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A perda do Brasil por alguns (espero que poucos…) anos

2018/10/28

A Estátua de Sal

(José Pacheco Pereira, in Público, 27/10/2018)

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Existe uma tese de que um antepassado meu, Duarte Pacheco Pereira, teria sido o descobridor do Brasil e não Pedro Alvares Cabral. Essa descoberta teria sido mantida sigilosa para que, na competição com Castela, fosse possível deslocar a divisão do Tratado de Tordesilhas de modo a incluir o “desconhecido” Brasil, sendo Duarte Pacheco Pereira um dos signatários do tratado. Camões gostava tanto da personagem que lhe dedicou quase um canto como “Aquiles Lusitano”. O seu retrato austero e guerreiro, de espada e armadura, dominou sempre aquilo que antes era a “sala de visitas” de casa dos meus pais e está hoje perto de mim, numa “sala de retratos”, junto dos Pachecos antigos, sombras da minha sombra.

Digo isto porque vamos perder o Brasil por alguns anos de ferro e fogo, se Bolsonaro ganhar as eleições, processo em que se sabe como vamos entrar, mas…

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Brasil, adormecido no sono da razão

2018/10/24

Como tudo parece indicar, no próximo domingo o “capitão” Jair Bolsonaro será eleito presidente do Brasil, com os votos de um eleitorado vociferante, não tanto de apoio a ele, mas de recusa a outros.

Já foram por de mais analisadas as razões e a justiça dessa “recusa”.

É claro que é verdade que houve corrupção nos anos em que o PT teve a presidência. Negá-lo seria negar uma evidência, e não é negando evidências que se deve fazer política (a não ser que se queira mentir).

E é natural que as pessoas estejam revoltadas com isso (e não apenas aquelas que acreditaram que o PT iria moralizar a vida política brasileira, tendo-lhe entregue o seu voto, e sentindo-se por isso duplamente defraudadas).

Mas elas não esquecem também que foi com os governos do PT que, pela primeira vez na história centenária do Brasil, dezenas de milhões de deserdados tiveram acesso a algo mais do que a sobrevivência (como foi reconhecido por várias instituições internacionais), que puderam ter as suas casas e mandar os seus filhos estudar e ter melhores cuidados de saúde (que, no geral, continuam a ser maus).

Até aí, todos os governos apenas se tinham preocupado com os mesmos de sempre, em particular os aglomerados do eixo Rio/S. Paulo, e o litoral sul. Queiram ou não, foi com os governos PT (e, em certa medida, com Fernando Henrique Cardoso), que começou a haver uma classe média a preencher o hiato enorme entre os possidentes e os semi-proletários.

Bolsonaro promete acabar com a corrupção, a violência, a insegurança, fazer não se sabe bem o quê com os homossexuais e os negros (nem ele sabe, porque não tem programa, a não ser as declarações descabidas que lhe saem da boca sem freio), a ferro e fogo.

Elogia a ditadura militar que governou o Brasil com mão de ferro de 1964 a 1985, sabendo que a maioria da população, jovem, não tem memória desses anos de chumbo.

Critica essa ditadura, porque em vez de prender, devia ter morto muito mais gente do que a que matou.

Elogia a tortura, em particular o torcionário que torturou a presidente Dilma.

Em tempo: Dilma pode ter sido uma presidente fraca, e imprudente no erro contabilístico que foi aproveitado covardemente para a sua impugnação (em nenhum país civilizado do mundo onde aquilo é feito – e são às dezenas – tal conduz à impugnação, quando muito à correcção das contas), mas Bolsonaro terá de usar saltos muito altos para chegar ao nível dela!

Em pleno Senado, diz a uma deputada que não a estupra (completando depois que é por ser muito feia). Esta frase, só por si, devia afastar tal indivíduo de qualquer convívio humano, quanto mais de uma candidatura a presidente!

Propõe fuzilamentos, esterilizações forçadas.

Mas, pelos vistos, a maioria dos eleitores brasileiros está satisfeita com isto!

Como dizia Goya, “o sono da razão produz monstros”. E parece que a razão anda adormecida, abaixo do equador.

Não vale a pena, nesta altura falar de história, e do exemplo da Alemanha dos anos 30, que levou Hitler ao poder, e das suas consequências. Quem não a aprendeu até agora, também só a vai aprender na prática, infelizmente.

Claro que várias coisas podem acontecer:

  • – haver uma tomada de consciência de última hora, e Haddad vencer; espero que sim, com baixa probabilidade;
  • – como se antevê, Bolsonaro vence; mas
    • — Bolsonaro é um fala barato, e será um joguete nas mãos dos militares (através do seu vice-presidente) e dos grandes interesses; a prazo os militares poderiam mesmo tomar o poder;
    • — por vezes as aparências enganam, e Bolsonaro revela-se um duce (ou o que se queira chamar), com controlo do país e das forças armadas, aplicando ou não todas as suas medidas.

Brasil e nós (ou e eu)

2018/10/9
tocando flauta no morro (gravura de Cândido Portinari)

Comecemos com uma frase “suave” de Bolsonaro:

“Nem para procriador o afrodescendente serve mais”

No domingo passado, Jair Bolsonaro recolheu a maioria dos votos na primeira volta das eleições presidenciais brasileiras, 46% do total. Ou seja, mais de 49 milhões de eleitores brasileiros votaram num personagem cavernícola, capaz de dizer uma frase como a que sublinhei acima (e que, repito, apesar de grotescamente racista e contrária à ideia que toda a gente tem do Brasil, da sua sociedade, da sua cultura, consegue ser das mais “suaves”, que ele disse).

Mas logo depois de escrever aquilo, arrependi-me, porque as diatribes desta classe de ditadores de pacotilha, que jogam com a ignorância e os medos irracionais do povo, não se sujeitam a nenhuma métrica, não há mais nem menos – há apenas a ocasião e o público adequados, e uma comunicação social prestimosa, mesmo que seja para dizer que a comunicação social apoia toda “o outro lado”. E as outras frases de Bolsonaro só dão razão a esta ausência de métrica.

Grupo de meninas brincando (Cândido Portinari)

Tomemos outro exemplo paradigmático da personalidade que a maior parte do eleitorado brasileiro escolheu para presidente.

Este exemplo não é de qualquer política que ele queira implementar (talvez aqueles que nele votaram não saibam, mas em mais de duas décadas como deputado, Bolsonaro só participou em duas iniciativas legislativas, seria de se perguntar o que ele andou lá a fazer, mas afinal isso que interessa?), mas diz tudo sobre o carácter da pessoa.

Em debate com a deputada Maria do Rosário (PT), e, não sei se como forma de “desarmar” a oponente e “ganhar” o debate, como fazem os cobardes, diz qualquer coisa como:

“Fica aí, Maria do Rosário, eu falei que não ia estuprar (violar) você, porque você não merece”. Posteriormente, em conversa com os jornalistas, e em tom de brincadeira, acrescentou, “porque 
é muito feia”.

Ora, dos 49 milhões de votantes em Bolsonaro, certamente muitos (metade, mais de metade?) são mulheres. O que pensarão, ao depositar o boletim de voto?

Claro, não vão pensar que vão ser atacadas por Bolsonaro: basta olhar para ele para se perceber que ele não é dos que faz, é dos que manda fazer.

Ou, pior ainda, se for eleito presidente, e depois destas afirmações, é um exemplo de mau carácter e de via verde para os estupradores: se para o presidente estupro é motivo de brincadeira, então…

Mas voltando ao momento de colocar o voto.

  • A mulher acha-se feia, e portanto está fora da “permissão tácita” do incumbente presidente?
  • Ou, achando-se bonita, achará uma honra ter sido violentada com beneplácito presidencial?

Eu sei que estou a brincar com coisas muito sérias, mas quando se tem um candidato a palhaço como candidato presidencial, estas coisas são inevitáveis. Afinal de contas, dezenas de milhões de pessoas desculparam-nas a Bolsonaro, porque não a mim? E a diferença é que eu não estou a insultar ninguém, sei que ninguém fez esse tipo de raciocínio, e esse é precisamente um dos problemas: não fez, não pensou, não votou a favor, votou contra.

Porque a verdadeira questão não é evidentemente aquela (ser ou não, considerar-se ou não, bonita ou feia), mas o facto de um candidato ao mais alto cargo do país poder dizer uma tal atrocidade

que representa um dos crimes mais hediondos, em particular contra as mulheres,

em qualquer lado,

no senado,

a uma outra deputada.

Mas não se fica por aqui, o rol de disparates que Bolsonaro disse ao longo da campanha e ao longo dos anos.

Entre os mais sonantes, estão os homofóbicos
“Seria incapaz de amar um filho homossexual”

e aqueles em que ele manifesta o seu apoio à ditadura que vigorou de 1964 a 1985, o apoio à tortura, aos fuzilamentos, e a saudação particular que enviou ao torturador da ex-presidente Dilma Roussef.

Não é que eu alguma vez tenha sido um grande admirador ou seguidor de Dilma (ou de Lula, já agora). Acho que o PT esbanjou o capital de esperança que inicialmente muita gente nele depositava, ao se deixar arrastar pela onda de corrupção endémica que parece assolar o Brasil à décadas (sim, o que esta população parece não saber (os jovens têm desculpa, os outros não), é que não foi o PT que trouxe a corrupção, ela já lá estava muito antes, até durante a ditadura incensada por Bolsonaro, e até muito antes da ditadura: só que com o PT os grandes jornais começaram a falar disso, e antes não.

“Pela memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Roussef!”

Esta frase joga bem com a foto, e é por isso que, apesar das reservas que coloquei a Dilma, acho a foto notável, enquanto a frase é do típico fala-barato, que nunca colocou a vida em risco (outra das suas frases grandiloquentes é 
“O soldado que vai à guerra e tem medo de morrer é um cobarde”, mas ele nunca esteve em situação de guerra, aliás, é um “militar” que passou à reserva aos 33 anos…)

Bolsonaro saúda o torturador de Dilma. Eu não vou dizer que gostaria de ver Bolsonaro na situação de Dilma, com um grupo de generais ou coronéis (ou mesmo civis) torturadores à sua frente, com todo o poder para fazerem dele o que quizessem. Não, não desejo isso a ninguém, nem a Bolsonaro, porque, ao contrário de Bolsonaro, sou pela civilização, e portanto, contra a tortura (assim como, evidentemente, contra as execuções e esterilizações, de que ele gosta tanto).

Mas, apenas por curiosidade, gostava de saber se a fotografia para a posteridade seria semelhante a esta: os torturadores a esconderem a cara; só a Dilma mostra alguma dignidade, num ambiente que pode ser de grande abjecção.

Só a terminar, dois pontos:

1 – Tenho família, e muito próxima e querida, no Brasil.

Não sei quais são os pontos de vista deles sobre tudo isto, não lhes perguntei, eles não me disseram (nem tinham que dizer). Sejam quais forem, eu respeito-os, tal como sei que respeitam os meus.

Só espero é que depois disto tudo eles continuem a ser felizes por lá, ainda mais, se possível.

2 – No entanto, a minha ligação ao Brasil é anterior a ter família lá.

Não vou falar da forte presença que a música e o cinema brasileiros tinham em Angola nos anos 50 e 60: isso é verdade, mas acho que já falei disso.

Vou falar de uma outra experiência, curta, mas que deixou forte impressão: uma visita em plena ditadura.

Foi em 1974, em Abril (pouco antes do 25 de Abril) que fomos em viagem de fim de curso (para mim acabou por não ser, mas não vem ao caso) da faculdade de economia da Universidade de Luanda.

A viagem, que tanto quanto me lembro durou quase 3 semanas, iniciou-se pelo Rio, depois Salvador, Rio de novo, São Paulo, Porto Alegre e Santa Maria (Rio Grande do Sul), Buenos Aires, São Paulo, Rio, Joanesburgo, e Luanda.

Bom, como é evidente, em tão curto espaço de tempo, não se fica com a ideia toda do país, da situação, etc.

A não ser que se vá com os olhos bem abertos, e já com alguma informação (o que era o meu caso e mais 2/3 colegas).

Como disse, isto foi há 44 anos, em plena ditadura militar.

Ordem, paz, progresso, bons costumes?

Antes de sairmos do hotel, no Rio, em plena Copacabana, (há 44 anos, repito), fomos todos avisados para não andarmos sozinhos, por causa dos assaltos, dos arrastões, para termos cuidado com os tipos que parassem as motorizadas ou os carros ao pé de nós, etc.

Bom, mas fomos andando, em pequenos grupos. De repente, começam a surgir pequenos grupos, sobretudo de menininhas, mas também de rapazes, que não teriam, imagino, mais de 13/15 anos, com todo o tipo de ofertas mirabolantes. O tráfico sexual infantil, que para nós apenas tinha aparecido em filmes(que em Angola eram para maiores de 21, ou proibidos), tinha-se de repente tornado muito real, porque nem conseguia imaginar que aqueles miúdos estivessem ali de moto próprio, devia haver alguém, ao longe, a dirigir.

Não me vou alongar nas experiências. As outras duas (nas universidades federais do Rio de Janeiro e de São Paulo), foram em conversas, mais ou menos contidas, com alguns colegas, sobretudo a apontarem para algumas paredes de alguns edifícios do campus, ainda com as marcas das balas da PM na repressão das últimas manifestações, e a falarem de colegas que tinham sido levados e não sabiam deles.

Uma vez publicado… é público

2018/10/6

É uma evidência, claro. Quem vive da escrita está certamente habituado a isso, quem escreve (ou publica) esporadicamente, menos.

Em particular quem aposta na inteligência e informação dos potenciais receptores (muitos ou poucos, é irrelevante), e não se perde em grandes explicações sobre o que está a publicar (sobretudo se essa publicação for feita num meio como o Facebook, pouco propenso a grandes digressões teóricas…)

No domingo há eleições no Brasil. Entre os vários candidatos a presidente, há um personagem sinistro, que elogia a ditadura que vigorou entre 1964 e 1985, desvaloriza de forma negligente a violação e a violência sobre as mulheres, é homofóbico, partidário e apologista da tortura e da violência policial acima da lei, enfim, uma daquelas pessoas que não desejamos para vizinhos, muito menos para presidente da república.

E é, neste momento, porque eu não publico, por restrita que seja a minha audiência, e nulo que seja o meu impacto, repito, não publico numa data à toa, só porque me deu para isso. É por isso que o guarda não está vestido de vermelho, ou cor de rosa, ou roxo: isso é o que se chama deitar fumo.

Mas, como digo no título, uma vez publicado, é público, e não posso (nem devo, a não ser que o fizesse na minha timeline) controlar os comentários que se seguem.

Ontem publiquei no Facebook o cartoon que aparece no início, apenas antecedido do comentário “O Brasil a precisar de um abanão“. Como habitualmente, nos meus posts, foi visto por poucas, mas fiéis pessoas (familiares, amigos), e teve alguns comentários.

Mas, mais interessante, e também como já aconteceu com outros posts meus, teve várias partilhas (7!, a algumas das quais não tive acesso devido às definições de privacidade de quem as fez). Ou seja, o número de partilhas quase que iguala o número de pessoas que viram directamente (ou pelo menos que deixaram uma marca – um like, uma gargalhada, etc. o que para mim está fino, não estou no campeonato da popularidade). Mas, em todo o caso, das três partilhas a que tive acesso, todas tiveram partilhas, para além de cada uma ter tido muito mais likes que o meu post original (se contar com as partilhas a que não tive acesso, e que suponho que tenham igualmente tido as suas visualizações, não está mal, posso-me considerar satisfeito).

Só que aqui entram os efeitos perversos da ironia e do humor na net, aquilo a que um analista, talvez não por acaso brasileiro, chamou, indo buscar o nome de uma peça de grande autor, também não por acaso brasileiro, Nelson Rodrigues, “bonitinha mas ordinária”: isto é, a ironia e o humor não funcionam, ou dificilmente funcionam, neste meio saturado de lugares comuns e sabe tudo que é a net, onde se misturam alhos com bugalhos, onde se se está a discutir Bolsonaro, clamam por Stalin ou outro qualquer.

Termino com algumas palavras sobre Nelson Rodrigues. Unanimemente considerado o maior dramaturgo brasileiro do século XX, com dezenas de peças suas adaptadas para o cinema e televisão (não apenas a que citei atrás), Nelson, um homem inteligente e culto, causou escândalo nos meios intelectuais brasileiros nos anos 60 ao apoiar a ditadura militar, em particular o general Garrastazzu Médici.

Até que… o seu filho Nelsinho é preso e torturado pelos militares. Aí Nelson muda, incluindo batendo-se nas ruas pela amnistia irrestrita aos presos políticos.

Pois é, a amostra para Nelson não foi grátis.

Memórias – os carrinhos de bordão

2018/09/3

Os carrinhos de bordão eram a minha perdição, numa certa altura da minha infância, sobretudo em Caxito.

De um post no Facebook, em 3 de setembro de 2017.

A “independência” dos organismos internacionais

2018/01/22

“O economista-chefe do Banco Mundial, Paul Romer, pediu desculpas ao Chile. As subidas e descidas nada tiveram a ver com mudanças reais na política chilena, mas com mudanças nos critérios usados. O facto de essas alterações coincidirem com as mudanças de ciclos políticos no Chile levou Paul Romer a assumir, no “The Wall Street Journal”, que os critérios terão sido “potencialmente contaminados pelas motivações políticas do pessoal do Banco Mundial”. Não é preciso dizer que esta revelação causou grande indignação no Chile e que a Presidente Bachelet, que em março volta a dar lugar a Piñera, exigiu uma investigação profunda ao sucedido.”

 

via Fraude no Banco Mundial: índices da normalização política 

Lumumba e eu

2018/01/18

lumumba

Lumumba após ser preso

 

Patrice Lumumba e eu nunca nos encontrámos.

Não é que na altura estivéssemos muito afastados: ele na então Leopoldville (agora Kinshasa), perto da fronteira com Angola, e eu no Caxito/Mabubas: a umas centenas de quilómetros, por estrada.

Quando eu ouvi falar dele tinha cerca de 10 anos de idade, e pouco depois ele morreria assassinado, num episódio que ainda hoje permanece obscuro, mas em que se sabe que houve a mão de Kasa Vubu, presidente do Congo recém independente, do governo belga de então, ex-potência colonizadora, cujo rei Balduíno aparentemente não havia gostado do discurso frontal de Lumumba na cerimónia de independência, das Nações Unidas e do então secretário –geral, o sueco Dag Hamarksjoeld, que tinham tropas no Congo em princípio para assegurar uma transição pacífica, mantendo a neutralidade, e, inevitavelmente, dos Estados Unidos, através da CIA e do Conselho Nacional de Segurança.

Ah, já me esquecia: espreitando na sombra, mas prontos a surgir à luz do dia, dois personagens sinistros, que iriam trazer ao enredo algumas das piores características da história da África pós-colonial: o golpismo, por um então jovem coronel Mobutu, e o separatismo, pelo líder regional catanguês Mose Tshobe.

Claro que, para além de não conhecer Lumumba, na altura eu não tinha quaisquer ideias políticas. Toda a minha família tendo nascido em Angola (com excepção dos avós, que para lá tinham ido no início do século (o meu avô materno até no final do século XIX, entre o Congo e Angola), sabíamo-nos portugueses porque assim o diziam os documentos, a escola (desde os reizinhos todos desde Afonso Henriques, a geografia do Minho e do Alentejo, os ramais ferroviários, o Entroncamento…), as cerimónias, a rádio, e as pessoas que vinham de Portugal – não escondendo no entanto a superioridade (“brancos de segunda…”).

Acresce que o meu pai, sendo funcionário administrativo, enquanto chefe de posto ou administrador de concelho (ou adjunto) era muitas vezes o (ou um dos) representante do Estado português nesse posto ou concelho onde nos encontrássemos.

Mas mesmo não tendo, como é evidente, quaisquer ideias políticas, tal não quer dizer que não estivesse a par – mais ou menos – do que se passava, em Angola, no Congo, e um pouco pelo mundo.

A principal “fonte de informação” eram, como seria de esperar, as conversas dos mais velhos (por muito que, por vezes, procurassem proteger-nos de preocupações inúteis). Esforço inútil: se não era em casa, era na rua, ou na escola, ou à saída da igreja, ou em qualquer outro lado.

Todos andavam preocupados, porque para além das atoardas de Salazar, toda a gente tinha a sensação – a certeza – de que o que se passava no Congo era apenas uma antecâmara do que se iria passar em Angola.

E havia outras fontes, claro.

A rádio, primeiro que tudo.

Vivemos em muitos postos e concelhos onde só se ligava a electricidade uma ou duas horas por dia (se o motor não estivesse avariado), acho que normalmente entre as 8 e as 10 da noite, para o que fosse necessário.

Pois era a essa hora também que se ouvia rádio (como é evidente, não havia transístores): notícias, um pouco de música, e já está.

Caxito, como ficava próximo da barragem das Mabubas, foi o primeiro local em que tivemos electricidade 24 horas por dia, o que equivale a uma revolução. Claro que, convém não esquecer, estou a falar das notícias “possíveis”, numa colónia, em pleno “Estado Novo”.

Mas havia ainda uma outra fonte: a imprensa escrita.

E aqui há um aspecto curioso. Nos grandes centros, talvez houvesse “comissões de censura” para a imprensa internacional. Nos concelhos, essa tarefa era entregue às administrações (não sei se aos administradores, que as delegavam nos adjuntos, se directamente nestes, sei que normalmente iam parar ao meu pai). Ora o meu pai, ou por não ter pachorra para aquilo, ou por achar que tinha mais que fazer, deixava as revistas lá por casa (Paris Match, Time, O Cruzeiro, Manchete, Life, etc.), até as devolver.

Depois, Caxito encontra.se numa situação muito particular: ao mesmo tempo próximo de Luanda e do norte de Angola (zona de passagem), e com uma população com uma qualificação superior à média, tal como por exemplo a da periferia de Luanda ou Catete –para não fugir às palavras, pessoas que a terminologia colonial designava por “assimilados”. Assimilados, talvez, mas não submissos.

Recordo um episódio, antes ainda de antes de a guerra ter começado em Angola (ou “o terrorismo”, como foi denominada a luta de libertação durante todo o seu período até 1974).

Caxito era famoso pelo seu carnaval. Um carnaval genuíno, popular, em que as populações dos bairros à volta da vila participavam com os seus grupos, as suas danças e as suas músicas (recordo uma, “Cidrália”, que nunca mais ouvi).

Havia um senhor – não costumo citar a cor da pele, mas aqui impõe-se dizer que era negro – que vinha todas as semanas de Luanda na sua motorizada NSU vender lotaria na zona de Caxito, e eventualmente nas redondezas. Recordo um homem simpático e afável, que todas as semanas era esperado, para vender as cautelas e mostrar a lista para se ver se havia algum prémio.

Bom, no último carnaval antes da guerra (portanto terá sido o de 1960), houve uma discussão entre esse senhor e outro senhor – branco, e adianto já que não sei quais os motivos da discussão, nem quem tinha razão – e o cauteleiro acabou atirado para a vala de rega da companhia do açúcar.

Claro que, em si, a queda na vala não representava nenhum risco grave do ponto de vista físico: eu próprio e os meus colegas da escola primária mergulhámos muitas vezes nela, não era preciso saber nadar, todos tínhamos pé.

O factor chave aqui foi a humilhação, e a presença da multidão que festejava o carnaval. Lembremo-nos que tudo isto se passa já após o assassínio de Lumumba, e ainda durante grande tumulto no Congo, em particular no Katanga.

A multidão começa a juntar-se, a protestar, a ameaçar, a dirigir-se para a frente da administração. O meu pai, como responsável da administração do concelho (na ausência do administrador), teve de se desdobrar em diplomata. Não sei como ele fez, mas nós víamos que ele estava evidentemente preocupado: as populações negras estavam indignadas, a população branca (em muito menor número), entre o temeroso e o mostrando já algumas armas, e as únicas “tropas” de que dispunha eram seis ou sete sipaios, alguns dos quais vinham do carnaval, e em última análise nunca se sabia bem de que lado estavam.

É certo que Luanda está só a 60 quilómetros, mas mesmo assim ainda é pelo menos uma hora até algum reforço chegar.

Como digo, não sei qual a táctica utilizada pelo meu pai. À distância, parece-me que optou por falar com os membros mais destacados de ambas as comunidades (isso eu sei que ele conhecia bem – eram conhecimentos que lhe ficavam para a vida toda, e que ele reencontrou mesmo depois da independência), e que da parte destes encontrou a receptividade e a sensatez necessárias para serenar os ânimos, pelo menos em grande parte.

Quando, ao fim da tarde, chegou de Luanda uma pequena força policial, já havia poucas pessoas pelas ruas.

Mas o que eu queria realçar com este episódio era o seguinte: o que eu recordo daqueles tempos é a sensação de que qualquer fagulha acenderia a fogueira – tal como viria a acontecer no ano seguinte, em janeiro na baixa do Cassange, em Luanda a 4 de fevereiro, e a 15 de março no norte de Angola, também em alguns postos do Caxito – como em Quicabo, onde nós estivemos a almoçar, na casa do chefe de posto, Melo, uma semana antes.

Não deveria meter num texto que começa com uma tragédia – e da qual o Congo ainda não se libertou – episódios semi-humorísticos. Mas como está ligado – e não esqueçamos que toda a tragédia tem – normalmente – duas faces, neste caso, à tragédia secular dos congoleses, não podemos deixar de esquecer os belgas que lá viviam, e que não eram certamente todos exploradores e saqueadores.

Com a independência do Congo, Angola, e em particular, Luanda, tornou-se o ponto preferencial de saída dos belgas. Sim, “refugiados”, era o nome por que eram conhecidos em Luanda os belgas que eram vistos a circular, de carro ou a pé, e organizaram-se formas de os ajudar (os que precisavam).

Ora, acontece que por aquela altura, eu e o meu irmão Carlos eramos assim para o louro, tal como o meu pai (a minha irmã não, saiu morena como a minha mãe). Andávamos nós por Luanda, com a minha mãe, às compras, quando um grupo de senhoras, certamente com as melhores intenções, literalmente nos ataca: “Coitadinhos dos refugiados, precisam de ajuda, diga do que precisa?”

Foi difícil à minha mãe convencer as boas almas de que não eramos refugiados, de que graças a deus não precisávamos de nada.

E quanto a Lumumba?

Só mais tarde, claro, compreendi, a sua estatura, a ignomínia em que estiveram envolvidos os suspeitos do costume na consumação da sua tragédia.

Se ele tem sobrevivido, a história do Congo (e dos países vizinhos) teria sido diferente?

Nunca o saberemos, como é evidente.

Sabemos quem foram os vencedores (Mobutu foi um deles), e só as leis da vida os afastaram.