a personalidade ou o acontecimento que teve impacto no ano. E isso ninguém pode negar que a eleição de Bolsonaro teve. Um mau impacto? Sem dúvida!

    Mas não compete a um órgão de informação escamotear os impactos que uma personalidade ou um acontecimento têm na sociedade.

    Agora, o programa teve o devido enquadramento? Parece que não. Essa é outra das acusações que é feita à RTP, e que sendo verdadeira (repito, como não vi, não me pronuncio), é uma falha grave.

    Deixemos os brasileiros fazerem a sua luta, e continuemos a dar-lhes o nosso apoio.

    Termino aqui este ponto com uma citação “roubada” a Francisco Seixas da Costa, O figurão do ano

“Posso imaginar que, se acaso a escolha tivesse recaído em Xi Ji Ping, nem uma agulha teria bulido na quieta melancolia dos cronistas do burgo. E, no entanto, o líder chinês é um ditador que chefia com mão de ferro um país onde os direitos humanos são uma ficção, a separação de poderes é um conceito inexistente e a democracia é o que não é. Mas, repito, tivesse sido ele o escolhido, nem uma voz se teria ouvido a contestar. Alguém duvida?

A eleição de Bolsonaro representa uma inversão política de 180° no mais importante Estado de língua portuguesa, onde vivem centenas de milhares de portugueses, cuja evolução é também vital para o futuro da CPLP. Um Brasil “ao contrário” pode ditar mudanças drásticas no tecido político da América Latina, uma sua relação privilegiada com a América tutelada por um figura como Trump pode trazer fortes surpresas, em matéria climática e em outras agendas onde, por muitas décadas, a diplomacia do Brasil, com presidentes de colorações bem diferentes, havia relançado a imagem do país. Se a chegada ao poder de uma figura política deste jaez não é a notícia mais relevante surgida na cena internacional nos últimos meses, então não sei qual será.

A personalidade ou figura do ano – a “Time” um dia escolheu Hitler, com toda a razão – não é um “prémio”, não é um reconhecimento valorativo, não é um elogio. Em 2016, Trump foi a Personalidade do Ano em todo o mundo – e não foi por gostarem dele. Assim, trata-se apenas da constatação de um facto: Bolsonaro é a grande “novidade” da política mundial no ano de 2018, goste-se ou não dela. Mais do que a figura, Bolsonaro é mesmo o maior “figurão” do ano!”

– citação do Mito de Narciso retirada de Significados

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O direito à defesa

2018/11/28

Antes de encher a boca com neologismos como “fake news”, trumpismos, etc. (e invocar fascismos à toa, ou repetir à exaustão “só neste país!”), talvez convenha proceder a alguma introspecção, e examinar com mais calma e isenção o que está em questão, sem perder o sentido crítico.

A Estátua de Sal

(Virgínia da Silva Veiga, 27/11/2018)

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Dizem que 57 % dos portugueses já colocam em causa a veracidade das notícias. Contudo, breve consulta ao Facebook permite concluir uma outra faceta: basta dizer mal de uma sentença, criticar a vida de Sócrates ou falar de empréstimos bancários que a malta partilha à exaustão. São estes os três temas que mais agradam aos portugueses e nem é necessário gastar dinheiro em inquéritos.

Um juiz ou juíza, não sabemos, que condene a pena de prisão, ainda que pelo mínimo, um tipo que decide assaltar um pacato cidadão, sob ameaça de arma branca, no entender geral devia ser absolvido. O juiz é um canalha, isto de mandar para a cadeia um gajo que estava em precária, reincidente, “ é a justiça que temos”. Se fosse rico o caso era outro, dizem. Podia recorrer, como se, sendo pobre, não pudesse.

Como e com que fundamento foi…

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A perda do Brasil por alguns (espero que poucos…) anos

2018/10/28

A Estátua de Sal

(José Pacheco Pereira, in Público, 27/10/2018)

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Existe uma tese de que um antepassado meu, Duarte Pacheco Pereira, teria sido o descobridor do Brasil e não Pedro Alvares Cabral. Essa descoberta teria sido mantida sigilosa para que, na competição com Castela, fosse possível deslocar a divisão do Tratado de Tordesilhas de modo a incluir o “desconhecido” Brasil, sendo Duarte Pacheco Pereira um dos signatários do tratado. Camões gostava tanto da personagem que lhe dedicou quase um canto como “Aquiles Lusitano”. O seu retrato austero e guerreiro, de espada e armadura, dominou sempre aquilo que antes era a “sala de visitas” de casa dos meus pais e está hoje perto de mim, numa “sala de retratos”, junto dos Pachecos antigos, sombras da minha sombra.

Digo isto porque vamos perder o Brasil por alguns anos de ferro e fogo, se Bolsonaro ganhar as eleições, processo em que se sabe como vamos entrar, mas…

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Brasil, adormecido no sono da razão

2018/10/24

Como tudo parece indicar, no próximo domingo o “capitão” Jair Bolsonaro será eleito presidente do Brasil, com os votos de um eleitorado vociferante, não tanto de apoio a ele, mas de recusa a outros.

Já foram por de mais analisadas as razões e a justiça dessa “recusa”.

É claro que é verdade que houve corrupção nos anos em que o PT teve a presidência. Negá-lo seria negar uma evidência, e não é negando evidências que se deve fazer política (a não ser que se queira mentir).

E é natural que as pessoas estejam revoltadas com isso (e não apenas aquelas que acreditaram que o PT iria moralizar a vida política brasileira, tendo-lhe entregue o seu voto, e sentindo-se por isso duplamente defraudadas).

Mas elas não esquecem também que foi com os governos do PT que, pela primeira vez na história centenária do Brasil, dezenas de milhões de deserdados tiveram acesso a algo mais do que a sobrevivência (como foi reconhecido por várias instituições internacionais), que puderam ter as suas casas e mandar os seus filhos estudar e ter melhores cuidados de saúde (que, no geral, continuam a ser maus).

Até aí, todos os governos apenas se tinham preocupado com os mesmos de sempre, em particular os aglomerados do eixo Rio/S. Paulo, e o litoral sul. Queiram ou não, foi com os governos PT (e, em certa medida, com Fernando Henrique Cardoso), que começou a haver uma classe média a preencher o hiato enorme entre os possidentes e os semi-proletários.

Bolsonaro promete acabar com a corrupção, a violência, a insegurança, fazer não se sabe bem o quê com os homossexuais e os negros (nem ele sabe, porque não tem programa, a não ser as declarações descabidas que lhe saem da boca sem freio), a ferro e fogo.

Elogia a ditadura militar que governou o Brasil com mão de ferro de 1964 a 1985, sabendo que a maioria da população, jovem, não tem memória desses anos de chumbo.

Critica essa ditadura, porque em vez de prender, devia ter morto muito mais gente do que a que matou.

Elogia a tortura, em particular o torcionário que torturou a presidente Dilma.

Em tempo: Dilma pode ter sido uma presidente fraca, e imprudente no erro contabilístico que foi aproveitado covardemente para a sua impugnação (em nenhum país civilizado do mundo onde aquilo é feito – e são às dezenas – tal conduz à impugnação, quando muito à correcção das contas), mas Bolsonaro terá de usar saltos muito altos para chegar ao nível dela!

Em pleno Senado, diz a uma deputada que não a estupra (completando depois que é por ser muito feia). Esta frase, só por si, devia afastar tal indivíduo de qualquer convívio humano, quanto mais de uma candidatura a presidente!

Propõe fuzilamentos, esterilizações forçadas.

Mas, pelos vistos, a maioria dos eleitores brasileiros está satisfeita com isto!

Como dizia Goya, “o sono da razão produz monstros”. E parece que a razão anda adormecida, abaixo do equador.

Não vale a pena, nesta altura falar de história, e do exemplo da Alemanha dos anos 30, que levou Hitler ao poder, e das suas consequências. Quem não a aprendeu até agora, também só a vai aprender na prática, infelizmente.

Claro que várias coisas podem acontecer:

  • – haver uma tomada de consciência de última hora, e Haddad vencer; espero que sim, com baixa probabilidade;
  • – como se antevê, Bolsonaro vence; mas
    • — Bolsonaro é um fala barato, e será um joguete nas mãos dos militares (através do seu vice-presidente) e dos grandes interesses; a prazo os militares poderiam mesmo tomar o poder;
    • — por vezes as aparências enganam, e Bolsonaro revela-se um duce (ou o que se queira chamar), com controlo do país e das forças armadas, aplicando ou não todas as suas medidas.

Brasil e nós (ou e eu)

2018/10/9
tocando flauta no morro (gravura de Cândido Portinari)

Comecemos com uma frase “suave” de Bolsonaro:

“Nem para procriador o afrodescendente serve mais”

No domingo passado, Jair Bolsonaro recolheu a maioria dos votos na primeira volta das eleições presidenciais brasileiras, 46% do total. Ou seja, mais de 49 milhões de eleitores brasileiros votaram num personagem cavernícola, capaz de dizer uma frase como a que sublinhei acima (e que, repito, apesar de grotescamente racista e contrária à ideia que toda a gente tem do Brasil, da sua sociedade, da sua cultura, consegue ser das mais “suaves”, que ele disse).

Mas logo depois de escrever aquilo, arrependi-me, porque as diatribes desta classe de ditadores de pacotilha, que jogam com a ignorância e os medos irracionais do povo, não se sujeitam a nenhuma métrica, não há mais nem menos – há apenas a ocasião e o público adequados, e uma comunicação social prestimosa, mesmo que seja para dizer que a comunicação social apoia toda “o outro lado”. E as outras frases de Bolsonaro só dão razão a esta ausência de métrica.

Grupo de meninas brincando (Cândido Portinari)

Tomemos outro exemplo paradigmático da personalidade que a maior parte do eleitorado brasileiro escolheu para presidente.

Este exemplo não é de qualquer política que ele queira implementar (talvez aqueles que nele votaram não saibam, mas em mais de duas décadas como deputado, Bolsonaro só participou em duas iniciativas legislativas, seria de se perguntar o que ele andou lá a fazer, mas afinal isso que interessa?), mas diz tudo sobre o carácter da pessoa.

Em debate com a deputada Maria do Rosário (PT), e, não sei se como forma de “desarmar” a oponente e “ganhar” o debate, como fazem os cobardes, diz qualquer coisa como:

“Fica aí, Maria do Rosário, eu falei que não ia estuprar (violar) você, porque você não merece”. Posteriormente, em conversa com os jornalistas, e em tom de brincadeira, acrescentou, “porque 
é muito feia”.

Ora, dos 49 milhões de votantes em Bolsonaro, certamente muitos (metade, mais de metade?) são mulheres. O que pensarão, ao depositar o boletim de voto?

Claro, não vão pensar que vão ser atacadas por Bolsonaro: basta olhar para ele para se perceber que ele não é dos que faz, é dos que manda fazer.

Ou, pior ainda, se for eleito presidente, e depois destas afirmações, é um exemplo de mau carácter e de via verde para os estupradores: se para o presidente estupro é motivo de brincadeira, então…

Mas voltando ao momento de colocar o voto.

  • A mulher acha-se feia, e portanto está fora da “permissão tácita” do incumbente presidente?
  • Ou, achando-se bonita, achará uma honra ter sido violentada com beneplácito presidencial?

Eu sei que estou a brincar com coisas muito sérias, mas quando se tem um candidato a palhaço como candidato presidencial, estas coisas são inevitáveis. Afinal de contas, dezenas de milhões de pessoas desculparam-nas a Bolsonaro, porque não a mim? E a diferença é que eu não estou a insultar ninguém, sei que ninguém fez esse tipo de raciocínio, e esse é precisamente um dos problemas: não fez, não pensou, não votou a favor, votou contra.

Porque a verdadeira questão não é evidentemente aquela (ser ou não, considerar-se ou não, bonita ou feia), mas o facto de um candidato ao mais alto cargo do país poder dizer uma tal atrocidade

que representa um dos crimes mais hediondos, em particular contra as mulheres,

em qualquer lado,

no senado,

a uma outra deputada.

Mas não se fica por aqui, o rol de disparates que Bolsonaro disse ao longo da campanha e ao longo dos anos.

Entre os mais sonantes, estão os homofóbicos
“Seria incapaz de amar um filho homossexual”

e aqueles em que ele manifesta o seu apoio à ditadura que vigorou de 1964 a 1985, o apoio à tortura, aos fuzilamentos, e a saudação particular que enviou ao torturador da ex-presidente Dilma Roussef.

Não é que eu alguma vez tenha sido um grande admirador ou seguidor de Dilma (ou de Lula, já agora). Acho que o PT esbanjou o capital de esperança que inicialmente muita gente nele depositava, ao se deixar arrastar pela onda de corrupção endémica que parece assolar o Brasil à décadas (sim, o que esta população parece não saber (os jovens têm desculpa, os outros não), é que não foi o PT que trouxe a corrupção, ela já lá estava muito antes, até durante a ditadura incensada por Bolsonaro, e até muito antes da ditadura: só que com o PT os grandes jornais começaram a falar disso, e antes não.

“Pela memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Roussef!”

Esta frase joga bem com a foto, e é por isso que, apesar das reservas que coloquei a Dilma, acho a foto notável, enquanto a frase é do típico fala-barato, que nunca colocou a vida em risco (outra das suas frases grandiloquentes é 
“O soldado que vai à guerra e tem medo de morrer é um cobarde”, mas ele nunca esteve em situação de guerra, aliás, é um “militar” que passou à reserva aos 33 anos…)

Bolsonaro saúda o torturador de Dilma. Eu não vou dizer que gostaria de ver Bolsonaro na situação de Dilma, com um grupo de generais ou coronéis (ou mesmo civis) torturadores à sua frente, com todo o poder para fazerem dele o que quizessem. Não, não desejo isso a ninguém, nem a Bolsonaro, porque, ao contrário de Bolsonaro, sou pela civilização, e portanto, contra a tortura (assim como, evidentemente, contra as execuções e esterilizações, de que ele gosta tanto).

Mas, apenas por curiosidade, gostava de saber se a fotografia para a posteridade seria semelhante a esta: os torturadores a esconderem a cara; só a Dilma mostra alguma dignidade, num ambiente que pode ser de grande abjecção.

Só a terminar, dois pontos:

1 – Tenho família, e muito próxima e querida, no Brasil.

Não sei quais são os pontos de vista deles sobre tudo isto, não lhes perguntei, eles não me disseram (nem tinham que dizer). Sejam quais forem, eu respeito-os, tal como sei que respeitam os meus.

Só espero é que depois disto tudo eles continuem a ser felizes por lá, ainda mais, se possível.

2 – No entanto, a minha ligação ao Brasil é anterior a ter família lá.

Não vou falar da forte presença que a música e o cinema brasileiros tinham em Angola nos anos 50 e 60: isso é verdade, mas acho que já falei disso.

Vou falar de uma outra experiência, curta, mas que deixou forte impressão: uma visita em plena ditadura.

Foi em 1974, em Abril (pouco antes do 25 de Abril) que fomos em viagem de fim de curso (para mim acabou por não ser, mas não vem ao caso) da faculdade de economia da Universidade de Luanda.

A viagem, que tanto quanto me lembro durou quase 3 semanas, iniciou-se pelo Rio, depois Salvador, Rio de novo, São Paulo, Porto Alegre e Santa Maria (Rio Grande do Sul), Buenos Aires, São Paulo, Rio, Joanesburgo, e Luanda.

Bom, como é evidente, em tão curto espaço de tempo, não se fica com a ideia toda do país, da situação, etc.

A não ser que se vá com os olhos bem abertos, e já com alguma informação (o que era o meu caso e mais 2/3 colegas).

Como disse, isto foi há 44 anos, em plena ditadura militar.

Ordem, paz, progresso, bons costumes?

Antes de sairmos do hotel, no Rio, em plena Copacabana, (há 44 anos, repito), fomos todos avisados para não andarmos sozinhos, por causa dos assaltos, dos arrastões, para termos cuidado com os tipos que parassem as motorizadas ou os carros ao pé de nós, etc.

Bom, mas fomos andando, em pequenos grupos. De repente, começam a surgir pequenos grupos, sobretudo de menininhas, mas também de rapazes, que não teriam, imagino, mais de 13/15 anos, com todo o tipo de ofertas mirabolantes. O tráfico sexual infantil, que para nós apenas tinha aparecido em filmes(que em Angola eram para maiores de 21, ou proibidos), tinha-se de repente tornado muito real, porque nem conseguia imaginar que aqueles miúdos estivessem ali de moto próprio, devia haver alguém, ao longe, a dirigir.

Não me vou alongar nas experiências. As outras duas (nas universidades federais do Rio de Janeiro e de São Paulo), foram em conversas, mais ou menos contidas, com alguns colegas, sobretudo a apontarem para algumas paredes de alguns edifícios do campus, ainda com as marcas das balas da PM na repressão das últimas manifestações, e a falarem de colegas que tinham sido levados e não sabiam deles.

Uma vez publicado… é público

2018/10/6

É uma evidência, claro. Quem vive da escrita está certamente habituado a isso, quem escreve (ou publica) esporadicamente, menos.

Em particular quem aposta na inteligência e informação dos potenciais receptores (muitos ou poucos, é irrelevante), e não se perde em grandes explicações sobre o que está a publicar (sobretudo se essa publicação for feita num meio como o Facebook, pouco propenso a grandes digressões teóricas…)

No domingo há eleições no Brasil. Entre os vários candidatos a presidente, há um personagem sinistro, que elogia a ditadura que vigorou entre 1964 e 1985, desvaloriza de forma negligente a violação e a violência sobre as mulheres, é homofóbico, partidário e apologista da tortura e da violência policial acima da lei, enfim, uma daquelas pessoas que não desejamos para vizinhos, muito menos para presidente da república.

E é, neste momento, porque eu não publico, por restrita que seja a minha audiência, e nulo que seja o meu impacto, repito, não publico numa data à toa, só porque me deu para isso. É por isso que o guarda não está vestido de vermelho, ou cor de rosa, ou roxo: isso é o que se chama deitar fumo.

Mas, como digo no título, uma vez publicado, é público, e não posso (nem devo, a não ser que o fizesse na minha timeline) controlar os comentários que se seguem.

Ontem publiquei no Facebook o cartoon que aparece no início, apenas antecedido do comentário “O Brasil a precisar de um abanão“. Como habitualmente, nos meus posts, foi visto por poucas, mas fiéis pessoas (familiares, amigos), e teve alguns comentários.

Mas, mais interessante, e também como já aconteceu com outros posts meus, teve várias partilhas (7!, a algumas das quais não tive acesso devido às definições de privacidade de quem as fez). Ou seja, o número de partilhas quase que iguala o número de pessoas que viram directamente (ou pelo menos que deixaram uma marca – um like, uma gargalhada, etc. o que para mim está fino, não estou no campeonato da popularidade). Mas, em todo o caso, das três partilhas a que tive acesso, todas tiveram partilhas, para além de cada uma ter tido muito mais likes que o meu post original (se contar com as partilhas a que não tive acesso, e que suponho que tenham igualmente tido as suas visualizações, não está mal, posso-me considerar satisfeito).

Só que aqui entram os efeitos perversos da ironia e do humor na net, aquilo a que um analista, talvez não por acaso brasileiro, chamou, indo buscar o nome de uma peça de grande autor, também não por acaso brasileiro, Nelson Rodrigues, “bonitinha mas ordinária”: isto é, a ironia e o humor não funcionam, ou dificilmente funcionam, neste meio saturado de lugares comuns e sabe tudo que é a net, onde se misturam alhos com bugalhos, onde se se está a discutir Bolsonaro, clamam por Stalin ou outro qualquer.

Termino com algumas palavras sobre Nelson Rodrigues. Unanimemente considerado o maior dramaturgo brasileiro do século XX, com dezenas de peças suas adaptadas para o cinema e televisão (não apenas a que citei atrás), Nelson, um homem inteligente e culto, causou escândalo nos meios intelectuais brasileiros nos anos 60 ao apoiar a ditadura militar, em particular o general Garrastazzu Médici.

Até que… o seu filho Nelsinho é preso e torturado pelos militares. Aí Nelson muda, incluindo batendo-se nas ruas pela amnistia irrestrita aos presos políticos.

Pois é, a amostra para Nelson não foi grátis.

Memórias – os carrinhos de bordão

2018/09/3

Os carrinhos de bordão eram a minha perdição, numa certa altura da minha infância, sobretudo em Caxito.

De um post no Facebook, em 3 de setembro de 2017.